sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Máscaras


Bruno Filipe tem seis anos,
Escolheu fantasiar-se de Zorro.
Perguntei-lhe porque elegera aquela personagem para participar no Carnaval. Respondeu-me:
- O Zorro castigava os que faziam mal.
David Miguel optou por se vestir de polícia.
Fiz—lhe a mesma pergunta.
Com os seus cinco anos bem determinados, esclareceu-me:
- Para prender os ladrões.
O sentimento instintivo de justiça nas crianças - é bom notar – manifesta-se em toda a vivência do seu quotidiano e o Carnaval apela para fazer de conta” quando a realidade impede a realização do melhor propósito.
Os adultos recreiam-se nas figuras coloridas dos pequenos e os jovens encontram formas de diversão com os adereços brilhantes, fingindo a personagem preferida. Por pouco tempo se é o que não é.
Eu pergunto-me se o Carnaval é um disfarce do mundo que se gostaria de viver, dos desejos recalcados, ou simplesmente uma sátira aos costumes hodiernos ou, mais fútil ainda, um modo único de divertimento; mais um pretexto de diversão, de fuga momentânea aos problemas ou ainda a nudez dos preconceitos, “ninguém leva a mal”, nem a máscara sob a qual se oculta o rosto de uma personalidade.
 É quase uma virtude quando a máscara serve para se observar sem ser notado. E com essa descoberta se aprende a ser justo.
Apesar da controvérsia que o Carnaval exige, conclui-se que a sua utilidade e interesse resultam de da possibilidade de distracção e esquecimento do carnaval de todos os dias, onde as máscaras se sucedem, decoradas de mentiras e falsidades. Atravessamos um tempo em que todos enganam o outro quando se não enganam a si próprios.
Por isso, afastando o ridículo em que o Carnaval se transfigura num cruzamento de acidentes e incidentes deploráveis, saudemos o Carnaval de 2018 na imagem infantil que interpreta a sua fantasia com toda a fidelidade do seu Temperamento.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018


Decorridos alguns meses, os nossos cães pequeninos reúnem-se para mais uma amena conversa, à semelhança daquele agradável cavaqueio inserido nos seus hábitos frequentes. Hoje estão os mesmos cinco com dois novos amigos que substituem os que faltam, embora os amigos verdadeiros, como é o caso, sejam insubstituíveis.
O ponto de encontro é numa clareira, circundada e arbustos, aquecida por um sol de inverno que eles muito apreciam.
Estendidos no capim seco da mata, são eles o Rissol, o Pipoca, o Jimy, o Sheik e a Maruja.

