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domingo, 17 de dezembro de 2017

ROSA - NOME DE FLOR


ROSA - NOME DE FLOR

Mas é também um nome de mulher.
Se as profecias dizem que não há um ser igual a outro, não encontramos ninguém igual a Rosa.
Figura mediana, toda ela exótica, concilia a arte do vestuário, predominantemente de cor branca e a tonalidade dos cabelos que ela pincela de diversos e matizados reflexos que evocam uma cascata mágica de paraísos olímpicos. A originalidade de Rosa está na sua simplicidade. E assenta sobretudo na cor, não para simplesmente colorir mas para iluminar.
As profecias dizem também que os olhos são o espelho da alma. Nos olhos desta jovem mulher, mãe de família, se os olharmos com atenção, descortinamos a cor como nobre símbolo da sua personalidade e encontramos sombras de um tom aveludado de noite reproduzindo um vago queixume de tristeza.
Procurando, como que pesquisando, concluímos que a natureza repousa nos olhos de Rosa: o azul líquido dos mares, o mate fulvo dos vulcões, o esverdeado das folhas e vários tons de castanhos, desde os troncos das árvores, a folhagem do Outono, o dourado das colinas no sol poente. Não desprezemos as algas marinhas, a voluptuosidade dos líquenes, a sedução do nenúfar.
A paleta de tons que se irradia desta figura como uma sinfonia em surdina, para uma visão mais atenta, revela-nos também um romantismo secreto ansioso por expandir-se mas defendido pelo desapontamento que lhe inspiram as realidades do seu meio ambiente.
Porque é especial, Rosa não encontra cumplicidade no mundo que a rodeia. Adaptar-se ou moldar-se a esse mundo exige um artifício que é contra a sua forma de ser. O conflito atenua-se no isolamento interior, na mágoa oculta. Por mais incompreensível que pareça, é desta súmula de sentimentos que irrompe a sua quota parte de auxílio ao próximo. Solidária, participativa, compreensiva e sobretudo, altruísta. Anula-se para erguer o outro da queda.
Certa filosofia costuma adiantar que não são as grandes coisas que revelam os grandes caracteres mas as pequenas, pois para vermos de que lado sopra o vento, não é uma pedra mas uma folha que se atira ao ar.
Isto vem a propósito de um pormenor, que podemos apelidar de insignificante, rotineiro, que parece sem importância: a forma de conduzir o automóvel. Rosa e o veículo modelam um todo homogéneo; como um só símbolo no universo do tráfego, tantas vezes caótico. Rosa conduz como se acariciasse. Tranquila, sem excessos de humor, transmite confiança, mesmo nas situações mais belicosas.
Bem, por mais que diga, fica tudo por dizer.
Apenas recordo que o mundo é mais quente e luminoso com pessoas assim e fica cada vez mais empobrecido com aqueles que as maltratam, as ignoram, as não compreendem.
Mas a vitória é de Rosa.

Amiga: Que as bênçãos deste Natal de 2017,desçam sobre si e sobre a sua casa, contemplando-a e a todos os que lhe são queridos.
Um Novo Ano se aproxima. Desejo por invocação divina, que cada dia de 2018 lhe traga os melhores auspícios de paz, alegria, saúde e prosperidade.
Um xi-coração pleno de carinho e profunda amizade.

sexta-feira, 17 de março de 2017

O MEU PAI


19 de Março é um dia para acentuar a figura daquele que, para além de me dar o ser, me ajudou durante quarenta anos, a desenvolver em mim a planta que ele, com a minha mãe, lançou no mundo, numa época em que a moral era a pauta da família e o respeito e a obediência à autoridade progenitora, era um pelouro destinado a valorizar a sociedade.
Habituei-me a reconhecer o meu pai, ainda garota de colo, quando ele envolvia os meus minúsculos pés e mãos no côncavo das suas mãos musculosas e fortes.
Homem de acção mas de poucas palavras, era ele que me deitava, não sem antes me ensinar a escolher a roupa do dia seguinte e, com meticulosa sabedoria, a ordenava numa cadeira.
Quando os meus movimentos se tornaram autónomos, esperava o meu pai à hora do almoço. observando-o da janela. Ele assomava ao fundo da rua, no seu fato de macaco enodoado de óleo, a boina enterrada na cabeça. As mangas arregaçadas denunciavam uns braços másculos, morenos do sol de verão. No espaço de pouco mais que meia hora, almoçava paulatinamente e do mesmo modo repousado, descascava a maçã ou a laranja que não dispensava nunca.
Os meus pais amavam-se muito e constatar isso, fazia-me feliz.
Aos quatro anos, aprendi a andar de bicicleta. Numa certa zona da cidade, frente à foz do rio Mondego, exercitava-me nos fins de tarde, alugando também para ele um velocípede muito maior do que o meu, que parecia um brinquedo. Daí que o ciclismo fosse o desporto preferido ao longo da minha vida.
Os domingos eram dias especiais para nós. Por exigência materna, eu ia à missa do meio-dia, o culto das meninas de classe social mais elevada. Para mim, era uma oportunidade de elas conseguirem namorado ou convívio natural com rapazes que as aguardavam no átrio da igreja.
Finda a missa, oportunidade também para mostrar um vestido novo, eu ia directamente encontrar-me com o meu pai, na esplanada, sobranceira à praia. Nessa manhã, já ele tinha ido ao mercado fazer as compras que completava com o ruivo, peixe da sua predilecção e uma melancia muito de lhe fazer crescer água na boca.
Enquanto fazíamos horas para o almoço que a mãe confeccionava todas as manhãs, nós dois, pai e filha, passeávamos de braço dado, pela avenida da Liberdade, a única frondosa daquela artéria da cidade, não conversando muito mas cúmplices no nosso orgulho recíproco.
Recordo com saudade esses momentos. Meu pai envergava um fato completo, de bom corte, confeccionado por medida no seu alfaiate habitual, azul escuro ou cinzento. Quando não usava o chapéu, punha uma boina, inclinada sobre a orelha, “boina à espanhola”, muito apreciada por certas pessoas gradas da terra. Uma delas, o Dr. Rigueira, Reitor do liceu que eu frequentava e que era também meu professor de Matemática. Completava a indumentária de meu pai, os adereços peculiares dele, um alfinete de gravata, a aliança, um anel grosso com um brilhante e o seu inseparável relógio de bolso com corrente de prata.
Quando o clima nos proporcionava digressões prolongadas, a pé ou de bicicleta, íamos até à serra da Boa Viagem ou às minas do Cabo Mondego. Aconteciam sempre peripécias divertidas que nos enchiam de alegria e fortificavam a nossa convivência. Não mais esqueço o susto que apanhei quando o vi rebolar pela ribanceira seguido pelos torrões de argila marginais que não suportaram o seu peso. O seu sentido de humor, a sua tranquila observação das ocorrências estimulavam-me a encarar a vida de uma forma corajosa e saudável.

