terça-feira, 20 de março de 2018

Dia doPai


Quarenta e um anos passados e não me conformei ainda com a sua perda.
Onde estás, meu Amigo, meu companheiro, eloquente, tremendamente eloquente no silêncio das tuas palavras?
Duas imagens perduram na minha memória, opostas em extremo.
Nos dias da semana, um homem de fato de macaco, enodoado de óleo, boina enterrada até às orelhas e um rigoroso cumprimento da palavra empenhada, de horários, do dever, sentimentos que tive a honra de receber como herança.
Figura típica de proletário, transformava-se completamente aos domingos.
Vestia um conjunto completo de calças, casaco e colete. