quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O SENTIDO DE UMA FLOR BELA



23 de Janeiro de 1967

Por que nascem as flores? Os montes, os vales, os mares? O polvo, por que nasce? Por que nasce o planeta e constantemente se renova?
Por que nascem os homens?
A resposta, para o momento, não é tão elementar assim. O importante é que nascem.
A propósito de nascimento, em 23 do primeiro mês do ano de 1967, Florbela rompeu a fibra do “escafandro” em que se desenvolvera durante nove meses e abriu os olhos para o mundo. E chorou estrondosamente.

Por que é importante para uma mãe, importante e decisivo, o nascimento de um filho? Como é importante? Que representa o ato de o ter? Queira ou não queira, em que aspeto se reflete na vida de uma mulher a consumação dos seus ideais de plenitude no filho que desabrocha?
Um filho é um universo de emoções desde a dádiva à posse; desde a dor ao amor; desde o fracasso ao triunfo. Não importa o tipo de emoções; o importante é que elas existem, fazendo da vida permanente vibração de sentimentos e desejos.
Decorridos estes anos todos, como hoje, dar à luz, fazer brotar é algo que vivifica. Representa uma continuidade mas, sobretudo, afirmação. Uma afirmação de valor, de grandeza; uma afirmação de desdobramento, de perpetuidade.
Aprecio o Criador e situo-me. A obra não acaba aqui. Tenho o inefável privilégio de confundir as minhas lágrimas e a minha comoção com as lágrimas da chuva que Ele condensa no infinito, no mistério insondável da Sua criação.
Eu devo a Florbela, o valor da sua descoberta. Nesse dia, 23, encontrei-me com o mundo. Com o seu significado e com o seu sortilégio. Devo-lhe o regozijo que senti na apoteose da sua expulsão, a ternura contemplativa pela inocência do seu rosto angelical, a pequenina obra de arte rezingona que, mal nascida, já lutava pela sua subsistência, procurando o mamilo materno.
Quando decalco na memória todos os seus passos, todas as suas atitudes, os seus risos e transmutações, uma infinda saudade estremece o meu sangue e o repassa de melancolia.
As suas “gracinhas”, o desembaraço com que ela exprimia a sua polémica ao que lhe desagradava. Lembro aquele dia em que ela, entretida a ver uma montra, ficou com o nariz ao mesmo nível do sapato de um cavalheiro que, egoisticamente apoiou o pé no degrau exterior de acesso. Logo ela ripostou;
- Pé xolé…
Foi a forma simples de eclipsar o indivíduo.
Como era muito delicada e doce, o avô nutria um forte carinho por ela. Passeava-a muitas vezes ao colo, mau grado a garota lhe enfiar os deditos pelos grossos e peludos buracos das narinas para descobrir onde terminava.

Em 1987 publiquei um texto sobre a sua personalidade no semanário “Notícias de Guimarães”.
Hoje, utilizando o mesmo título, com algumas diferenças, transcrevo o que disse e completo a menina que ela continua sendo, na sua dignidade e compostura senhoril.

E retomo o que penso dela:
Florbela vive e vibra com a vida. Ama as plantas, os animais. Durante um tempo, foram seus companheiros domésticos, os “hamsters” e as tartarugas. Preocupa-se com a origem e o fim de tudo quanto existe à face da Terra.
Quando se vive e vibra, a vida deixa de ser um fardo, uma nulidade.
Nos intervalos que lhe permite o seu trabalho, desenvolve a sua vocação pela fotomontagem e pela fotografia, área por que é verdadeira apaixonada. No campo da informática, explora diversas expressões de modalidades criativas.
Continua sendo uma mulher de rara sensibilidade. Afasta-se dos conflitos. Despreza-os. Baixa o conceito que tem por aqueles que privilegiam a intriga e a maledicência.
De espírito versátil, possui um sentido de humor apurado e oportuno, de reverberações originais e críticas.
Para além de outros dotes, Florbela é perfeita naquilo que faz. Minuciosa. Meticulosa, diria que em extremo.
Intolerante com a desordem, procura que o seu quotidiano seja, na medida do possível, arrumado tanto na prática materialista como no espírito.
Por isso, todos a amamos e nos sentimos gratos e honrados pela sua companhia e pelo seu exemplo.