terça-feira, 3 de abril de 2012

IMPOSSIVEL ERA O SONHO


No dia 8 de Abril deste ano de 2012, celebrarei mais uma Páscoa, relembrando no coração como era esta festa nos meus tempos de infância quando vivia na casa da Figueira da Foz.
Mal se ouvia o badalo do acólito, coberto com uma capa vermelha, a anunciar a chegada do sacerdote, meu pai descia os quatro lances de escada que separavam os andares e ia esperar o grande Crucifixo na soleira da porta da rua.
Eu achava toda aquela comitiva muito interessante assim como a cerimónia que se lhe seguia.
Na grande mesa de mogno da sala de jantar, minha mãe punha bolo em fatias, amêndoas e um envelope com um donativo para a Igreja Matriz, cuja fachada eu podia ver de todas as janelas dos quartos.
Ajoelhados, todos beijávamos os pés de Cristo. Meu pai não era católico mas respeitava a fé de minha mãe que fazia questão de que eu assistisse à missa todos os domingos.
Enquanto o padre molhava o hissopo e nos abençoava, os elementos da confraria, de opas lilases, recolhiam as ofertas, desejando-nos todo o bem do mundo e a paz do Senhor.

A Páscoa simboliza Ressurreição, nascer de novo. Eu interpreto este evento como o início de uma nova meta de vida, reconhecimento dos erros e profundo arrependimento. Saber perdoar, esquecer as ofensas, ter compaixão de quem prevarica, de quem é ignorante, de quem é instigado para o mal.

Com o desejo de que esta Páscoa vos cubra de benesses e sabedoria, deixo-vos o meu conto “Impossível Era o Sonho”. Faz parte do meu livro de contos “Fantasmas de Sempre”, volume composto por algumas produções inéditas e outras já publicadas.


IMPOSSÍVEL ERA O SONHO



De repente, acordei. Como é que me deixara adormecer?
Ainda estremunhada, saltei da cama, atravessei o quarto, galguei as escadas, levantei a aldraba do portão e comecei a correr.
Como pudera ter cedido ao sono? Como me esquecera assim das horas? O ar húmido da noite penetrou nos meus ossos e uma vaga sensação de frio fez-me sentir o desconforto de um calafrio. Um silêncio pesado como chumbo, enchia a atmosfera, vazia de estrelas e de luar, e desenrolava-se sobre o tapete de cascalho que me golpeava a planta dos pés. Acelerei o passo mas não demorou muito que lobrigasse no cimo de um atalho, uma mancha negra que rumorejava em surdina.
Quando atingi a multidão de homens e mulheres embuçados, descobri um vulto que, rodeado por ela, era o único que parecia tranquilo. Respirei fundo. Tinha chegado a tempo. A uma silhueta que estava de costas, puxei o manto pelo ombro:
- Que faz Ele aqui ainda? Não vos disse que o levásseis?
- Mas… - respondeu o interpelado.
- Por favor, Simão Pedro, leva-O daqui antes que seja tarde demais.
Os outros, atraídos pelo diálogo, mostraram-se indecisos
- Não percebem que Ele ainda nos faz muita falta? Que ainda temos muito que aprender com a Sua doutrina e o Seu exemplo?
- Mas como podemos… - insistiu Pedro.
- Despachem-se! Vêm aí os soldados!
Ao longe, pelo clarão dos archotes, vi brilharem os elmos e couraças do grupo de guardas incumbido de efetuar a detenção.
O alarido das vozes e o som agudo e prolongado das armas deram-me a entender que estavam próximos.
Quando me certifiquei de que Simão e os outros companheiros cercavam o Mestre, conduzindo-O para fora da clareira, avancei no restolho ao mesmo tempo que o exército desembocava da bruma terrulenta das oliveiras.
Antes que perguntassem alguma coisa, adiantei-me e proferi:
- Sou eu quem procuras.
Sem hesitar, o centurião apertou as grilhetas nos meus pulsos estendidos para ele antes que tivesse ensejo de desviar a atenção para o tumulto dos cavaleiros que procuravam abrir caminho entre a massa do povo, cujos contornos mergulhavam na pincelada escura da noite.