Pai, meu Pai querido, a tua falta continua a ser um profundo golpe e a ferida deste enorme vácuo, sangra, sangra muito. Com a tua perene ausência, um vazio se ergueu por todos os lugares que percorremos juntos, ligados por uma camaradagem que não vejo repetida na maior percentagem das famílias. Imagino que, onde quer que estejas, o teu olhar me persegue e o teu espírito, sábio, intransigente e justo, me aguarda para, nos mistérios do insondável, continuarmos os nossos passeios de bicicleta.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

PORTUGAL - CAMPEÃO EUROPEU de Futebol 2016


VIVA PORTUGAL!!!


Ficará nos anais da História e Cultura portuguesas o dia 10 de Julho de 2016.
Estamos todos felizes. Todos os que amam este País, honram esta Bandeira, hoje a esvoaçar no topo mais alto das adriças internacionais e evocam na sua memória o Hino Nacional que começa por “Heróis do mar” mas pode bem transformar a frase em “Heróis da Europa.
Há duas vertentes que não desejo deixar de assinalar no comportamento dos dois antagonistas. Do lado português, a transparência, a correção, a dignidade com que os jogadores defrontaram o adversário, aparando-lhe todos golpes e do lado francês, os ardis, a violência mesquinha, as “cargas”, o sofrimento infligido por estrategas que em nada honraram nem a sua Pátria nem o desporto em que se filiaram.
As “lágrimas de sangue” que ameaçaram provocar transformaram-se em “lágrimas de felicidade”. Os “nojentos” com que nos denominaram, estimulara-nos para a vitória, para um Final que será premiado coma Ordem de Mérito aos vencedores, cujo brilhante, embora desgastante desempenho, possui o mesmo fascínio que a Taça justamente conquistada.
Deplorável também foi o não “saber perder” da equipa francesa. Pelas suas atitudes pós-jogo, revelaram a baixeza dos seus sentimentos.
E como nada acontece por acaso e na vida nos é permitido conhecer os factos através de sinais, a maior parte das vezes despercebidos, exaltemos a imagem desse insecto belo e delicado, símbolo do Bem, que volteava no campo traduzindo mensagens de esperança: a Borboleta. Lembremos onde ela pousou; a fronte que acariciou.
O Portugal que somos todos nós, está de Parabéns.
Saudemos os Heróis!
Cantemos, gravando na alma, com o orgulho de sermos Portugueses:

“…nobre povo,
nação valente e imortal,
levantai hoje de novo,
o esplendor de Portugal”…

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Homenagem a César Vallejo (1893-1938)


Hino aos voluntários da república
(1937)

Voluntário da Espanha, miliciano
dos ossos confiáveis, quando marcha morre o seu coração, quando marcha mata com a sua agonia
mundial, não sei verdadeiramente
o que ei de faze, onde pôr-me; corro, escrevo, aplaudo,
grito, pressinto, destruo-o, apago, digo
ao meu peito que acabe, o bem, que venha,
e quero desgraciar-me;
descubro-me na frente impessoal para tocar
no vaso de sangue, faço uma pausa,
pare o meu tamanho aquelas famosas caídas de arquiteto
com as que se honra o animal que me honra;
vazam os meus instintos as suas cordas,
fuma no meu túmulo alegria
e, outra vez, sem saber o que fazer, sem nada, deixei-me,
desde a minha pedra no branco, deixei-me,
sozinho,
quadrúmana, mas aqui, muito mais longe,
não caber entre as minhas mãos um largo rato estático,
quebro contra a tua rapidez com dois gumes
a minha pequenez num traje de grandeza!


tradução do espanhol por Vera Santos

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

ALBERTO - PARA UM MOMENTO


4º texto


De Alberto, não me resta mais nada a não ser a imagem de um jovem que adorava brincar com os idosos no Lar onde prestava assistência, pregando-lhes “partidinhas” inofensivas, irradiando com o seu sorriso contagiante a solidão afectiva dos sem família. Porquê, Alberto? Tão alegre, comunicativo e tão drástico? Trocou este mundo pelo outro. Agora talvez saiba se fez a melhor opção.



Já se dera a combinação entre o riscar da pedra e o gás expelido indicando-se uma chamada de calor e luz. Vindo debaixo, o cigarro aproximou-se como o presente se aproxima do futuro, como um oposto a meio do caminho andado, tende para o oposto; o encontro verificou-se sem que chama e cigarro tivessem, na realidade, se encontrado. Foi de repente que a chama transmitiu a sua luz e o calor cigarro, este inflamou-se numa claridade mais clara que a claridade do sol que o rodeava, era dia. Do cigarro nasceu um novo ser que morreu logo de seguida, o fumo desaparecia mesmo antes de criar forma. O único facto que dava sentido ao novo ser que nascia era o desaparecimento contínuo do cigarro, do desaparecer deste resultava ainda um todo que se desintegrava quando se desligava do todo de que fora parte integrante. Fora um momento onde o sentido de morte e de vida se haviam confundido, a existência perdera o seu sentido, a realidade… A realidade resume-se às entrelinhas.

