terça-feira, 25 de abril de 2017

25 de Abril


Esta data, perdida no passado, esfumadas as reminiscências pelo fluxo das gerações que se lhe seguiram, transformou-se numa folha seca, amarelecida pelos ares frustrados da liberdade, com o nome esfarrapado de democracia.
Agora vamos tapando buracos com areia, experimentando sensações, esborratando cenários, acumulando promessas e continuando a esperar por melhores dias.
Entretanto, os pobres permanecem pobres e os ricos gozando as suas riquezas, de proveniência tantas vezes obscura.
Mas Portugal é sereno e os cidadãos acomodatícios.
No tempo dos imperadores romanos, dava-se ao povo, carne e divertimentos. Nós, modernos e inovadores, temos gastronomia e arraiais.
O resto é conversa.
O resto… é isto que nos inspiram os que detêm as rédeas:

Somos um país de esperança,
à beira-mar implantado.
Quem espera sempre alcança
mesmo que seja logrado

Quem espera, desespera,
também lá diz o ditado.
Nisto do “era, não era”
neste quadro mal pintado.

Mesmo assim, dê-nos conforto
o juízo dos mentores,
de riso e olhar sempre torto
como se fossem maiores..

Nosso destino é esperar,
brilhe o sol ou sopre o vento,
que o Zé sabe calibrar
as asas do pensamento.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

PACIS ERIT VOBISCUM


O mundo é muito velho. O planeta suporta uma infinidade de anos. Tem passado por batalhas, contendas, guerras. Tem sido atrofiado por demolições, saques, rapinas. Povos contra povos, sucumbe pelas mais ardilosas estratégias. Nações contra nações, a perda e a destruição adultera territórios, faz vítimas, derrama sangue.
O mundo está muito velho mas aguenta. Vai aguentando.
Por verem que resiste, embora aqui e ali, apresente feridas incuráveis, a violência persiste em manifestar-se nas suas formas mais requintadas, não olhando quem sofre.
Há milénios, nasceu um Homem destinado a salvaguardar a integridade estrutural da Terra, Veio ensinar aos homens a força e a beleza da harmonia, através do Amor entre as gentes e a sua relação com a natureza.
Jesus Cristo é uma figura ímpar, universal e intemporal. Deixou a mensagem da fraternidade, a afirmação de que todos somos iguais e todos seguimos o mesmo caminho.
O horror de toda esta questão transfere-se para a tortura a que tantos mártires estão sujeitos, aqueles que se filiam no bem e incomodam interesses alheios.
“A Paz seja convosco.”- disse Ele.
Ensinou. Pregou. Nomeou seguidores. Em vão.
O mundo está cada vez mais decrépito. Doente nas sociedades; doente nos sistemas; doente nas famílias.
De vez em quando, as catástrofes amputam um pedaço do velho orbe.
Celebrando a Páscoa, invocamos a paz.
Mas ela só proliferará em consciências que repudiem os males sociais.
Saudemos a memória de Cristo, semeando a sua Paz como planta de colheita eterna.

sexta-feira, 17 de março de 2017

O MEU PAI


19 de Março é um dia para acentuar a figura daquele que, para além de me dar o ser, me ajudou durante quarenta anos, a desenvolver em mim a planta que ele, com a minha mãe, lançou no mundo, numa época em que a moral era a pauta da família e o respeito e a obediência à autoridade progenitora, era um pelouro destinado a valorizar a sociedade.
Habituei-me a reconhecer o meu pai, ainda garota de colo, quando ele envolvia os meus minúsculos pés e mãos no côncavo das suas mãos musculosas e fortes.
Homem de acção mas de poucas palavras, era ele que me deitava, não sem antes me ensinar a escolher a roupa do dia seguinte e, com meticulosa sabedoria, a ordenava numa cadeira.
Quando os meus movimentos se tornaram autónomos, esperava o meu pai à hora do almoço. observando-o da janela. Ele assomava ao fundo da rua, no seu fato de macaco enodoado de óleo, a boina enterrada na cabeça. As mangas arregaçadas denunciavam uns braços másculos, morenos do sol de verão. No espaço de pouco mais que meia hora, almoçava paulatinamente e do mesmo modo repousado, descascava a maçã ou a laranja que não dispensava nunca.
Os meus pais amavam-se muito e constatar isso, fazia-me feliz.
Aos quatro anos, aprendi a andar de bicicleta. Numa certa zona da cidade, frente à foz do rio Mondego, exercitava-me nos fins de tarde, alugando também para ele um velocípede muito maior do que o meu, que parecia um brinquedo. Daí que o ciclismo fosse o desporto preferido ao longo da minha vida.
Os domingos eram dias especiais para nós. Por exigência materna, eu ia à missa do meio-dia, o culto das meninas de classe social mais elevada. Para mim, era uma oportunidade de elas conseguirem namorado ou convívio natural com rapazes que as aguardavam no átrio da igreja.
Finda a missa, oportunidade também para mostrar um vestido novo, eu ia directamente encontrar-me com o meu pai, na esplanada, sobranceira à praia. Nessa manhã, já ele tinha ido ao mercado fazer as compras que completava com o ruivo, peixe da sua predilecção e uma melancia muito de lhe fazer crescer água na boca.
Enquanto fazíamos horas para o almoço que a mãe confeccionava todas as manhãs, nós dois, pai e filha, passeávamos de braço dado, pela avenida da Liberdade, a única frondosa daquela artéria da cidade, não conversando muito mas cúmplices no nosso orgulho recíproco.
Recordo com saudade esses momentos. Meu pai envergava um fato completo, de bom corte, confeccionado por medida no seu alfaiate habitual, azul escuro ou cinzento. Quando não usava o chapéu, punha uma boina, inclinada sobre a orelha, “boina à espanhola”, muito apreciada por certas pessoas gradas da terra. Uma delas, o Dr. Rigueira, Reitor do liceu que eu frequentava e que era também meu professor de Matemática. Completava a indumentária de meu pai, os adereços peculiares dele, um alfinete de gravata, a aliança, um anel grosso com um brilhante e o seu inseparável relógio de bolso com corrente de prata.
Quando o clima nos proporcionava digressões prolongadas, a pé ou de bicicleta, íamos até à serra da Boa Viagem ou às minas do Cabo Mondego. Aconteciam sempre peripécias divertidas que nos enchiam de alegria e fortificavam a nossa convivência. Não mais esqueço o susto que apanhei quando o vi rebolar pela ribanceira seguido pelos torrões de argila marginais que não suportaram o seu peso. O seu sentido de humor, a sua tranquila observação das ocorrências estimulavam-me a encarar a vida de uma forma corajosa e saudável.

Pai, meu Pai querido, a tua falta continua a ser um profundo golpe e a ferida deste enorme vácuo, sangra, sangra muito. Com a tua perene ausência, um vazio se ergueu por todos os lugares que percorremos juntos, ligados por uma camaradagem que não vejo repetida na maior percentagem das famílias. Imagino que, onde quer que estejas, o teu olhar me persegue e o teu espírito, sábio, intransigente e justo, me aguarda para, nos mistérios do insondável, continuarmos os nossos passeios de bicicleta.