quinta-feira, 21 de março de 2013

ALZIRA CONTENTE TONDELA DOS SANTOS


Minha mãe – heroína de luta e matriarca de paz

21 de Março de 1903 - 1 de Agosto de 1977

Dos oito filhos de minha avó materna, dois rapazes morreram em combate, na guerra de Angola e três raparigas vieram da aldeia para a cidade, na função de damas de companhia.
Naquele tempo, era usual abandonarem o agregado familiar e a lavoura para encontrarem uma vida menos dura que a do campo.
Minha mãe foi uma delas, convidada por uma senhora refugiada da revolução civil espanhola. Era uma figura de grande classe, de gargantilha engomada e vestido até aos pés, como então era costume nas famílias de nível social elevado.
Já em Portugal, depois de ter casado, enviuvado logo a seguir e sofrido um aborto em consequência desse desenlace, esta fidalga de Madrid tomou sob a sua responsabilidade a formação e educação da sua pequena pupila e preencheu assim a sua solidão, libertando momentos nostálgicos e alicerçando a sua forçada independência.
De vez em quando, minha mãe visitava os pais e toda a região a recebia de braços abertos. Os aldeões divertiam-se muito com as novidades que ela levava da cidade e a sua curiosidade atingia o auge, quando ela subia para uma mesa e dançava o “charleston”, música muito em voga nos anos 30.
Os hábitos da moderna sociedade citadina não deixaram de influenciar a pequena “bailarina improvisada” que exultava perante os campónios atónitos, por tanta desenvoltura e agilidade. Habituada à proximidade com damas de prestígio, visitas assíduas, em grande parte consorciadas com empresários ou militares de bigode façanhudo, tinha aprendido tudo o que uma jovem de linhagem deve saber, inclusive a dança, acompanhada de castanholas que ela manuseava com perícia. De facto, minha mãe gostava muito de dançar, tanto, quanto meu pai não acertava um compasso.
Depois de ser rainha da festa por uns dias, voltava à casa não raro com ofertas que os meus avós e tios, lavradores abastados, tinham prazer em dar à “senhora fidalga” ou à “fidalga espanhola” fruta consoante a época: cerejas, laranjas, uvas, nêsperas, nozes, avelãs, marmelos, produto da terra, suculento e doce; batatas, azeite em garrafão e azeitonas. Julgo que foi isso que levou minha mãe a especializar-se em compotas, bastante apreciadas nos chás de Inverno.
Quando minha mãe se casou, a senhora que a educara e foi mais tarde minha madrinha de batismo, zangou-se e cortou relações, indo viver para Figueiró dos Vinhos, na mansão de uns amigos. A casa da Figueira ficou fechada. Meus pais alugaram um pequeno apartamento de noivos mas a situação não durou muito. As duas mulheres estimavam-se e sentiam saudades uma da outra. Apesar de acompanhada, a solidão agudizava-se com a ausência daquela que fora sua amiga e confidente dos bons e maus momentos, com quem se habituara nas alegrias e dificuldades. Porém, os seus pergaminhos impediam-na de tomar a iniciativa de uma reconciliação.
Minha mãe é que não esteve com meias medidas. Recém-casada e com pouco dinheiro mas na consciência plena do que se impunha fazer para acabar com os arrufos e evitar males maiores, juntou o útil ao agradável e deliberou instalar-se com o marido na casa que fora da sua adolescência e juventude, tanto mais que estava grávida de meu irmão.
Enviou um ultimato, para um dos amigos, o tenente Valadão, rematando:
- Se não ma trouxer, vou eu buscá-la.
Vi sempre em minha mãe, uma pessoa determinada, corajosa e aguerrida, com ascendente sobre meu pai, homem calmo e confiante, que delegava nela o poder de decisão e o controle de tudo. Era muito respeitada e amada pelas pessoas com quem relacionava e mantinha um círculo de amizades saudável. Era muito sociável mas estabelecia limites e nem toda a gente admitia na sua intimidade afetiva.
Para além da responsabilidade doméstica, minha mãe tratava de outros assuntos com a casa, pagamentos e contribuições, obrigações fiscais. Na época balnear preparava o primeiro piso para receber os banhistas que, durante os meses de verão lhe davam um lucro satisfatório. Quando foi necessário restaurar o rés do chão e parte do segundo andar, todas diligências burocráticas arvorou sobre os seus ombros e ela própria vigiava os pedreiros e o próprio empreiteiro, não fosse “haver ninho atrás da orelha”, como era sua expressão quando suspeitava de fraudes. Minha mãe invocava com frequência e a propósito de tudo, os provérbios, os adágios. Dizia que “voz do povo era a voz da razão” Por isso, eram transmitidos de geração em geração, de século para século.
Lembro que minha mãe tinha muito entusiasmo pela leitura e por leilões. Sempre que podia, não perdia a oportunidade de assistir a um. As famílias de nobre linhagem, a fidalguia, decadentes, não tinham outro recurso senão as vendas em hasta pública, que passaram a ser frequentes naquele período. O recheio de palacetes ou vivendas aristocráticas, era descrito nos jornais com detalhe e nele, surgia sempre um ou outro objeto de valor adquirido por um preço irrisório. Algumas vezes a acompanhei e admirava a sua vontade férrea, a sua tenacidade no confronto com outros interessados na mesma preciosidade. O seu gosto caía infalivelmente nos móveis de estilo.
Todas as noites, sem alteração, às 21 horas, a cozinha estava arrumada. Juntavam-se os casais para conversar, desabafar, falar mal da “criadagem”. Os homens jogavam as cartas, as mulheres bordavam ou faziam crochet Ninguém fumava. A telefonia conservava-se desligada. Televisão não tinha iniciado ainda o seu percurso. No ambiente, respirava-se um firme elo de simpatia, conforto e afabilidade.
Eu era a única criança mas divertia-me imenso, observando, ouvindo e apreciando. À hora do chá, havia a acompanhar a bebida, um “bolo de mármore” ou “franciscos”, uns biscoitos deliciosos que minha mãe, como excelente cozinheira que era, se esmerava em modelar. Com os dedos fazia rodar pedaços de massa até tomarem a forma de SS; depunha-os em filas no tabuleiro e pincelava-os com azeite. Também era perita nos “pastéis de massa tenra” com recheio de picado de carne ou de creme com nozes.
Aos domingos, de tarde, íamos passear até ao jardim municipal onde se conversava, se combinavam eventos com os nossos amigos, se comia pevides ou queijadas e se ouvia música de um altifalante. Em datas comemorativas, a banda de música da Filarmónica tocava no coreto. Quando era montado um palco, sabia-se que havia danças e cantares folclóricos. Então juntava-se muita gente. As crianças andavam de triciclo ou de trotineta ou saltavam no jogo da “macaca” traçado na areia vermelha do jardim.
Enquanto eu me entretinha a andar de baloiço, entusiasmada em chegar com os pés às copas das árvores, minha mãe arranjava sempre pão seco para os cisnes e peixes do lago, onde flutuavam também algumas plantas exóticas. As pombas chegavam em bandos numerosos, participando ao festim das migalhas.
                                                                                                             