Alberto - Tempo



2º texto


Só hoje me é possível divulgar mais um dos escritos de Alberto, a que ele intitulou Tempo. Foi uma forma de o fazer “reviver” nas suas ideias e tentar compreender a tormenta e decepção que rodeavam a sua alma e o levaram ao desespero




No espaço vazio vigorava um terrível silêncio, uma eterna solidão. Tudo era um infinito mundo sem leis. Bem no centro daquele espaço sem extremos, algo se mexia. Saltavam faíscas, inflamavam-se as sombras da escuridão. As trevas confundiam-se numa terrível escuridão que ia muito além do seu oposto irmão. A escuridão tornava-se claridade. por um infinito momento quando trespassava o ponto crítico mas inexistente, onde os opostos se tocam. Nesse ínfimo momento em que a velocidade antecede invariavelmente o repouso, o tempo parava dando largas a um vácuo imperceptível mas que se prolongava para o infinito. Então um raio percorria o Espaço, perdia-se no horizonte, ao mesmo tempo que reaparecia no lugar onde sempre estivera. Pequenos mas inúmeros raios dispersavam-se. Na realidade, havia um só raio, um enorme raio que aclarava a escuridão, aqueles raios inúmeros, certos, diminutos, postos sobre o tempo, parecia quebrar a continuidade da claridade. Era o tempo que devassava as trevas, era o tempo que forçava a sua lei, era o tempo que nos amordaçava.

domingo, 14 de setembro de 2014

ALBERTO


Na década de 90, numa madrugada álgida de solidão e desânimo, este jovem pôs termo à vida. Ainda não tinha atingido os trinta anos e adorava fazer de “advogado do diabo”, contestando tudo.
Os motivos que o levaram a atitude tão drástica talvez os tenha revelado nas cartas que deixou à família e aos amigos mas os tribunais decidiram colocá-las em “segredo de Justiça” e a história parece terminar assim.
Recentemente, por intermédio de uma amiga comum, tive acesso a alguns escritos de sua autoria.
Transcrevo-os com o objetivo de tentar perceber o mistério da sua vida e do desenlace dela.

Eis o 1º:

ONTEM

“O ontem já lá vai…
…não, o ontem ainda está comigo.
Eu nada mais sou do que muitos ontens. Muitos ontens que passaram.
Outros passaram eles por mim.
Que seria de mim sem o ontem?
Eu não existiria.
Eu sou filho de um dos outros que passaram.
Mas… por que é que o ontem é tão humilde porque se deixar ele passar pelo hoje, ele não se vai mas também não fica…
O primeiro ontem deixou-se passar por muitos outros.
Já não o vislumbro.
Está lá longe, no fim da fila.
Está pegado a mim mas não me toca.
Não foi ele que se distanciou de mim.
Fui eu que me distanciei dele.
Fui eu que continuei a andar.
Ele parou no tempo.
E eu…
eu continuei a andar, a andar…
… Mas vejamos…
A realidade é mesmo assim.,
pois… mas também por que ser tão objetivo?
O primeiro ontem, antes de o ser antes de existir, foi o meu primeiro hoje.
Foi o meu primeiro Amanhã.


Na próxima semana, publicarei o segundo texto de Alberto. Talvez se possa compreender porque tão jovem, se fartou dos seus “ontens”.

domingo, 31 de agosto de 2014

FREDERIC KELLER



Em 22 de Agosto último, tive conhecimento do infausto acontecimento que vitimou instantaneamente, o compositor musical alemão Frederic Keller.
Conheci-o em França, na cidade de Saverdun.
Habitava uma mansão, de estilo medieval, com sua esposa Monika, pintora artística que, na época, se dedicava a restaurar e decorar com motivos esotéricos, anjos, querubins, serafins, a igreja de Carla-Bayle, no cimo de um dos morros dos Pirinéus.
Tomámos muitas refeições em conjunto e estabelecemos longos diálogos em francês, idioma que ele falava correntemente. Mas eram inolvidáveis os serões regados com uma odorífera infusão de gengibre e limão acompanhado de um original bolo caseiro.
Monika apreciava muito o fado português, facto que me permitiu presenteá-la com CD,s dos nossos mais prestigiados artistas, incluindo a Amália, de quem gostava muito.
Frederic era um dos cinco músicos no mundo a divulgar o instrumento musical do feudalismo, o realejo, ornamentado com desenhos e cores que sublinhavam a sua arquitetura ancestral. A música era gravada em longas tiras de papel perfurado e dava-se à manivela, deixando desfilar quilómetros de fita.
Iria ser agendada a sua vinda a Portugal, para um espetáculo na Casa da Música, no Porto.
Entretanto, o casal vende a sua vivenda e o terreno paradisíaco que a circundava e regressa à Alemanha.
Depois de correspondência trocada, o silêncio.
E depois do silêncio, a notícia brutal, sem réplica. Frederic seguia no seu carro durante a noite, circulando por uma rotunda, quando, disparado como uma bala, um outro veículo se arremessa sem travão, selvaticamente, irresponsavelmente.
Frederic teve morte imediata. Não sofreu.
Sofrem os que ele deixou e que o amavam.
Sofrem o lugar deixado por ele, onde tudo dele fala.
Onde estás agora, Frederic?

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

NELSON MANDELA - A Luz no Fosso do Apartheid


Não há palavras que classifiquem o caráter de um homem que dedicou toda a sua vida no combate contra o racismo.
Ele sofreu o tempo das guerras civis, das lutas fratricidas e sacrificou trinta anos da sua vitalidade física e espiritual numa prisão inglória por não ser apenas “mais um na multidão” mas possuir o ideal universalista da união entre as etnias, designadamente as do seu país.
Bem fazem os governantes sul-africanos em celebrar as suas exéquias por dez dias – como se quisessem usufruir da sua presença por mais um intervalo da existência.
Nenhum motivo plausível justifica a divisão de povos e cores de pele. Somos todos iguais no nascimento e na morte. As diferenças sublinha-as o homem na sua disputa pelo poder. Afinal, o que se pretende para que todos prosperem e deixe de haver desigualdades, é o desenvolvimento das nossas capacidades de interajuda e respeito recíproco.
Foi esta a mensagem deixada por Cristo como um legado de paz e de solidariedade.
É esta a mensagem deixada por Mandela, o homem valoroso, sem medo, sem preconceitos que desejava a prosperidade e a união sólida da África do Sul, apesar de saber quanto ela é reservada e pouco confiante. Não era sem razão que para além de militante convicto do partido defensor da causa comum a negros e brancos, fosse também o conciliador e o mentor nas relações nacionais e internacionais.
Desde a saída do presídio ao seu exercício como Presidente, o tempo foi curto para o “Prémio Nobel da Paz”. Quebrou-se um elo de ligação, talvez o único ou o maior, de uma Pátria tão meritória e de um território, tão extenso e rico como é o solo africano.

São homens com esta craveira que o mundo bélico precisa e os homens racistas, preconceituosos e egoístas precisam. Os países ficam sempre mais pobres com o seu desaparecimento. E o vácuo por ele deixado, não é fácil de preencher.
Que o espírito de Nelson Mandela prevaleça no espírito de todos os que o seguiram nos seus ideais de uma sociedade justa e equilibrada, baseada na paz e na liberdade.

sábado, 11 de maio de 2013

CARLOS MANUEL


17 de Maio de 1963 – 20 de Abril de 2013

As minhas palavras não são um adeus porque terás sempre um lugar na minha memória e no meu coração.
No meu coração porque aprendi a reconhecer os teus ideais e os teus objetivos através das nossas muitas conversas que punham em relevo o quilate da tua alma. Na minha memória, porque, pelo diafragma da minha introspeção, te evocarei em todas as circunstâncias imperativas do teu caráter.
Os teus defeitos – quem os não tem? – eram, são hoje, por certo, desculpáveis, ao sublinharmos a maneira elegante como demonstravas as tuas virtudes.
Amigo, a vida pode te ter oferecido muitas alegrias e muitos bons momentos, pode até ter posto na tua frente o caminho da tua realização, mas foi para ti profundamente adversa, não só por te ter escravizado o coração, já de si frágil, como te ter rodeado de ameaças desprezando a tua estrutura emocional.
Foste um homem sedutor; um trabalhador incansável e tinhas plena consciência desses atributos.
A foice macabra ceifou, cerces, os teus alicerces com a vida. A tua passagem foi curta. E o vazio que deixas é um abismo… como o são todos vácuos silenciosos, tenebrosos dos que partem, fazendo falta.

Não te digo adeus. Apenas, foste na frente.
Quanto a mim, com todas as recordações vivas que deixaste, acrescento as palavras que escolhi para honrar a tua figura bonita e o teu temperamento especial, as palavras que dedicaram a Che Guevara, como tu, lutador, defensor das injustiças, resistente no trabalho árduo e na doença e, como ele, desaparecido em condições por esclarecer.

Não sabemos, Amigo, para onde foste. Mas onde quer que estejas, estás, por certo, em paz.


Talvez o Che tenha sido o primeiro a compreender
que não se pode mudar o mundo
sem mudar o ritmo da sua relação com ele.


Por isso quando lhe disseram que a mãe tinha morrido
(andava ele no Congo
naquele ano em que esteve em parte nenhuma)
pediu um mat sem açúcar,
falou da infância
e depois afastou-se lentamente
para cantar sozinho os tangos argentinos
que eram por certo os ritmos do seu sangue


Ele sabia que era preciso o inesperado. O efeito
surpresa. Ataque e fuga.
Por exemplo, quebrar a rotina. Despedir-se.
Desaparecer.
Criar um foco algures dentro de nós.
Partir de um centro para uma espécie de irradiação.


(poema de Manuel Alegre, do livro CHE, de 5 e 6 de Abril de 1996)


sábado, 20 de abril de 2013

Maria Luisa

Maria Luísa, com a atriz Carmem Maura, à esquerda, no intervalo de uma filmagem


20 de Abril de 1922 – Dezembro de 2006

Preparava-me para encerrar o salão e ir almoçar, quando uma figura feminina assomou na entrada e se aproximou.
- Posso ver a exposição? Vi o cartaz na rua e decidi subir.
Vestia com elegância um casaco de Inverno cor de tijolo e usava uma boina artisticamente inclinada sobre o cabelo, cujos reflexos, entre o ouro e o platinado, me atraíam o olhar com insistência.
Vivia em Lisboa e estava no Porto, de passagem, para vender um apartamento que adquirira por exigência da vida profissional do marido, de quem, na altura, decorria um processo de divórcio.
Depois de relancear a vista pelas esculturas expostas, adquiriu a miniatura de um violino de madeira de cetim. e marfim.
Aceitei o convite para passar uns tempos na sua casa no Restelo, num sétimo andar virado para os moinhos do Caramão da Ajuda.
Foi um período muito pacífico, durante o qual desfrutei da sua bela forma de ser e finura de trato.
Os nossos gostos conjugavam-se, facto que nos estimulava a assistir a eventos culturais, inclusive espetáculos e concertos, especialmente de música clássica. Apaixonada pela polifonia gregoriana, cantava na missa dos domingos, como coralista, no mosteiro dos Jerónimos e ensaiava no piano da sala comum, os trechos musicais inspirados nas lições da afamada professora Luísa Almendra.
Maria Luísa conversava com elegância. O seu “charme” cativava. confecionava pratos com requinte, pondo neles muito de inspiração francesa. As visitas eram sempre recebidas com a bandeja onde brilhavam os cálices e os licores.
Era uma senhora com muita atividade, com o tempo sempre preenchido e não evidenciava a idade que realmente tinha, dado o ar juvenil e o sorriso bonito, ex-libris de uma pele sedosa, bem tratada.
Quando não usava boina, punha um laço de tule negro a aparar-lhe a trança enrolada na nuca.
Fora casada uma primeira vez com um enfermeiro que partiria mais tarde em missão para o Ultramar. Muitos anos ficou desconhecendo o seu paradeiro o que a obrigou a considerar-se consorciada possivelmente com um morto, pois a Concordata não autorizava a separação religiosa sem que o corpo tivesse aparecido.
Só muito tempo depois, a situação foi legalizada e ela pôde matrimoniar-se com Eduardo, elemento superior da Kodak, de quem teve três filhos: Jorge, técnico numa multinacional, Ricardo e José Luís, arquiteto.
A todos eles, esforçou-se por dar uma educação vocacionada para a música mas só Ricardo seguira o desejo da mãe e era instrumentista de oboé na Ópera de S. Carlos.
Os violinos permaneciam debaixo da cama do quarto de hóspedes e o piano da sala era agora a companhia esporádica dos seus ensaios litúrgicos.
Parte da sua vida, aplicara-a cuidar dos irmãos, pois ficara órfã dos pais, ainda muito jovem, ao cuidado dos avós e aplicara os seus conhecimentos de enfermagem trabalhando na Petrogal e em serviço ambulatório na casa das infantas de Bragança a quem dava injeções. O segundo casamento conferira-lhe um estatuto de distinção e classe que continuou mesmo depois do divórcio.
Livre e independente, entregava-se, na época em que a conheci, a atuar em pequenas metragens e filmes publicitários assim como em pequenos “castings”.
De todas as peripécias que me contou, concluí que o destino não a compensara devidamente. Personalidade arguta e inteligente, dotada de um enorme sentido de solidariedade e ânsia de viver, desafiava os seus oitenta anos com um rosto, uma capacidade de ação e uma agilidade que a faziam aparentar muito menos e a vocacionavam para sempre renovadas experiências. Na data em que eu passei uma temporada em sua casa, organizando os seus arquivos e rascunhando a sua biografia, para além do seu quotidiano, aprendia danças de salão e, mais tarde, soube que frequentava a piscina.
Evidenciava uma forte alegria de viver e raro era o dia em que não saía de casa, a pretexto de nada, para respirar o ar do exterior, assistir a um evento ou sentir o pulsar da natureza.
Mas como eu disse antes, sem que nada fizesse prever uma armadilha, um dia, elementos da família, recorrendo ao estratagema de um Lar de idosos precisar de uma enfermeira, valendo-se do seu entusiasmo em auxiliar o próximo, aceitou entrar naquela instituição donde nunca mais saiu.
Uma amiga comum que a visitou algumas vezes, dizia-me, por carta, que Maria Luísa não parecia a mesma. Chorava constantemente, e tinha perdido todos os seus atributos. Desfigurada e desiludida, perdera a radiosa beleza que se mantem quando se tem esperança e confiança nos que mais amamos.
A revolta que senti instigava-me a ir buscá-la mas não tive tempo. Dois meses depois, sucumbiu ao desgosto.
Tinham-lhe cravado um punhal bem no âmago do coração.
Quando quis saber o que fora feito da casa e do recheio clássico que a decorava e que ela, nos tempos áureos, renovou com reposteiros e pinturas, soube que tinham esvaziado o local e devolvido o apartamento ao proprietário.
Os abutres não se tinham feito esperar.
Hoje, restam as recordações dos bons momentos que passámos juntas e certos cenários que, em conjunto, construímos para deleite próprio: “O almoço com tâmaras”; “os cafés concerto no Centro Cultural de Belém”; “A Noite Transfigurada”, no palácio da Ajuda e os nossos serões, frente à TV, com o tabuleiro das refeições no colo de cada uma, seguindo o noticiário e as novelas, “uma seca”, como a maior parte dos programas televisivos.
Mas tudo tem um fim. Nada é para sempre. Lástima que tenha terminado da pior maneira. Maria Luísa não merecia…como tantos idosos para quem não perdura o direito de viver de acordo com as exigências do seu espírito.
E são sepultados em vida.