- Que fazes tu aqui? - ouvi perto de mim uma voz que o barulho das outras vozes disfarçava.
- Judas! Não me denunciaste! - repliquei, entre receosa e implorativa.
- Não podes mudar a história. - exclamou, desabrido - Por quem me tomas?
- Judas Iscariotis - atalhei com energia - apressa-te a receber as tuas trinta moedas e acalma a tua alma.
- Não é a mesma coisa…
- Não, não é a mesma coisa. Não há nenhuma figueira.
Uma bofetada crepitou na minha face e Judas desapareceu tão furtivo como tinha chegado. Alguém riu, escarninho. Empurrada por uma mão grosseira, continuei a andar.
O relento da noite colava a camisa no meu corpo como uma decalcomania e os cabelos empastados nas têmporas eram apelos à minha coragem. Fechei os olhos. Aos encontrões e sacudidelas, a turba dos soldados e o povo que se juntara entretanto, estugavam o passo cada vez com mais sofreguidão, erguendo-me quase ao nível dos céspedes que bordejavam o caminho.
Levantei as pálpebras quando um sopro de ar quente bafejou o meu rosto em sombreada carícia.
Vi Simão tentar dissimuladamente aproximar-se de mim enquanto alguns homens armados paravam para beber.
- É mesmo casmurro! - pensei.
Com voz velada, Simão Pedro segredou:
- Está a salvo… pelo menos, por enquanto…
Suspirei, desanuviada. O discípulo prosseguiu:
- Intercedi por ti junto Dele mas o Mestre não me respondeu.
Aquiesci com um abanar de cabeça que Simão interpretou como um aceno de despedida. Quase silhueta na chama das fogueiras, voltou-se ao meu chamamento:
- Simão, não o terás de negar três vezes!
Concentrei-me nos meus pensamentos. Ali estava eu, pagando pelos meus próprios pecados, impedindo que sacrificassem um inocente. Mais profundamente me ferira o remorso do que as vergastadas de Pilatos ou as injúrias dos judeus.
Sorri para Simão, que se infiltrava no arvoredo.
- Não terá também de cortar a orelha de Marco! - murmurei.
Atiçaram as fogueiras e a caruma estalou em ondas de calor. Um grupo de lanceiros impeliu-me por uma vereda sinuosa ao mesmo tempo que um chicote baixava abruptamente sobre os meus ombros. Por um minuto, julguei desmaiar e foi através de uma névoa subconsciente que rascunhei na menta as figuras de Anãs e Caifás. Como me pareceram grotescos nos seus éfodes de linho caro bordado com gemas preciosas!
Despertei do mórbido sonambulismo que me entorpecia os sentidos a caminho do Sinédrio onde Pilatos desenrolou uma fileira de perguntas às quais não respondi como era óbvio.
Uma delas impunha-se aos meus ouvidos: Que é a verdade? Não, ele não sabia onde estava nem o que significava. Porque Ele, o nosso Mestre era a Verdade.
Quando me trouxeram para fora e me açoitaram com o azorrague, as cordas que amarravam a minha cintura à coluna de mármore, não pareceram tão duras.
Uma estranha sensação de torpor aveludou os golpes e ensurdeceu a vozearia nos meus tímpanos, entumecidos de sons. No entanto, a minha consciência permanecia desperta e a minha alma enchia-se de um extraordinário regozijo. Eu estava ali pelas minhas transgressões e se recebia vilipêndios em público, devia-o a erros cometidos, a vícios de que não quisera abster-me. A justiça estava a ser aplicada na pessoa certa. O castigo que estavam a infligir-me não era mais do que reto, equitativo, conforme o direito.
Uma frase rouca, mais cava do que ríspida, vinda não sei de que abismo ou inferno, atravessou o meu cérebro:
- Quem imaginas tu que és? Queres tomar o lugar Dele? Aspirar à celebridade? Que espírito ingénuo o teu!
Não reagi. Apenas balbuciei:
- Este é o meu lugar…
Uma gargalhada feroz trespassou os meus tímpanos como miríades de flechas que traduziam também os gritos e insultos das gentes do exterior.
