quarta-feira, 28 de março de 2018

MEA CULPA


Soneto da Páscoa
Publicado na revista NA da Convenção das Assembleias de Deus em Portugal,
Declamado num culto em Foz do Arelho (Caldas da Rainha

Páscoa – O Sacrifício Incompreendido



Mais um pretexto de festa. Em muitos lares, como nos agregados hebraicos, de há milénios, degola-se o cabrito, tempera-se, cozinha-se e come-se como a mais saborosa das iguarias.
Não sei, em face da humanidade que se manifesta nos nossos dias em qualquer parte do planeta, se as pessoas meditam a fundo no significado desta odisseia de Jesus Cristo, simbolizado por um cordeiro, o cordeiro de Deus.
Mas quem é este homem, de anatomia igual a tantos outros, diferente e exemplar, que traz a envolvê-lo, o misterioso fascínio dos milagres?
A sementeira de valores morais feita por quem deu a vida por ela, deu poucos frutos. Ao longo dos tempos, não germinou o suficiente para que o mundo se tornasse melhor e os povos se entendessem solidários no bem comum.
Jesus Cristo morreu sozinho. A sua recordação continua solitária.
Valeu a pena a oferta da sua vida? O mundo melhorou com os seus ensinamentos?
Já nem me refiro à hecatombe social que grassa um tanto por toda a parte. Falo do que ocorre a nível doméstico, entre parentes, destroçando famílias. Estas deviam ser o esteio da sociedade, o modelo das gerações.
Em vez disso, são barcos à deriva, sem timoneiros conscientes da ameaça das ondas ou mergulhados no desleixo que a vida fácil inspira.
Mas a Páscoa, ao ser celebrada traz a mensagem da ressurreição. Depois de uma análise aos erros e fraquezas cometidos.
Àqueles que praticam o mal, fazem sofrer ainda que seja com uma simples palavra, gesto ou acção, desejo que iniciem o caminho do arrependimento declarado ao ofendido, porque só com a paz dele encontrará a sua própria paz.

Desejo uma Páscoa plena de bênçãos para todos!

terça-feira, 20 de março de 2018

Dia doPai


Quarenta e um anos passados e não me conformei ainda com a sua perda.
Onde estás, meu Amigo, meu companheiro, eloquente, tremendamente eloquente no silêncio das tuas palavras?
Duas imagens perduram na minha memória, opostas em extremo.
Nos dias da semana, um homem de fato de macaco, enodoado de óleo, boina enterrada até às orelhas e um rigoroso cumprimento da palavra empenhada, de horários, do dever, sentimentos que tive a honra de receber como herança.
Figura típica de proletário, transformava-se completamente aos domingos.
Vestia um conjunto completo de calças, casaco e colete. Completava a indumentária o Chapéu mole, a gravata e os adereços, o relógio de bolso, o alfinete de gravata e um anel com um brilhante. E, claro, a aliança.
Muitas vezes substituía o chapéu pela boina à espanhola. Acontecia quando saíamos os dois, aproveitando as manhãs de domingo. Enquanto a minha mãe fazia o almoço, passeávamos de bicicleta até à serra da Boa Viagem ou Minas do Cabo Mondego. Ou, se o tempo era curto, íamos de braço dado até à esplanada onde ele se sentava saboreando a sua limonada enquanto eu andava de bicicleta, desporto que aprendi com ele a partir dos quatro anos.
Meu pai tinha preferências muito acentuadas. O seu prato predilecto era caldeirada e não dispensava o ruivo, como a melancia era a sua fruta de eleição.
Esposo amantíssimo, brincava muito com a minha mãe e eu era feliz vendo-os, sem ser notada.
Por muito que diga, nunca direi nada sobre o meu pai, nunca direi tudo. E de cada vez que termine um texto sobre a sua vida e personalidade, um imenso vazio fica por preencher, incomensurável, como a necessidade que emerge da sua ausência.

Convite: Se sentis a felicidade de ter o vosso pai no número dos vivos, abraçai-o num amplexo que recorde para a vida inteira.