quinta-feira, 21 de março de 2013

ALZIRA CONTENTE TONDELA DOS SANTOS


Minha mãe – heroína de luta e matriarca de paz

21 de Março de 1903 - 1 de Agosto de 1977

Dos oito filhos de minha avó materna, dois rapazes morreram em combate, na guerra de Angola e três raparigas vieram da aldeia para a cidade, na função de damas de companhia.
Naquele tempo, era usual abandonarem o agregado familiar e a lavoura para encontrarem uma vida menos dura que a do campo.
Minha mãe foi uma delas, convidada por uma senhora refugiada da revolução civil espanhola. Era uma figura de grande classe, de gargantilha engomada e vestido até aos pés, como então era costume nas famílias de nível social elevado.
Já em Portugal, depois de ter casado, enviuvado logo a seguir e sofrido um aborto em consequência desse desenlace, esta fidalga de Madrid tomou sob a sua responsabilidade a formação e educação da sua pequena pupila e preencheu assim a sua solidão, libertando momentos nostálgicos e alicerçando a sua forçada independência.
De vez em quando, minha mãe visitava os pais e toda a região a recebia de braços abertos. Os aldeões divertiam-se muito com as novidades que ela levava da cidade e a sua curiosidade atingia o auge, quando ela subia para uma mesa e dançava o “charleston”, música muito em voga nos anos 30.
Os hábitos da moderna sociedade citadina não deixaram de influenciar a pequena “bailarina improvisada” que exultava perante os campónios atónitos, por tanta desenvoltura e agilidade. Habituada à proximidade com damas de prestígio, visitas assíduas, em grande parte consorciadas com empresários ou militares de bigode façanhudo, tinha aprendido tudo o que uma jovem de linhagem deve saber, inclusive a dança, acompanhada de castanholas que ela manuseava com perícia. De facto, minha mãe gostava muito de dançar, tanto, quanto meu pai não acertava um compasso.
Depois de ser rainha da festa por uns dias, voltava à casa não raro com ofertas que os meus avós e tios, lavradores abastados, tinham prazer em dar à “senhora fidalga” ou à “fidalga espanhola” fruta consoante a época: cerejas, laranjas, uvas, nêsperas, nozes, avelãs, marmelos, produto da terra, suculento e doce; batatas, azeite em garrafão e azeitonas. Julgo que foi isso que levou minha mãe a especializar-se em compotas, bastante apreciadas nos chás de Inverno.
Quando minha mãe se casou, a senhora que a educara e foi mais tarde minha madrinha de batismo, zangou-se e cortou relações, indo viver para Figueiró dos Vinhos, na mansão de uns amigos. A casa da Figueira ficou fechada. Meus pais alugaram um pequeno apartamento de noivos mas a situação não durou muito. As duas mulheres estimavam-se e sentiam saudades uma da outra. Apesar de acompanhada, a solidão agudizava-se com a ausência daquela que fora sua amiga e confidente dos bons e maus momentos, com quem se habituara nas alegrias e dificuldades. Porém, os seus pergaminhos impediam-na de tomar a iniciativa de uma reconciliação.
Minha mãe é que não esteve com meias medidas. Recém-casada e com pouco dinheiro mas na consciência plena do que se impunha fazer para acabar com os arrufos e evitar males maiores, juntou o útil ao agradável e deliberou instalar-se com o marido na casa que fora da sua adolescência e juventude, tanto mais que estava grávida de meu irmão.
Enviou um ultimato, para um dos amigos, o tenente Valadão, rematando:
- Se não ma trouxer, vou eu buscá-la.
Vi sempre em minha mãe, uma pessoa determinada, corajosa e aguerrida, com ascendente sobre meu pai, homem calmo e confiante, que delegava nela o poder de decisão e o controle de tudo. Era muito respeitada e amada pelas pessoas com quem relacionava e mantinha um círculo de amizades saudável. Era muito sociável mas estabelecia limites e nem toda a gente admitia na sua intimidade afetiva.
Para além da responsabilidade doméstica, minha mãe tratava de outros assuntos com a casa, pagamentos e contribuições, obrigações fiscais. Na época balnear preparava o primeiro piso para receber os banhistas que, durante os meses de verão lhe davam um lucro satisfatório. Quando foi necessário restaurar o rés do chão e parte do segundo andar, todas diligências burocráticas arvorou sobre os seus ombros e ela própria vigiava os pedreiros e o próprio empreiteiro, não fosse “haver ninho atrás da orelha”, como era sua expressão quando suspeitava de fraudes. Minha mãe invocava com frequência e a propósito de tudo, os provérbios, os adágios. Dizia que “voz do povo era a voz da razão” Por isso, eram transmitidos de geração em geração, de século para século.
Lembro que minha mãe tinha muito entusiasmo pela leitura e por leilões. Sempre que podia, não perdia a oportunidade de assistir a um. As famílias de nobre linhagem, a fidalguia, decadentes, não tinham outro recurso senão as vendas em hasta pública, que passaram a ser frequentes naquele período. O recheio de palacetes ou vivendas aristocráticas, era descrito nos jornais com detalhe e nele, surgia sempre um ou outro objeto de valor adquirido por um preço irrisório. Algumas vezes a acompanhei e admirava a sua vontade férrea, a sua tenacidade no confronto com outros interessados na mesma preciosidade. O seu gosto caía infalivelmente nos móveis de estilo.
Todas as noites, sem alteração, às 21 horas, a cozinha estava arrumada. Juntavam-se os casais para conversar, desabafar, falar mal da “criadagem”. Os homens jogavam as cartas, as mulheres bordavam ou faziam crochet Ninguém fumava. A telefonia conservava-se desligada. Televisão não tinha iniciado ainda o seu percurso. No ambiente, respirava-se um firme elo de simpatia, conforto e afabilidade.
Eu era a única criança mas divertia-me imenso, observando, ouvindo e apreciando. À hora do chá, havia a acompanhar a bebida, um “bolo de mármore” ou “franciscos”, uns biscoitos deliciosos que minha mãe, como excelente cozinheira que era, se esmerava em modelar. Com os dedos fazia rodar pedaços de massa até tomarem a forma de SS; depunha-os em filas no tabuleiro e pincelava-os com azeite. Também era perita nos “pastéis de massa tenra” com recheio de picado de carne ou de creme com nozes.
Aos domingos, de tarde, íamos passear até ao jardim municipal onde se conversava, se combinavam eventos com os nossos amigos, se comia pevides ou queijadas e se ouvia música de um altifalante. Em datas comemorativas, a banda de música da Filarmónica tocava no coreto. Quando era montado um palco, sabia-se que havia danças e cantares folclóricos. Então juntava-se muita gente. As crianças andavam de triciclo ou de trotineta ou saltavam no jogo da “macaca” traçado na areia vermelha do jardim.
Enquanto eu me entretinha a andar de baloiço, entusiasmada em chegar com os pés às copas das árvores, minha mãe arranjava sempre pão seco para os cisnes e peixes do lago, onde flutuavam também algumas plantas exóticas. As pombas chegavam em bandos numerosos, participando ao festim das migalhas.
                                                                                                             
No pinhal das Águas, chamado assim por nesse local existir um edifício destinado à filtragem das nascentes para consumo público, presos por grossas cordas a troncos de pinheiros, alguém tinha disposto dois baloiços para adultos. Os nossos picnics eram o meu encanto. Alegrava-me ver a minha mãe balançar o corpo sem medo, gargalhando, desanuviada e feliz, como uma jovem em tempo de férias.
Foi num desses passeios que trouxemos um gatinho para casa, languinhento, magrizela, morto de fome.
Minha mãe gostava muito de animais. Fez deste, um belíssimo exemplar, ajudando a desenvolver a sua castiça raça alentejana. Ela própria o castrou. Arrepio-me só de o evocar. Um dia em que o irmão, o meu tio António, nos visitou, ela pediu-lhe ajuda. Ele negou a princípio, depois hesitou.
- Só quero que o segures bem.
Embrulhado num cobertor de “papo”, o felino aguentou a cirurgia não sem alguns berros. Solto, devidamente tratado, fugiu para debaixo da cama e durante os primeiros dias não fez mais que lamber-se, meticulosamente.
A meu tio custaria a acreditar se não tivesse visto.
- És de força!
- Fiz o mesmo que o veterinário.
Nice tornou-se um gatarrão, de luminosos olhos verdes, meu companheiro de folguedos, pois lhe ensinei a atravessar o arco e o jogo das escondidas.
A coragem de minha mãe era apenas aparente. Não era capaz de matar uma galinha. Quando era necessário confecionar uma canja de um “borracho”, pedia ajuda a uma das irmãs ou a meu pai que tomava sobre si a tarefa de preparar o coelho sem que nada sofresse. Durante esse trabalho de limpeza e dissecação, minha mãe não estava presente. Aparecia para o “meter em vinho de alhos” e estufá-lo.
Na época da “matança do porco” que decorria em casa de meus avós maternos, duas vezes por ano, minha mãe fugia para longe dos grunhidos do suíno. Mas todo o ritual, iniciado por homens experientes chamados para esses eventos, tinha o seu quê de pagão, desde a prisão do animal ao “desmanchar" do corpo pendurado num gancho de ferro.
Minha mãe adorava crianças e viveu sempre por elas rodeada.
Na sua câmara ardente tinha junto da sua, uma urna branca de um recém-nascido.
Ao lado da sua sepultura, repousava uma criança de seis anos, vítima de acidente.
Nada acontece por acaso.
Nesta imensa tristeza que me trespassa quando recordo a sua figura enérgica, os seus passos silenciosos, o embevecimento com que me olhava, as suas máximas morais, os adágios populares tão do seu hábito mencionar a propósito de qualquer ato menos correto, o seu sorriso a abrir-se em gargalhada fresca que inspirava otimismo, fico olhando para dentro de mim, prendendo as lágrimas, fazendo por ignorar aquela dolorida orfandade que nos despiu de tudo para sempre.
Para sempre?
A ferida sangra como no primeiro dia.
E eu sinto, também como naquele dia, a sua mão branca e macia irradiando um calor que por todos estes anos aqueceu o meu coração. A sua mão, apertando a minha, não significou uma despedida mas um guia, um farol, uma sentinela, uma bússola.
Mas não só. A esperança promissora de nos encontrarmos de novo nesse mistério que é a eternidade.


