quarta-feira, 20 de junho de 2018

SANTOS POPULARES


Vem de longe o hábito de festejar personalidades emblemáticas que se notabilizaram por qualquer rasgo pouco comum,
Atravessamos uma data em que isso se verifica pela evocação de figuras que percorreram o mundo para o evangelizar e em consequência disso pagaram com a vida o facto de arrastarem multidões sem, contudo, as converterem a um comportamento sério e discreto. Pelo contrário, são pretexto de celebrações festivas, arraiais, onde imperam a comida, a bebida e a música estimula os apetites.
Nunca percebi como pessoas que inspiraram aprumo, modéstia, circunspecção e se protegeram com grandes reservas emocionais induzem o povo a bailaricos, folclore e mergulhos desassombrados na gastronomia porque, como diz a canção, “o que se leva desta vida, é o que se come, o que se bebe e o que se brinca”…
Pedro, o mais carismático apóstolo de Cristo, mandado prender pelo imperador Nero, morre crucificado sobre uma fogueira e porque não se julga digno de ser sacrificado como o seu Senhor, exige que o preguem na cruz de cabeça para baixo.
João Baptista, do tempo de Herodes, é mandado por este que o degolem e a sua cabeça seja apresentada numa bandeja numa corte onde a luxúria e as orgias eram o prato habitual das diversões.
António de Pádua - ou de Lisboa, se quiserem,- teólogo, pensador profundo taumaturgo brilhante e confessor da Igreja.
Não venham com religiosidades nem falsas devoções pois se estes santos, pela virtude e pelo pensamento inspiram folias e divertimentos é porque o povo se impregnou daqueles ventos de paganismo vindos de outros tempos e doutros espíritos idólatras.
Os ídolos ou imagens de escultura não diferem dos ícones da antiguidade. Um desesperado que tenha fé numa pedra e acreditar que sobrevive à negativa energia que há em si, vai na onda do seu egocentrismo e sucumbe. Por isso, o próximo, que devemos amar como a nós mesmos, constitui-se a nossa salvação-libertação.
Como a nós mesmos…Mas alguém se ama a si mesmo, de verdade? 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

MAMÃ, COMI OS “FÓFAROS “ TODOS


Era uma caixa minúscula, quadrada, colorida, repleta de fósforos moles de cabeças de cera.
A garota comera-as todas.
Como se deliciara com o sabor, foi ter com a mãe à cozinha, anunciando a proeza.
A expressão carrancuda da progenitora fez-lhe ver que algo corria mal.
- Repete o que disseste!
Baixinho, a tentar disfarçar o efeito, a garota murmurou:
- Comi os “fófaros” todos.
O resultado foi uma lavagem ao estômago que a deixou roxa de tanto chorar.
Dois anos antes, engolira o alfinete da fralda e teve a sorte de fazê-lo evadir pelas fezes, o que representou um enorme alívio para os pais.
A infância registou um percurso de correrias, quedas frequentes e joelhos esfolados. Acrescente-se a isso um pavor pela tintura ou mercúrio-cromo.
Apesar de fazer o mesmo trajecto quando andava de bicicleta, um dia resolveu alongar-se pela cidade. Numa descida, reconheceu que não tinha travões e só podia parar por um acaso fortuito da sorte. Esta não tardou a evidenciar-se na figura de um carro de gelados que se lhe apresentou pela frente. Os dois veículos, engolfados numa marcha desesperada, foram imobilizados pelo muro da esplanada que protegia a estrada do salto mortal para a praia, a uns seis metros de altitude.
Os desafios eram constantes.
Atirar-se em queda livre da ponte de cimento para o areal que serpeava à volta da lagoa aberta pelo mar. era um convite irresistível. Quando o intentou. durante mais de meia hora este sem mover os pés, com a suspeita de ter fracturado os artelhos.
No parque infantil, no aparelho das argolas, querendo imitar uma colega, não conseguiu dar ao corpo a volta inteira e quase torceu o pescoço que lhe doeu por minutos. Mas ninguém reparara.
Com o crescimento, as aventuras de carácter físico transmudaram-se em factos de ordem intelectual e a sua infância regista com chave de ouro um soneto declamado por ela na festa de um casamento.
Fechava-se uma etapa.
Iniciavam-se as saudades, a melancólica nostalgia de um passado tão vibrante como uma sinfonia e tão doce como um ninho de pássaros.
Foi durante essa época que o meu coração aprendeu a alegria de viver, o sabor da compreensão e da tolerância, o valor da paz, o valor do perdão.
Pode parecer demagógico. Mas se estivermos bem connosco, fazemos os outros felizes
E se soubermos tornar as crianças felizes, salvamos a humanidade.

quarta-feira, 28 de março de 2018

MEA CULPA


Soneto da Páscoa
Publicado na revista NA da Convenção das Assembleias de Deus em Portugal,
Declamado num culto em Foz do Arelho (Caldas da Rainha