quinta-feira, 4 de setembro de 2014

ENCONTRO DE CANICHES - I


“Um cão ladrou-me às canelas
mas eu não liguei ao cão.
O cão fechou as goelas.

Se lhe desse aceitação,
Isso é que seriam elas…”

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São cinco cãezinhos de luxo que acompanham as respetivas donas, damas da “alta sociedade”.
Todas as tardes, estas figuras combinam reunir-se na esplanada do Casino, em divertida cavaqueira, jogando a canasta, comentando escândalos e mostrando ao mundo e umas às outras, as novidades da moda e os seus critérios morais, enquanto paulatinamente, saboreiam chá e bolos.
A cidade chama ao recinto o “Pátio das Galinhas”.
Debaixo da mesa, enovelados em redor das pernas, a Lulu, o Gigi, o Rubi, a Filó e o Rissol, saturados e sonolentos, decidiram quebrar o silêncio preconceituoso e entabular conversa. Afinal pertenciam à mesma classe.
É assim que nascem as crónicas sociais.


I


O primeiro a falar foi o Rissol:
- Já que passamos tanto tempo juntos e estamos destinados a ficar atrelados aos pés das nossas donas, por que não criamos uma cumplicidade crítica ao quotidiano que nos rodeia?
A Lulu despertou:
- Boa! Vem uma “seca” maior que o silêncio.
- O espírito feminino…- obtemperou o Gigi.- É assim mas é feliz!
- Vê lá! Estou em minoria mas posso fazer prevalecer a minha opinião.
- És um resultado do movimento feminista. As mulheres emanciparam-se. Agora queixam-se do excesso das tarefas. Casa, filhos e trabalho.
- A juventude moderna masculina aceitou a divisão de tarefas. - sentenciou o Rubi contra a apreciação da Filo.
Esta redarguiu:
- E se falássemos doutra coisa? O vírus do machismo-comodismo está sempre neles.
- O quê, por exemplo?
- Os feriados! – gritou o Gigi.- O 10 de Junho, o dia da Raça!
- Ó pá! A gente já não tem raça nenhuma. O Camões e os Lusíadas nada trazem aos da nova geração.-.Quem tem fome não recorda a História.
Rubi mudou de posição.
- Lá em casa ninguém dos miúdos gosta da obra.
- Um feriado sabe sempre bem… - lembrou a Filo.
- A quem trabalha, amiga. A quem trabalha. Que eu saiba, os políticos só gozam de umas fériazitas… Lutam como doidos pelos nossos interesses. Vinte e quatro horas por dia. – assegurou o Gigi.
Rissol riu.
- De que planeta é que tu desceste?
- Vocês esquecem que os governantes não possuem horário. - teimou a Lulu em defesa do amigo.
- Pois! Os problemas avultam pela noite dentro e os coitados não repousam. Não há tempo.
- O Rissol, que era o único que não usava laço na coleira, insurgiu-se.
- Não posso acreditar que vocês confiem nos ministros e em toda aquela panóplia de promessas.
- Meninos! Os nossos donos são privilegiados. Nós somos privilegiados.
A irritação do Rissol atingiu o auge.
- Deve-se ou não respeitar o dia de Camões?
Filo argumentou:
- Acabar com a efeméride é o mesmo que mudar o Hino Nacional, como um ex-presidente da República alvitrou. Que raio de valores são os destes homens, que atravessaram situações fulcrais e tão absurdamente esquecem símbolos que são marcos que deveriam ser hereditários.
Lulu lembrou:
- Todos querem fazer diferente dos seus antecessores, para provar que constroem alguma coisa.
- Quem se lixa é o povo. E quando querem meter areia pelos olhos dentro?
A frase fora do Rubi, que prosseguiu:
Vejam: taxa de Desemprego. Mais baixa que a da nossa vizinha Espanha. Não dizem que contribuiu para isso, a massa astronómica de emigração com famílias inteiras; as reformas antecipadas; os cursos de formação, (uma anedota para ludibriar ingénuos)… a baixa natalidade. O investimento no estrangeiro…

- Eu insisto. Sou saudosista e prezo as glórias da minha terra. - murmurou a Lulu. – 10 de Junho, 1º de Dezembro de 1640, 5 de Outubro de 1910. Qualquer dia aparece outro alienado mental e acaba com o 25 de Abril, o 25 de Dezembro… como aconteceu com o dia dos Finados. É só vir outro patusco… sem ideias
- Então eles não estão a acabar com tudo? Escolas, Juntas de Freguesia, e outras situações reduzidas a memoriais de outros tempos.
- A modernidade não é contigo. - desdenhou o Rubi.
- A crise, menino Gigi. A crise. Se não se poupasse, se não se fosse buscar fundos ao bolso dos cidadãos contribuintes, não poderia haver as grandes galas para receber a monarquia de além-fronteiras, para a pompa e circunstância da trasladação de restos mortais…
- Claro, claro, uns para o Panteão de S. Vicente e outros apenas com direito a uma travessa ou nem isso.
- Não sejas maldizente, Rissol. Lugares de honra consoante a craveira, o estofo cívico…
- Ah! Por isso é que o Almeida Garret tem o nome gravado por fora no sarcófago e este não tem nada lá dentro. Ou não tinha?
- Porquê? Deu lugar a outro?
- E os carros “top gama”?
- Filó enervou-se.
- Havia de se formar uma poluição tão espessa… Falam nisso e não recordam o deputado que ia para o Parlamento, de bicicleta.
- Queres maior do que aquela que paira na atmosfera do Parlamento?
- Pois! Até põe alguns a dormir.
- Muitos, com vergonha de deixar cair a cabeça, escarafuncham o nariz.
- As deputadas “garnisés” é que são geniais. No fim da acusação, ficam sempre com cara de quem praticou uma boa ação.
- Outra anomalia de quem, não sabendo resolver os problemas nacionais, muda hábitos ancestrais. Refiro-me ao “Acordo Ortográfico”.
 Antigamente, a disciplina de Português estudava os étimos latinos. Hoje, suprimindo as letras, os jovens ficam sem saber quais os vocábulos que descendem da via erudita e os que descendem da via popular.
- Mas tu julgas que na era informática, o vulgo se preocupa com isso? A Internet tem solução para tudo.
- Olha, o sogro da minha dona jura que não seguirá a mudança.
Os brasileiros que nos copiem, se quiserem. Que mania esta de imitarmos toda a gente.
- Será que os homens se transformarão em robots?
A dúvida saiu da Filo que, a um gesto da dona, se ergueu e se despediu
E foi cada qual para seu lado com um “até amanhã, queridas” e cheirando o traseiro uns dos outros.