terça-feira, 5 de março de 2013

JOSÈ DOS SANTOS MARQUES


1 de Março de 1922 – 24 de Maio de 2004

Escritor e poeta. Destacou-se pelos artigos de caráter social publicados na imprensa diária e regional. Na sua juventude, foi repórter do jornal “Os Transportes” e da revista “Mundo”. Autor do livro “Educação da Mulher” e dos volumes de poesia “Os Homens Morrem de Pé” e “Quero Ser Livre Para Amar”, este, traduzido para espanhol. Organizou as antologias “Depoimento”, série de entrevistas com personalidades de prestígio no âmbito das Letras e das Artes, e “Panorâmica Poética Luso Hispânica", uma compilação de poemas, desenhos e pinturas de artistas e poetas da América Latina, Portugal e Brasil, num total de 55 volumes. Para maior expansão desta iniciativa, incrementou Mostras Internacionais em toda a Europa, promoveu recitais e outros eventos literários, abrilhantados por diversas manifestações artísticas com a colaboração entusiástica dos Municípios.
Na época das “Páginas Literárias”, criou e dirigiu os suplementos “Dimensão, Impacto” e “A Estrada”.
Apaixonado por artes gráficas, ele próprio fazia os esboços das capas das edições e selecionava as cores das composições. Era um artista em linóleo e ilustrou muitos dos seus trabalhos literários.
Na vida prática, foi empresário. E como fã acérrimo de motos e desportos com estas máquinas, participou em várias competições, conquistando cinco taças e algumas medalhas.

Deixou-nos a sua


Mensagem de Amor para todos os Continentes a)

(de que extraio apenas um seu pensamento, por ser demasiado extensa)

“Sendo a poesia o único veículo de expressão onde a sinceridade se vincula, parece-me possível, através dela, levar ao conhecimento recíproco, os anseios, angústias e esperanças dos povos que têm em comum a circunstância de serem latinos e de se entenderem nas mesmas línguas.”

a) Entrevista dirigida por Aurora Tondela e publicada nos jornais “Desforço”, de Fafe, “Jornal Feminino”, do Porto, e “Actualidades”, de Moçambique.


Seguem-se duas curtas estrofes, inéditas, do autor


ANGÚSTIA

Joga-se a vida
por uma causa,
quando tudo nos causa
náusea.


PROMESSA

Há no teu rosto
ansiedade
e esperança,
um sorriso esboçado
como o da criança,
insatisfação,
anseio
e uma promessa
imensa.


