terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Aurora Tondela


22 de Janeiro de 1938


HINO A AURORA

Ovídio


Fulgiu como donzela e pôs em movimento todos os seres vivos…
Produziu a luz e as trevas esqueceu.
Voltada para o universo inteiro, radiante subiu, esplendorosa e vestida de luminosa e deslumbrante veste.
De ouro colorida e maravilhosa de contemplar, ela refulgiu, a mãe das vacas e condutora dos dias.
Afortunada Aurora, que tem o olhar dos deuses e o formoso cavalo do claro esplendor conduz, mostrou-se aureolada de raios luminosos com ofertas de luz sobre o universo reclinado.
Traz para junto de nós os bons e afugenta com os teus raios o inimigo! Dá-nos um lugar de pastagem vasto e sem perigos. Afasta as guerras, traz-nos as riquezas, não demores a oferta, Aurora generosa, ao teu cantor.
Ilumina-nos, ó deusa Aurora, com as melhores luzes e dá-nos o alimento, tu que possuis tudo o que é de valor e toda a oferta de bois e de cevada e de carros.
Ó filha do céu, ó bem-nascida, enche-nos de riqueza a nós, ó alta e grande.


Eis uma peça lindíssima do Poeta da Antiguidade, que transcrevo nesta data especial que tanta felicidade trouxe a minha mãe. Quisera eu poder cantar como Ovídio, o meu hino de gratidão por tudo quanto a vida me ofereceu, bom e menos bom, pois tudo contribuiu para o meu crescimento e valorização.


