domingo, 14 de setembro de 2014

ALBERTO


Na década de 90, numa madrugada álgida de solidão e desânimo, este jovem pôs termo à vida. Ainda não tinha atingido os trinta anos e adorava fazer de “advogado do diabo”, contestando tudo.
Os motivos que o levaram a atitude tão drástica talvez os tenha revelado nas cartas que deixou à família e aos amigos mas os tribunais decidiram colocá-las em “segredo de Justiça” e a história parece terminar assim.
Recentemente, por intermédio de uma amiga comum, tive acesso a alguns escritos de sua autoria.
Transcrevo-os com o objetivo de tentar perceber o mistério da sua vida e do desenlace dela.

Eis o 1º:

ONTEM

“O ontem já lá vai…
…não, o ontem ainda está comigo.
Eu nada mais sou do que muitos ontens. Muitos ontens que passaram.
Outros passaram eles por mim.
Que seria de mim sem o ontem?
Eu não existiria.
Eu sou filho de um dos outros que passaram.
Mas… por que é que o ontem é tão humilde porque se deixar ele passar pelo hoje, ele não se vai mas também não fica…
O primeiro ontem deixou-se passar por muitos outros.
Já não o vislumbro.
Está lá longe, no fim da fila.
Está pegado a mim mas não me toca.
Não foi ele que se distanciou de mim.
Fui eu que me distanciei dele.
Fui eu que continuei a andar.
Ele parou no tempo.
E eu…
eu continuei a andar, a andar…
… Mas vejamos…
A realidade é mesmo assim.,
pois… mas também por que ser tão objetivo?
O primeiro ontem, antes de o ser antes de existir, foi o meu primeiro hoje.
Foi o meu primeiro Amanhã.


Na próxima semana, publicarei o segundo texto de Alberto. Talvez se possa compreender porque tão jovem, se fartou dos seus “ontens”.