Creio que o meio adormecimento que me amolentava não era mais do que a perda de sangue que borbulhava à volta da coroa de espinhos e se desfiava em rios quentes e vermelhos, tornando-me irreconhecível.
Toda a compaixão e misericórdia divinas passaram pelo meu rosto como um vento morno, alísio, enovelado em rolos de algodão que me enxaguavam a fronte e transformavam a dor numa gigantesca pétala perfumada.
Não me lembro se caí. Não me contorno ao longo do asfalto, sobraçando um grosso madeiro, apupado pela turba multa.
Em turbilhão, os pensamentos retornaram. Era assim que estava correto. Não lera na lei mosaica que o culpado devia ser punido pelos seus delitos? Não tivera o conhecimento profundo dos deveres morais, das virtudes e dos mandamentos? Por que os infringira? Por que pusera em plano superior, os bens aparentes, as riquezas materiais, as adulações e falsas promessas, correndo atrás de ilusões que encobriam perfídias? E ia um homem impoluto, nobre e corajoso, sofrer pelo meu desvio, depois de tanto ter insistido na defesa da minha salvação? Não. Não o permitiria. A minha carne, os meus ossos subjugar-se-iam ao flagelo do arrependimento amargo por ter desbaratado tanto tempo e, se merecesse perdão, consolar-me-ia no refrigério que do Alto seria derramado sobre mim.
Neste preciso instante, a mesma casquinada cruel e sardónica me advertiu:
- E com toda essa contrição absurda esperas que os céus se rasguem para acolher o teu sacrifício! Salvas-te só a ti, porque ninguém se dará ao trabalho de se imolar e a humanidade cada vez mais se afundará no caos de um galvanizante egoísmo. Simulada modéstia, a tua!
E com um trejeito de falsete, concluiu:
- Veremos se manténs a mesma decisão e esse mesmo estoicismo mórbido, quando o carrasco te cravar os pregos nos pés e nas mãos.
Voltei à realidade ao ouvir que me chamavam com a súplica:
- Lembra-te de mim quando…
Dei por mim já erguida, pregada no tronco, suspensa por uns braços que não sentia serem os meus e por uns membros inferiores amolecidos e inertes. Uma brisa fria deslizava por entre os meus cabelos pegajosos, quase ressequidos mas, longe, eu conseguia divisar a copa das árvores fustigada pelo vento.
- És o bom ladrão, não és?
- Lembra-te de mim quando ao…
- Não sou quem tu pensas! Quis tomar o Seu lugar… Ele não aceitou.
- Por que dizes isso?
- Não sinto dor… É tudo tão irreal! Acho que misturei os sentimentos. Sinto-me confusa.
- Engraçado! Onde está o meu camarada?
- …És um dos seus discípulos?
- Não! Nenhum deles fugiu.
- Mas afinal entregaste-te, por quê?
- Achas bom e justo que um inocente morra no lugar de um pecador?
- Realmente, não. E o resto da humanidade?
- Não pensei nisso.
- Ele pensou.
- Eu não quis assumir o seu poder. - exclamei com veemência.
- Mas agiste como ser humano, com inteligência de humano, com a tua compreensão terrena…
A minha prolongada mudez inquietou-o.
- Ouviste?... Ouviste, não ouviste?
Uma indefinida e acalentadora emoção me inundou com a ideia nítida e repentina de uma madrepérola depositada no seu apropriado guarda-joias. Respondi-lhe:
- Estarás com Ele no Paraíso.
Enigmático, obtemperou:
- Quem sabe!... Olha, dar-te de beber.
Enfiada na ponta de uma lança, a esponja embebida em água e vinagre, inexplicavelmente aflorou os meus lábios e imobilizou-se, pressionando-me a fronte.

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- Tiveste um pesadelo? - ouvi - Afinal que foi que aconteceu?
Levantei-me do chão. Não tinha saído do quarto sequer. A madrugada ainda não rompera. Voltei para a cama. Enfiei-me entre os lençóis. Tapei a cabeça e chorei. Chorei amargamente. Mais amargamente do que Pedro.