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Resenha Biográfica

No Instituto Maternal de Coimbra, freguesia da Sé Catedral, modernamente designada por Sé Nova, Alzira Contente Tondela dos Santos, casada com Manuel dos Santos, dá à luz uma criança do sexo feminino que é registada com o nome de Aurora. É batizada na Igreja Matriz da Figueira da Foz, cidade onde, em casa própria, reside com seus pais e a madrinha de batismo, Aurora Rodriguez de Almeida, refugiada em Portugal, da guerra civil de Espanha., após o assassinato dos seus familiares em Madrid.
Acontecimentos curiosos marcam a personalidade de Aurora enquanto bebé. Aos seis meses, ingere o alfinete da fralda. Com pouco mais de um ano, come as cabeças dos fósforos de cera de uma caixa inteira, facto que a obriga a fazer uma lavagem ao estômago. A aversão que dispensa aos alimentos cozinhados, transforma-se, na adolescência, pelo prazer da “boa mesa”. Continua a comer pouco mas essa frugalidade é substituída pelo bife mal passado e pelas batatas fritas que a mãe frita como ninguém, muito semelhantes às que, mais tarde, se venderiam em pacote.
Não chega a gatinhar. Quando dá os primeiros passos, não corre, precipita-se. Parece levantar voo. As quedas são, por esse motivo, frequentes e os joelhos andam sempre esfolados.
A par do seu crescimento, ensinam-lhe a pronunciar as palavras corretamente. Impressiona-a a palavra “guerra”. Dizem-lhe: “É guerra, não é “guega”. Ela repete: É “guega”, não é “guega”. Está longe a oportunidade de afirmar que “a guerra é contra os inocentes e a favor dos vilões”.
É uma criança alegre e dotada. O pai ensina-a a andar de bicicleta e a partir dos quatro anos, aos domingos, fazem juntos o caminho da serra da Boa Viagem, sobranceira ao Atlântico e situada a 20 Km de Buarcos, região de pescadores, contígua à cidade.
Como aprendeu a ler, não sabe. A mãe disse sempre que nunca soletrou e desde muito cedo, cultivou a paixão pela leitura, passando as tardes enfiada na Biblioteca Municipal, próximo de casa. Ainda não completara os seis anos quando entrou na escola primária, lendo fluentemente. D. Maria Correia, a professora, e o marido, que a auxiliava nas quatro classes quando necessário, suspeitando que ela estava lendo de cor o livro de leitura daquele ano, puseram na sua frente um jornal que ela leu com invulgar desenvoltura. A mãe guardava religiosamente a sua primeira prova escrita que tinha a classificação: “seis anos -16 valores”
Por essa altura, oferecem-lhe um dicionário de Língua Portuguesa e é com verdadeiro enlevo que se familiariza com os termos mais complexos, decorando o seu significado e ampliando o conhecimento sobre a maior quantidade de vocábulos. Não tinha ainda a noção da sua finalidade mas o que era “seca” para os outros, era diversão para ela.
Inicia a sua carreira literária, aos 14 anos, concorrendo aos Jogos Florais da Tertúlia Edípica, de Peniche, sendo distinguida em poesia infantil. Pouco tempo depois, com os textos “Que Razões Fazem o Casamento Feliz” e “A Mais Bela Carta de Amor”, as revistas Selecções Femininas e Flama, editadas em Lisboa, galardoam-na com dois prémios.
Começa a escrever em jornais e revistas nacionais e estrangeiros e, de colaboração com um colega de estudos, funda, na Figueira da Foz, a revista Praia, Mar e Sol. Como todos os projetos, elaborados apenas com o entusiasmo e a vontade, é publicado o primeiro e único exemplar.
Com duzentas páginas, entre poesia livre e rimada e os primeiros sonetos, modalidade que desenvolve, termina o livro “Canção ao Luar” e guarda-o na gaveta.
Por essa data, realiza a sua primeira entrevista com o professor e advogado Dr. Pinto Carneiro, orador sagrado, de Coimbra, que é publicada no Jornal Feminino, do Porto. Entretanto, na revista Atualidades, de Moçambique, dirige uma página dedicada à Educação da Mulher e da Criança.
Escreve as novelas “Paisagem Beirã” e “Deus Não Dorme”, esta última publicada em folhetim pela revista Terras de Portugal, de Braga.
Cursa Românicas e frequenta Direito. Nas férias, ocupa o tempo em aprender piano e continuar Artes Plásticas no Museu Machado de Castro, em Coimbra, no prosseguimento de aulas anteriores com o pintor francês Rogério Reynaud, uma interessante figura de artista, de farta cabeleira branca, sempre trajado de preto, que habitava umas casas abaixo da sua. A década de 60 é fértil para a sua atividade. Depois de aperfeiçoar o Desenho com Mestre Waldemar da Costa, é em Lisboa que trabalha, dando aulas, escreve, pinta e estuda.
Revistas e jornais da imprensa regional tomam a iniciativa de possuir, cada um, a sua página ou suplemento literários.
É o período das Páginas Culturais. Sob a sua direção e com o nome de Aurora Santos, cria Margem no semanário Gazeta de Coimbra, página quinzenal de arte e cultura, nela publicando muitos nomes nacionais e estrangeiros, ligados ao mundo das Letras, Desenho e Pintura.
Integrada na coletânea “Panorâmica Poética Luso-Hispânica”, que leva por todo o país e pela Europa, exposições de Poesia Ilustrada, reunindo uma plêiade de pintores e poetas da América Latina, Aurora participa com o livro “Fogo de Santelmo”, ilustrado por ela própria, com capa da autoria do Pintor catalão, Francisco Lezcano. Tem oportunidade de conhecer muitos vultos da cultura de Espanha, México, S. Salvador, Chile, Uruguai, Brasil, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Cuba, Porto Rico, etc..
Na Rádio Sociedade Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, os seus versos são declamados, numa produção da poetisa e harpista Alvayr Braga Esteves, subordinada ao tema “Intercâmbio Literário Luso-Brasileiro”. Num dos números de Mákua, volume de poesia, a coleção Imbondeiro, de Angola, publica vários poemas seus e na Enciclopédia Literária dirigida pela Dr.ª Adalzira Bittencourt, no Brasil, são inseridos outros poemas, tanto de caráter social como humanista. Uma das poesias, “O Céu Desceu”, publicada no Diário de Notícias, é nesta coletânea divulgada com o título “Alma de Artista” e traduzida para espanhol, francês, italiano, alemão, sérvio e russo.
Na modalidade de conto, o concurso IV Prémio Joaquim Namorado distingue-a pelo seu trabalho “O Feto”.
Nos anos 70, a Rádio Televisão Portuguesa premeia a sua peça teatral para crianças, em oito episódios, “As Coisas Que As Coisas Dizem”, obra em desenho animado que, por falta de recursos humanos e técnicos, não foi exibida.
Tem várias peças de teatro, umas publicadas, por exemplo no Almanaque de Fafe e outras inéditas.
Numa dada etapa da sua vida estudantil, inicia o movimento a favor dos exames “ad hoc”, destinado a autodidatas, tendo lugar a primeira reunião num apartamento exíguo com cadeiras emprestadas de um café. Outras reuniões se seguiram no Porto, Lisboa e Coimbra, a nível nacional, fato que levou o governo Salazar a autorizar os primeiros exames de admissão às faculdades sem serem antecedidos dos currículos académicos obrigatórias.
É autora dos projetos Ceduca – Centro de Educação Ativa, modelo de escola educativa para crianças dos quatro aos doze anos. Factotum – Promoção de Arte e Artesanato, visando a divulgação dos artesãos e artífices nacionais. Neste domínio, inaugurou diversas exposições nos Hotéis de maior prestígio, Caves do Vinho do Porto, Feiras Internacionais e Certames culturais, designadamente a Mostra Internacional realizada no Cais de Vila Nova de Gaia.
Desempenhou papel de relevo, nas jornadas “Mulheres em Gestão de Projetos”, concorrendo com a ideia de uma empresa metalo-mecânica para emprego de deficientes motores ligeiros, esquema premiado em sessão levada a efeito pela União de Cooperativas do Norte.
Atualmente trabalha na biografia do Pintor Lezcano e numa obra monumental, única no género, “Bíblia Sagrada – sonetos”, a publicar brevemente e que nesta etapa, o livro “Jeremias” conta já com 1800 sonetos.

Eu, que a entrevistei em vários momentos da sua vida literária e artística, peço que me perdoem os que lerem estes “retalhos”. Tenho a consciência de que falta dizer muito ainda. Mas enfim…

Alguém


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SALMO de BUDA

Eis, ó monges, a verdade santa acerca da dor.
A dor é nascimento, a dor é a velhice, a dor é a doença, a dor é a morte, a dor é a união com o que não se ama, a dor é a separação daquilo que se ama, a dor é não alcançar o que se deseja, em suma, os outros objetos de afeição são dor.
Eis, ó monges, a verdade santa acerca da dor: é a saúde (da existência) que nos leva de renascimento em renascimento, acompanhada do prazer e da concupiscência, encontrando aqui e além a satisfação própria, a sede do prazer, a sede da existência, a sede da instabilidade.
Eis, ó monges, a verdade santa acerca da supressão da dor; é o sagrado caminho das sete fases que se chamam fé pura, linguagem pura, ação pura, meios puros de subsistência, aplicação pura, memória pura, meditação pura...


Julgo que fecho com chave de ouro este pedaço da homilia de Buda, Mestre que muito aprecio.
Deixo as suas sábias palavras para exemplo de alguém que se esforce por as seguir e, numa fração, tentar melhorar o mundo, melhorando-se a si próprio.
Obrigada a todos!