sábado, 9 de fevereiro de 2013

Manuel dos Santos



10 de Fevereiro de 1901 – 18 de Janeiro de 1978


Meu Pai – O Meu Cavaleiro do Apocalipse


Guardo maravilhosas recordações de meu pai. Durante a infância e começo de adolescência, a sua cooperação no meu crescimento passou despercebida. Mas à medida que a minha memória foi amadurecendo, os episódios e aspetos do seu convívio diário connosco, minha mãe e eu, foram adquirindo forma eterna, bem definida e carismática.
Lembro-me que ele punha os meus pezitos em cima dos seus para que mais facilmente os meus passos tomassem elasticidade e segurança. O côncavo da sua mão envolvia os meus calcanhares e os meus dedos inchados pelas frieiras no Inverno. E era o seu calor forte que abrandava a dor e o prurido. À noite, antes de me aconchegar a última manta da cama, colocava numa cadeira a roupa que havia de vestir de manhã, cuidadosamente dobrada, ensinando-me o valor do método e da disciplina.
Meu pai era de poucas palavras. Observava mais do que falava. Era afável com toda a gente e tinha um sentido de justiça muito apurado. Ria pouco mas quando o fazia era por algo que valia uma boa risada. Fora disso, sem ser sorumbático, o seu rosto moreno, de linhas perfeitas, mantinha o seu natural e discreto cavalheirismo.
Cedo me transmitiu o gosto pela bicicleta e quando se persuadiu de que poderia confiar na minha perícia, passámos a dar longos passeios aos domingos, enquanto minha mãe, durante a manhã, confecionava o seu prato preferido: caldeirada de ruivo, o peixe que meu pai mais apreciava.
Adorava cavalos. Na sua juventude, tinha cuidado desses animais numa grande herdade no Alentejo. Comprazia-se no seu porte, na sua elegância e deliciava-se em assistir a uma tourada à portuguesa onde tinha oportunidade de os ver ricamente ajaezados, balançando o corpo e as patas ao som da música. Também não perdia um bom espetáculo de circo.
Eu acompanhava-o. Por vezes, enquanto eu pedalava pelas avenidas, ele sentava-se a uma mesa da esplanada frente ao mar, lendo o jornal.
Minha mãe era católica mas não praticante assídua. Meu pai era indiferente perante as religiões mas respeitava a vontade de minha mãe que insistia para que eu não faltasse à missa dos domingos, pelo menos à do meio-dia, a missa dos grã-finos, muito frequentada pela juventude, elas para serem apreciadas pelos rapazes e mostrarem as suas “toiletes”, eles para admirarem as raparigas e selecionarem a favorita Eu gostava de ir àquela hora porque não havia outra mais tarde.
Acabado o culto, encontrava-me com meu pai no espaçoso largo sobranceiro à praia e, juntos, passeávamos de braço dado até à hora do almoço.
Habitualmente, o fato preferido do meu pai era o “fato-macaco”. Envergava-o todos os dias, de segunda a sábado. Tapava-o do pescoço ao tornozelo e andava sempre besuntado de óleo, pelo seu contacto diário com veículos pesados e ligeiros.
Transformava-se para sair, aos domingos. Envergava um fato de bom corte a que não faltava o colete, a gravata e um alfinete de ouro preso nela. Engraxava meticulosamente os sapatos. Punha a aliança e um outro grosso anel com um brilhante e finalizava o estilo, ajeitando a boina na cabeça, que usava à espanhola. Na cidade, eu só conhecia dois homens que tivessem predileção pelo uso das boinas à moda de Espanha: meu pai e o reitor do liceu, que seria mais tarde, meu professor de Matemática.
Em ocasiões solenes que exigiam vestuário de cerimónia, meu pai substituía a boina pelo chapéu.
Os nossos passeios a pé ou de bicicleta eram sempre memoráveis. Partilhávamos os mesmos gostos e havia cumplicidade nas nossas críticas.
No dia do batizado de um primo meu do qual fui madrinha, resolvemos ir a pé até à aldeia, distanciada três léguas, em vez de nos servirmos do comboio.
Saímos de casa às seis horas. Estava uma deliciosa manhã de verão. Respirava-se uma brisa pura e ouvia-se chilrear a passarada. Uma sensação de liberdade enchia-nos o peito. e os variados aromas da natureza transmitiam-nos uma radiosa alegria e ânsia de fugir à rotina, inspirar a vida. Conforme avançávamos, por matas e pinhais, ríamos do nosso segredo e aventura. E da cara que minha mãe faria quando soubesse, “amiga das suas comodidades”, como ela se orgulhava de ser.
Em pleno descampado, com os campos de arrozais ladeando-nos e a ponte da linha férrea atravessada sobre os vastos lençóis de água e pequenos arbustos, concluímos que nos havíamos perdido e não havia alma viva que nos indicasse o caminho.
A aldeia avistava-se à nossa direita. Seguir o trajeto da ponte parecia encurtar a distância. Contornar o gigantesco círculo, debruado por um extenso carreiro de areia, era cansativo e demorado mas, contudo, mais seguro.
Passados uns minutos, chegámos a uma casa amarela, de uma só porta e janela. Um homem deu-nos a informação:
- IH! Ih!...Hi!...
Antes que nos explicasse o melhor procedimento, uma composição de duas carruagens e alguns vagões de mercadorias passou cadenciadamente.
- Era naquele que deviam ir se quisessem chegar a tempo da cerimónia…
- Podemos ir pelos campos de arroz, seguindo a ponte?
A ideia fora minha. Meu pai que era de desafios, e eu, que os adorava, insistimos.
O homem engasgou-se na própria saliva e sorriu irónico.
- Se tiverem cuidado e virem onde pôr os pés!
Não descubro palavras para descrever a odisseia que foi a travessia daquela manhã, rodeados por um mar imenso de água estagnada e ervas espessas. Não tínhamos onde apoiar a sola dos sapatos e os diminutos retalhos secos eram feitos de terra enlameada e movediça.
- O homem vai chamar-nos parvos! – preocupou-se meu pai.
- Ora! – disse eu –Não é uma maravilha?
E rimo-nos.
Chegámos. Aguardava-nos uma multidão de gente barulhenta e um sacerdote pior que uma barata, pois não podia iniciar o ritual religioso sem a personagem principal.
Ao passarmos pela casa de minha tia, ela teve de limpar e passar a ferro os nossos fatos e proporcionar-nos um banho que apagou o nosso estado miserável de esfomeados, sujos e cheios de calor.
Enquanto o meu pai aparava as reprimendas da cunhada, eu cruzava com o seu o meu olhar, disfarçando a vontade que tínhamos de considerar tudo aquilo uma grande piada que na hora do banquete, divertiu todos os presentes.
Peripécias como estas experimentámos em conjunto dezenas de vezes.
Lembro-me do nosso passeio ao Cabo Mondego. Subíamos de bicicleta e em fila indiana, a estrada marginal, rematada nas margens por tufos de areia e raízes. Do lado esquerdo, o oceano e alguns rochedos e do lado direito campos de lavoura. Dum e doutro, as ribanceiras eram abismais.
De repente, senti um impercetível toque na roda da retaguarda. Como não acusara dano, continuei a pedalar até que um vago pressentimento me obrigou a olhar para trás. Não vi o meu pai. Ao tocar com a sua bicicleta na minha, desequilibrara-se e rebolara por ali abaixo.
Mesmo assim, prosseguimos viagem, depois de uns metros adiante, o meu pai ter aproveitado um atalho batido pelos carros de bois no seu percurso para a serra.
Quatro raparigas e um rapaz foram os netos que eu lhe dei e ele teve a alegria de acompanhar até ao seu desaparecimento. Cinco endiabradas criaturas com quem ele se dividia e se zangava pelas inevitáveis tropelias.
Era muito raro haver desavenças entre o casal. Quando tal acontecia, meu pai saía a dar uma volta. Regressava sempre com um presente para a minha mãe. Se a questão entre eles coincidia com o tempo dos festejos em honra dos santos populares, era certo e sabido que as ofertas provinham das barracas das feiras, dos sorteios das rifas em que meu pai era bafejado pela sorte.
Companheiro de diversão, era ele quem dava o primeiro impulso ao baloiço, no parque reservado às crianças, no jardim municipal; quem me conduzia nos carros de choque ou me segurava nos carrocéis, “montanhas russas”! e outros locais de diversão que apareciam nas romarias.
Tenho saudades desse tempo, da companhia protetora que desde muito pequena me ensinou os sãos princípios da higiene, do cumprimento do dever, do sentido da responsabilidade, da obediência às regras, uma das quais, a pontualidade e repúdio da mentira.
Penso, nesta etapa da minha vida, que um dia, os nossos espíritos “passearão”, lado a lado, na dimensão universal que tanto nos unia.
Até esse momento do nosso reencontro, estás sempre comigo e é à tua memória que solicito auxílio quando necessito e tu nunca me faltaste, mesmo nesta hora em que te recordo e em vez de chorar, sinto extrema leveza e paz, tendo a certeza da tua presença invisível.