segunda-feira, 29 de outubro de 2018

SAUDEMOS OS NOSSOS MORTOS


SAUDEMOS OS NOSSOS MORTOS

Desde a minha infância muitos hábitos me perseguem caracterizados por ligações fortes de sentimentalismo saudosista.
Hoje, evoco aquela sensação amarga deixada na alma como uma semente que se restringe na flor, regada pela luminosidade da reminiscência. Mas é o tempo que comanda a força e o matiz das nossas dores mais profundas, geradas nos abismos da ausência e do vazio.
Tudo isto porque não sabemos para onde partem e qual o destino da sua viagem.
Encerrou-se uma porta; abriu-se um reposteiro e um espaço desconhecido, repleto de silêncios e mistérios alarga-se desmesuradamente.
“O que Eu sei, não o sabes tu agora”, disse Deus pela boca do profeta.
Eu acho que nem agora nem nunca, dada a ignorância que grassa no mundo e atinge grande percentagem da humanidade.
O dia dos que se foram para não voltarem - o dia dos finados- serve de registo num álbum que se folheia para reviver na memória as figuras queridas que apenas existem na recordação de cada um, com mais ou menos minúcia, com mais ou menos pormenor.
Saudemos os nossos mortos e retiremos as magnas lições do legado que nos deixaram e de que somos herdeiros legítimos.

ENCONTRO de CANICHES XVIII


ENCONTRO de CANICHES XVIII

- Eh! Que focinho é esse?
- É o meu. – respondeu Maruja a Rissol que sacudia a pelagem encharcada pelas bátegas da chuva que caía.
- Onde estão os outros? – perguntou este.
- Na cave do Jimy. Mas tu vais apanhar uma brutal constipação! Nem te acolheste debaixo de nenhum chapéu!
- O quê!? Aqueles guardas-nada? Os automáticos então só defendem o coruto da cabeça. Mania das vaidades!
- Somos melhores que os humanos. Mais resistentes.
- Mais inteligentes, isso sim! Temos dons que nascem connosco. Nadar, por exemplo.
Maruja riu de satisfação.
- O instinto de sobrevivência está mais desenvolvido em nós, animais do que nas pessoas que se julgam superiores a nós.
-Oh! Oh! Essa qualidade não é inata nelas. Quando se manifesta, ´e de forma descontrolada.
- Olha, vamos ter com o Jimy.
Ao reunir-se, o grupo reparou num rafeiro, magro, triste, de aspecto enfermiço.
- Conhecem-mo?
O latido condoído de Rubi despertou a emoção geral.
- Como te chamas?
Jimy quis ser amável.
Rissol ripostou.
- Ele está esfomeado. Sabe lá se tem nome!
Maruja afastou-se e ganiu.
- Ah! Vamos com ela…Temos ali ração e água.
- Por que nome te havemos de chamar?
Jimy deu uma sapatada em Rissol.
- Deixa-a comer!
- Deixa-a?! É…
- É e está grávida…
- E agora, que fazemos?
Jimy aventou a hipótese da Segurança Social.
-Ela não pode viver de burocracias. Vamos nós tratar dela e dos filhotes. A união faz a força. Depois se verá!
- Sim um passo de cada vez.
E Gigi, até aí calado, rodopiou atrás da própria cauda.
- Meninos, o que nos trouxe em convívio fica para outro dia. Temos um assunto entre patas. E nada de caridadezinha habitual nos humanos, que ajudam uma vez e da pior maneira.
- E à custa disso, alimentam uma série de instituições.
- Vá! Vamos dormir. Um passo de cada vez.
- E o nome para ela?
- Um passo de cada vez…entendes? Para ser o passo certo!
- OKay!