Feitas as apresentações, Maruja confessa: - Lamento não ter conhecido os outros.
- Foram com os donos para o estrangeiro. Alemanha, não? – articulou o Rissol, virando-se para os outros.
- Não sei qual mas um, creio que foi para as Canárias…- adiantou o Jimy.
- Não interessa. Não estão e é pena.
- De acordo, Pipoca. Que me dizem dos incêndios deste ano?
- Calem-se! – abespinhou-se o Rissol.- Tudo que poderia ser evitado.
Sheik quebrou o silêncio.
- Nada me surpreende. Nem a tragédia nem as promessas, que se vão ficar por aí…
- O ideal, que nunca é feito, é anunciarem e repetirem a teoria e a prática vir au ralenti…Uma coisita ou outra para calar os subversivos e a seguir…segredo absoluto.- sentenciou Jimy.- Nem a imprensa fala mais sobre o assunto.
- Para quê? A imprensa o que quer são temas de “caixa alta”, que cativem audiências.
- Sim, sim, excitem a curiosidade.
- Para isso, nada melhor que os escândalos. – arriscou a Maruja.
Rissol aproveitou para coçar a orelha. Afugentando uma irrequieta vespa dourada.
- Eu cada vez mais me capacito duma grande verdade. E ninguém me contradiga a não ser com motivos óbvios.
- O que é? – inquiriram em uníssono.
- Apesar de estarmos em democracia…
Sheik interrompeu:
- Ditadura camuflada em democracia, queres tu dizer.
- Seja… mas o que eu acho é que em pleno século XXI, com todo esse progresso apregoado…
- Temos de convir que há, tem havido progresso.
- No que concerne a materialismo! – quase gritou o Pipoca.- Os valores morais perdem-se!
- Deixemos isso para a próxima. – prosseguiu o Rissol. – Dizia eu que nos vangloriamos de uma mudança de regime, de ideias democráticas, mas o obscurantismo permanece. Os programas televisivos encharcam-nos de novelas.
- E o pior não é isso. – cortou Sheik. – A interpretação nacional melhorou substancialmente. Os conteúdos dos textos é que são sempre os mesmos…
- Lá nisso…
- Mortes, traições, armadilhas, atentados, negócios corruptos… As novelas são decalcomanias umas das outras. Tudo isso o mundo oferece no quotidiano. Não há mais nada para inventar?
- Sem contar com as repetições na linguagem. – Maruja imita: “Achas? Não acho, tenho a certeza. “Tem calma. Como é que querem que eu tenha calma? Não vou nada ter calma”. E outras frases no género.
- Mas isso é o retrato do nosso dia a dia! - teimou Sheik.
Rissol deitou-se ao comprido e discordou:
- Mais uma prova da falta de capacidade inventiva. Mais um motivo para educar mentalidades no caminho dos nobres princípios, evitando a vulgaridade.
- As novelas são para divertir e não para educar. De resto, quando o fim não é desconcertante, sem muita convicção, acaba sempre bem…isto é, casam-se os amorosos depois de inúmeras experiências afectivas.
- Como nos contos de fadas, não é Jimy?
- Pois eu divirto-me mais com os debates dos políticos, principalmente quando falam todos ao mesmo tempo.
- Uns, para não percebermos nada, outros, que não concordam com coisa nenhuma, outros, umas vezes, sim, outras não e nós o povo.
- Pipoca, dissuade-te. Conforma-te. Desde que nada te falte, não queiras sempre mais. – atalhou o Sheik.
- As desigualdades continuam a existir e isso confrange-me.
Sheik arrematou:
- Com poucos dias de intervalo, deixaram de existir um empresário milionário e um artista da canção. E sabe-se lá quantos anónimos. Diferentes na vida, sim mas não desiguais na morte.
A despedir-se:
- “Tu és pó e em pó te tornarás”. Todos somos iguais no pó de que somos feitos e em que nos transformamos.
(foto retirada e adaptada de lojaskd)


Os canitos têm hoje o seu cavaqueio na saleta da casa de um deles.
Rissol comenta:
- Que luxo de decoração! Isto faz-me pensar…
- O quê? - pergunta Jimy.
- Estamos numa democracia, certo?
Eles acenam com as orelhas e Maruja interrompe:
- Estamos?
Rissol prossegue:
- É de esperar que não haja diferenças de classe…
- Mas - reage Maruja.
- Fala-se na luta contra as desigualdades…e deparamos com…
Sheik casquina:
- Clero, nobreza e povo.
- Actualiza-te! A sociedade compõe-se de três classes, sim mas de ricos, classe média e pobres.
- Eu acrescentava a classe dos que vivem abaixo do limiar da pobreza. Passam fome e mais despidos que vestidos, dormem ao relento.
Pipoca interfere:
- Vocês desprezam o bendito rendimento de inserção social.
- Pergunta a um ministro se ele se contenta com isso e consegue subsistir.
Maruja muda de posição.
-Eles nem sequer aumentam o ordenado mínimo!
- Jimy as despesas do Estado têm que ser geridas conforme o orçamento aprovado, tal como num agregado familiar. Há que economizar.
- Não acreditas no que dizes. No consumo corrente, quem tem de abrir os cordões à bolsa é o povo, o remediado, que os menos favorecidos mantêm-se de pé pela caridade alheia, porque todas essas campanhas de solidariedade social só fazem nos Natais, e mesmo assim é o povo que é chamado a contribuir.
Rissol fungou, disfarçando um latido de revolta.
Pipoca tentando acalmar os ânimos, abana a cauda.
- Têm alguma sugestão?
Sheik respondeu:
- Julgo que interpreto o pensamento de todos se disser que aqueles que usufruem ordenados chorudos, amontoando fortunas, deviam ser despojados de um tanto que permitisse beneficiar outras famílias.
- Sim, o dinheiro está mal distribuído e pratica-se muita injustiça à sombra dele.
- Mundo perverso! – gritam encolerizados, Pipoca e Maruja.
- Homens maus e egoístas, melhor dizendo.- emenda Jimy
Rissol recorda que o País, com o actual governo e o actual e desempoeirado presidente da república.
- Ainda é prematuro cantar vitória…- acautelou-se Jimy
Pipoca atirou logo:
- Qual!? O presidente sabe inglês. O primeiro ministro sabe francês.
- Pois! – cortou Sheik. – Os do anterior regime eram doidos por idioma de vaca.