No pinhal das Águas, chamado assim por nesse local existir um edifício destinado à filtragem das nascentes para consumo público, presos por grossas cordas a troncos de pinheiros, alguém tinha disposto dois baloiços para adultos. Os nossos picnics eram o meu encanto. Alegrava-me ver a minha mãe balançar o corpo sem medo, gargalhando, desanuviada e feliz, como uma jovem em tempo de férias.
Foi num desses passeios que trouxemos um gatinho para casa, languinhento, magrizela, morto de fome.
Minha mãe gostava muito de animais. Fez deste, um belíssimo exemplar, ajudando a desenvolver a sua castiça raça alentejana. Ela própria o castrou. Arrepio-me só de o evocar. Um dia em que o irmão, o meu tio António, nos visitou, ela pediu-lhe ajuda. Ele negou a princípio, depois hesitou.
- Só quero que o segures bem.
Embrulhado num cobertor de “papo”, o felino aguentou a cirurgia não sem alguns berros. Solto, devidamente tratado, fugiu para debaixo da cama e durante os primeiros dias não fez mais que lamber-se, meticulosamente.
A meu tio custaria a acreditar se não tivesse visto.
- És de força!
- Fiz o mesmo que o veterinário.
Nice tornou-se um gatarrão, de luminosos olhos verdes, meu companheiro de folguedos, pois lhe ensinei a atravessar o arco e o jogo das escondidas.
A coragem de minha mãe era apenas aparente. Não era capaz de matar uma galinha. Quando era necessário confecionar uma canja de um “borracho”, pedia ajuda a uma das irmãs ou a meu pai que tomava sobre si a tarefa de preparar o coelho sem que nada sofresse. Durante esse trabalho de limpeza e dissecação, minha mãe não estava presente. Aparecia para o “meter em vinho de alhos” e estufá-lo.
Na época da “matança do porco” que decorria em casa de meus avós maternos, duas vezes por ano, minha mãe fugia para longe dos grunhidos do suíno. Mas todo o ritual, iniciado por homens experientes chamados para esses eventos, tinha o seu quê de pagão, desde a prisão do animal ao “desmanchar" do corpo pendurado num gancho de ferro.
Minha mãe adorava crianças e viveu sempre por elas rodeada.
Na sua câmara ardente tinha junto da sua, uma urna branca de um recém-nascido.
Ao lado da sua sepultura, repousava uma criança de seis anos, vítima de acidente.
Nada acontece por acaso.
Nesta imensa tristeza que me trespassa quando recordo a sua figura enérgica, os seus passos silenciosos, o embevecimento com que me olhava, as suas máximas morais, os adágios populares tão do seu hábito mencionar a propósito de qualquer ato menos correto, o seu sorriso a abrir-se em gargalhada fresca que inspirava otimismo, fico olhando para dentro de mim, prendendo as lágrimas, fazendo por ignorar aquela dolorida orfandade que nos despiu de tudo para sempre.
Para sempre?
A ferida sangra como no primeiro dia.
E eu sinto, também como naquele dia, a sua mão branca e macia irradiando um calor que por todos estes anos aqueceu o meu coração. A sua mão, apertando a minha, não significou uma despedida mas um guia, um farol, uma sentinela, uma bússola.
Mas não só. A esperança promissora de nos encontrarmos de novo nesse mistério que é a eternidade.