terça-feira, 2 de outubro de 2012

NÓS, FILHOS DA NAÇÃO


15 de Setembro de 2012

Nas ruas de Portugal, em quarenta cidades principais, realizou-se uma manifestação de protesto, de cuja envergadura não tenho memória.

………………………………………………………………………………………….

Nos meus tempos de criança, as pessoas eram outras, a sociedade era outra. Brincava-se de uma outra maneira, tinha-se outro conteúdo moral nas relações afectivas. A casa merecia bem o ápodo de “lar” e a família constituía um círculo de sentimentos vigilantes e protectores que davam aos mais novos a certeza e a confiança de se sentirem resguardados de toda a espécie de vicissitudes.
Com as inovações tecnológicas, o progresso, as imposições da via moderna e ainda, a emancipação da mulher provocada pelas necessidades vitais do seu desejo de independência e liberdade de acesso a privilégios que anteriormente não usufruía, a situação mudou e os adultos deixaram de se preocupar com a jovem geração, delegando a educação em infantários, escolas, jogos de diversão, brinquedos científicos, computadores e Internet, com toda a gama perniciosa que os mesmos envolvem quando usados sem discrição.
Os progenitores incumbiram estes elementos de preencher as lacunas que eles próprios, pela força do quotidiano e pela ignorância e egoísmo, desprezam levianamente.
Funcionários de regras estabelecidas limitam-se a corresponder ao cargo para salvaguardar os honorários a que se julgam com direito. O que sobra é da estrita responsabilidade dos adolescentes, entregues a si mesmos e às influências exteriores e não deixa de ficar ao alcance dos mais pequenos, ansiosos por “crescer” depressa, desafiando a vida e o destino, quando não são apanhados nas armadilhas das oportunidades mais tenebrosas.
Sabemos que aparte a divulgação na imprensa, nos órgãos de comunicação social, nos meios audiovisuais, os acontecimentos transformam-se muitas vezes em motivos de especulação para a “caixa alta” do jornalista.
Sabemos que a justiça, na translúcida obscuridade dos seus bastidores, não mantem a verticalidade do fiel da balança, disfarçando direitos e deveres.
Infelizmente, todos sabemos que o problema se apaga com a vítima.
Num país onde nada está em ordem, desde a saúde, o ensino, a função pública, o emprego, regressamos sempre ao ponto primordial: produção. Um país sem produção não se tem de pé. Não é de estranhar o estado social de certos núcleos familiares, “no limiar da pobreza” e “abaixo deste limiar, acompanhando os “sem-abrigo”. Depois surgem as instituições ditas de solidariedade, beneficiando elas dos donativos, num número assustador de “contas abertas” para fins altruístas que não chegam a concretizar-se.
Não foi por acaso, julgo, que há dias, recebi um telefonema de fonte fidedigna a denunciar essas fraudes
Com todo este arsenal de dificuldades baseadas numa só causa – AUSTERIDADE - persegue-nos agora a veste negra da “troika”, disfarçada de samaritana, para diminuir o défice, para erguer a economia, e obstar a uma nova crise política.
Que os partidos cheguem a não se entenderem, isso é lugar-comum onde existe coligação porque não sabem governar sozinhos.
Mas o povo votou. Certo estrato por desfastio, outro por conveniência. Agora, as consequências estão aí. Menos poder de compra, “cortes” e as lamentações dos que parecem ser obrigados ao que não desejam; à miserável compostura daqueles a quem não afectam os sacrifícios dos outros porque eles não necessitam de os fazer.
Que faltou em Portugal para que se deixasse ir abaixo?
Será que não temos consciência de que a nação só pode alicerçar a sua esperança numa juventude que trabalha, investe e produz riqueza, pressupostos que se podem gerar cá dentro, activando os recursos inexplorados, abandonados, ignorados desde a Revolução de Abril.

……………………………………………………………………………………………

O movimento popular que se gerou nas ruas portuguesas, demonstrou que o povo tem voz e tem poder para mudar. É uma luta que deve continuar por meio de todas as iniciativas, para evitar o abismo que os nossos filhos não esperavam.
Contenção não é imolação.
Se a mentalidade nacional não mudar - que esta, sim, permanece em crise - não tenhamos ilusões. O País tem o governo que merece. Nós temos os governantes que merecemos e damos impulso à corrupção, à ambição, ao desejo de poder, com desprezo pelo progresso económico-social, pela prosperidade e pela paz. Eu ia a dizer, pela independência, que me parece em terreno escorregadio.

O povo ainda se não persuadiu de como é grave a responsabilidade dos homens de Estado, os que ditam e interpretam as leis, os que anunciam promessas que nem sabem como cumprir, os que promovem campanhas de optimismo retumbante…avolumando nos secretos subúrbios das consciências sem formação, os espectros da fome, das violações, do trabalho escravo.
Que futuro para as nossas crianças, os nossos jovens que estudam, eles que são a nossa continuidade e a nossa herança?
Outras figuras como a Igreja, que se conduz neste campo como mero espectador, sem voz que desperte nem exemplo que prolifere, salvo na fé de um povo maleável que se refugia nos seus santos de altar.
Uma profunda nostalgia me invade ao recordar a minha infância, os meus dias felizes e a sorte que tive. Eu fui aquela criança para quem o trinómio: Deus, Pátria e Família tinha sentido.
Apesar de viver em ditadura.
Qual é a diferença? Regime ditatorial ou ditadura disfarçada de democracia?