quinta-feira, 18 de setembro de 2014

ENCONTRO DE CANICHES - II


A reunião, desta vez, tinha mais um cachorro.
Rubi, sempre quezilento e mal disposto, procurando desenvencilhar-se da coleira a todo o custo, enroscou simplesmente o dorso, numa atitude indiferente.
Rissol interveio a seu favor:
- Não toleras isso, não?
- Achas? Sou um defensor nato dos fracos. Deixa-me crescer.
- Agora tens de te contentar com o que te dão.- Contemporizou a Lulu.
Voltou-se para o novo amigo;
- Chamas-te Jimmy, não? Não me pareces muito feliz. Que se passa?
Jimmy arriscou um latido. A dona repreendeu-o.
- Vêem? – disse ele. – Todas as vezes que emito o meu desacordo, mandam-me calar.
- Desacordo? - estranhou o Gigi.-Cá por mim podes falar.
- Imaginem. Com as calamidades que vão por esse mundo e a minha dona hoje andou numa fúria de nervos só porque a depilação não ficou a seu gosto.
A Lulu ripostou:
- Que adiantam as preocupações pelos problemas alheios? Não são solução.
- Solidariedade, não?! - retorquiu Jimmy, aferrado à sua ideia.
Filo interrompeu:
- A sociedade delira com a tragédia. Têm muita pena, os casos são assunto de conversa durante uma temporada, depois cai tudo no esquecimento.
- E sem se saber o resultado que, nas esferas da informação deixou de ser “caixa alta”.
à Lulu admirou-se:
- Que é isso?
- Noticia em primeira mão, retumbante, fresquinha. - esclareceu o Rissol.
- Pode-se lá admitir - continuou ele – que o mundo inteiro assista impávido ao genocídio no Iraque? Crianças e mulheres enterradas vivas? Para que raio existem as Nações Unidas?
- As leis de cada Estado, não contam? Os acórdãos?
- Os interesses económicos também…
Gigi revoltou-se.
- Se nem cá dentro põem cobro à corrupção…
Filo interrompeu:
- Gostarias que interferissem no governo da tua casa?
- O ponto é este,- atirou o Rissol.- Havia de haver um sistema superior que punisse e orientasse os interesses, uma melhor distribuição da riqueza. Acabar com a pobreza e com a falta de cultura, respeitando, claro, os valores de cada padrão histórico.
- E essa entidade seria… - ironizou o Jimmy.
Após uns minutos de silêncio, Lulu opinou:
- O Papa…
Estava triunfante.
Mas Rissol e Jimmy abanaram a cabeça.
- O Vaticano não tem poder para intervir nas situações legais das nações.
- Apela à Paz.
- Tal como o mundo está, o que se vislumbra é guerra e não paz. Vês o americano abdicar das suas prerrogativas? As grandes potências respeitarem os países subdesenvolvidos? E onde há produto que torne o território mais poderoso, como o petróleo, caem-lhe em cima como abutres.
Filo inflamou-se:
Não vamos mais longe. Vocês não acham um insulto aos que vivem no limiar da pobreza, os programas televisivos encherem os horários com apresentações de gastronomia, rica, variada, opulenta, de fazer crescer água na boca… enquanto crianças nem uma refeição têm por dia?
- Os erros humanos são vingados pela mãe natureza…não vos parece? Olhem o vulcão na Islândia. É mais um sinal, depois dos tornados, cheias, tremores de terra…
Jimmy levantou-se a um movimento da dona.
- Amigos, até amanhã! Não pensem muito.
- O homem é que devia pensar nas catástrofes telúricas como castigo.- gritou-lhe Rissol.
- Cala-te ou ainda te põem uma mordaça.- segredou a Filo - Não é o que fazem aos que falam demais?
Jimmy rosnou e Rubi olhou o companheiro com simpatia.
A sentença fora do Gigi, que perguntou ainda:
- Que achaste do Jimmy?
Os focinhos viraram-se uns para os outros
- O dono dele é deputado… ou secretário de Estado… ou coisa assim… - disse o Rissol.
- Isso quer dizer…
- Que enche a barriga como os outros.
- Quem?
- Rubi, o deputado.
Estiveste a dormir o tempo todo. – aventou o Filo.
- Eu não durmo, dormito.
- Deixem-no! Está com crise de personalidade…
E abalaram.