quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Mira Teresa Saraiva



? - 31-01-2010

AO SERVIÇO DE DEUS E DA CULTURA

Conheci Mira Teresa, na sua casa no Caramão da Ajuda, por intermédio de uma amiga comum que vivia no Restelo, em Lisboa.
Mira apresentou-me o seu marido, deitado num divã num pequeno cómodo perto da sala de estar. Era ali que permanecia por ser mais fácil a assistência de que ele necessitava continuamente, pois sofria de uma doença implacável.
Quem o visse, no seu leito de enfermo, macerado pela dor, sem o ter conhecido antes, como era o meu caso, jamais imaginaria que estava em presença de um poeta emérito e de um compositor musical de nobre estirpe.
As peripécias da vida não permitiram que eu voltasse a visitar aquela casa, senão passados alguns anos, mais uma vez através da nossa amiga do Restelo.
Mira Teresa estava viúva, regressada recentemente do Egipto e de Jerusalém.
Como eu permaneci na capital, após a minha digressão por uma parte da Europa, aproveitámos para nos conhecermos melhor.
Foram sempre para mim motivo de admiração e surpresa, as pessoas que dedicam a sua vida física e espiritual, à obra de Deus, à causa de Cristo, pondo ao serviço da comunidade os seus dotes congénitos.
Passámos a conviver com alguma assiduidade e nos nossos passeios e longas conversas, conheci em profundidade este casal que à vida religiosa dedicou grande parte dos seus méritos, no silêncio da sua humildade e modéstia.
Numa tarde igual a tantas outras, no paradisíaco jardim da Estrela, Mira Teresa falou longamente de seu marido, o professor e músico, José Serra Saraiva.
Filho de um casal cristão da Igreja Baptista, cedo evidenciou que nascera com atributos especiais para a música. Ingressou na Academia dos Amadores de Música, ao tempo dirigida pelo insigne compositor e maestro, Fernando Lopes Graça. O conhecimento adquirido pelos estudos revelou-o um inspirado autor musical, escrevendo a letra das suas próprias partituras.
Aos vinte anos, devido a grave problema pulmonar, é obrigado a trocar o violino pelo órgão. É nomeado organista de várias Igrejas. Todavia, não esquece o seu violino.
 A sua sensibilidade não o deixa estagnar nem reservar para si o que a sua veia artística lhe sugere. Começa a dar aulas a jovens. Mira Teresa é uma das suas alunas. O convívio frequente provocado pelas lições e pelos ensaios, leva José a descobrir em Mira Teresa uma brilhante cantora.
Apaixonam-se e casam.
A jovem mulher passa a acompanhar o marido em todos os eventos e a participar com ele, em todos os saraus e cerimónias litúrgicas.
Formam um casal perfeito, como se fossem “talhados um para o outro”. Na altura das férias ou pausas de trabalho, ambos frequentam os bailes onde, sob o calor do seu amplexo vibram os sons fascinantes das notas, das pautas e dos instrumentos que os ligaram para sempre.
“Meu marido era uma pessoa sensível, muito educado e muito amigo de ajudar o próximo”.
Não denota nenhuma ponta de orgulho nem de envaidecimento pelos aplausos que o público nunca lhes regateou.
Mira Teresa termina: “Nasceu em 17 de Junho de 1925 e faleceu em 12 de Outubro de 1999”.
Alta, magra, vestida de negro, de voz serena e franca, exime-se a referir-se a si própria. Passa ao de leve as vezes que acompanhou o esposo na qualidade de soprano lírica, notável interprete das letras e das músicas do homem que a conduziu por caminhos onde a arte imperou com o amor ao serviço de um conjunto de valores que fizeram deste casal um exemplo raro de simplicidade e nobreza.
Voltei a França.
A nossa relação continuou através de cartas onde Mira me contava da sua peregrinação pelos médicos e hospitais., na tentativa de minorar os males de um coração contaminado pela solidão e pela saudade.
 Pelo Natal, trocávamos os nossos votos de solidariedade por meio de pequenas gentilezas. Até que em Dezembro de 2010, o meu cartão de Boas-Festas não obteve resposta. Mira Teresa tinha falecido em Janeiro desse mesmo ano. Daí o seu silêncio mas não sem antes me enviar um poema do marido, lamentando não ter encontrado a música que ele compusera.
Em homenagem a estas duas figuras, tão raras nos tempos de hoje, transcrevo o poema de José Serra Saraiva:


                                100º Curso
                                Caldas da Rainha


AS MÃOS DE CRISTO

               I                  

As mãos de Cristo
Dirigem meu destino!
         Na cruz sofreu
         Quando morreu
          Por amor de mim.
Eu sei porém, que há salvação
Em ti Jesus!
Tu derramaste o teu amor
Por mim na cruz.
              As mãos de Cristo
               Dirigem meu destino.
                Na cruz sofreu
                Quando morreu
                 Por amor de mim.


                     II


As mãos de Cristo
Dirigem meu destino!
                  Ele me conduz,
                   Seguindo vou
                   Na sua luz.
Aceita pois o meu humilde
Coração
E faz brilhar em mim
Eterna salvação.
                   As mãos e Cristo
                    Dirigem meu destino!
                     Ele me conduz,
                     Seguindo vou
                     Na sua luz.


Sinto-me pequena, ínfima, ao observar esta impressionante escalada numa vida dedicada à arte e à obra de Deus, à causa de Cristo. O vazio que eles deixaram no seu percurso, entre familiares, amigos e admiradores, é impossível de descrever. Resta a esperança de que prossigam no Universo de Deus, a imagem harmoniosa e e feliz que demonstraram no seu círculo.
Termino, saudando a memória de ambos, com uma frase de Jesus Cristo, transcrita por Mateus 5:5:

                         “Bem-aventurados os humildes porque eles herdarão a terra”