quarta-feira, 20 de junho de 2018

SANTOS POPULARES


Vem de longe o hábito de festejar personalidades emblemáticas que se notabilizaram por qualquer rasgo pouco comum,
Atravessamos uma data em que isso se verifica pela evocação de figuras que percorreram o mundo para o evangelizar e em consequência disso pagaram com a vida o facto de arrastarem multidões sem, contudo, as converterem a um comportamento sério e discreto. Pelo contrário, são pretexto de celebrações festivas, arraiais, onde imperam a comida, a bebida e a música estimula os apetites.
Nunca percebi como pessoas que inspiraram aprumo, modéstia, circunspecção e se protegeram com grandes reservas emocionais induzem o povo a bailaricos, folclore e mergulhos desassombrados na gastronomia porque, como diz a canção, “o que se leva desta vida, é o que se come, o que se bebe e o que se brinca”…
Pedro, o mais carismático apóstolo de Cristo, mandado prender pelo imperador Nero, morre crucificado sobre uma fogueira e porque não se julga digno de ser sacrificado como o seu Senhor, exige que o preguem na cruz de cabeça para baixo.
João Baptista, do tempo de Herodes, é mandado por este que o degolem e a sua cabeça seja apresentada numa bandeja numa corte onde a luxúria e as orgias eram o prato habitual das diversões.
António de Pádua - ou de Lisboa, se quiserem,- teólogo, pensador profundo taumaturgo brilhante e confessor da Igreja.
Não venham com religiosidades nem falsas devoções pois se estes santos, pela virtude e pelo pensamento inspiram folias e divertimentos é porque o povo se impregnou daqueles ventos de paganismo vindos de outros tempos e doutros espíritos idólatras.
Os ídolos ou imagens de escultura não diferem dos ícones da antiguidade. Um desesperado que tenha fé numa pedra e acreditar que sobrevive à negativa energia que há em si, vai na onda do seu egocentrismo e sucumbe. Por isso, o próximo, que devemos amar como a nós mesmos, constitui-se a nossa salvação-libertação.
Como a nós mesmos…Mas alguém se ama a si mesmo, de verdade? 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

MAMÃ, COMI OS “FÓFAROS “ TODOS


Era uma caixa minúscula, quadrada, colorida, repleta de fósforos moles de cabeças de cera.
A garota comera-as todas.
Como se deliciara com o sabor, foi ter com a mãe à cozinha, anunciando a proeza.
A expressão carrancuda da progenitora fez-lhe ver que algo corria mal.
- Repete o que disseste!
Baixinho, a tentar disfarçar o efeito, a garota murmurou:
- Comi os “fófaros” todos.
O resultado foi uma lavagem ao estômago que a deixou roxa de tanto chorar.
Dois anos antes, engolira o alfinete da fralda e teve a sorte de fazê-lo evadir pelas fezes, o que representou um enorme alívio para os pais.
A infância registou um percurso de correrias, quedas frequentes e joelhos esfolados. Acrescente-se a isso um pavor pela tintura ou mercúrio-cromo.
Apesar de fazer o mesmo trajecto quando andava de bicicleta, um dia resolveu alongar-se pela cidade. Numa descida, reconheceu que não tinha travões e só podia parar por um acaso fortuito da sorte. Esta não tardou a evidenciar-se na figura de um carro de gelados que se lhe apresentou pela frente. Os dois veículos, engolfados numa marcha desesperada, foram imobilizados pelo muro da esplanada que protegia a estrada do salto mortal para a praia, a uns seis metros de altitude.
Os desafios eram constantes.
Atirar-se em queda livre da ponte de cimento para o areal que serpeava à volta da lagoa aberta pelo mar. era um convite irresistível. Quando o intentou. durante mais de meia hora este sem mover os pés, com a suspeita de ter fracturado os artelhos.
No parque infantil, no aparelho das argolas, querendo imitar uma colega, não conseguiu dar ao corpo a volta inteira e quase torceu o pescoço que lhe doeu por minutos. Mas ninguém reparara.
Com o crescimento, as aventuras de carácter físico transmudaram-se em factos de ordem intelectual e a sua infância regista com chave de ouro um soneto declamado por ela na festa de um casamento.
Fechava-se uma etapa.
Iniciavam-se as saudades, a melancólica nostalgia de um passado tão vibrante como uma sinfonia e tão doce como um ninho de pássaros.
Foi durante essa época que o meu coração aprendeu a alegria de viver, o sabor da compreensão e da tolerância, o valor da paz, o valor do perdão.
Pode parecer demagógico. Mas se estivermos bem connosco, fazemos os outros felizes
E se soubermos tornar as crianças felizes, salvamos a humanidade.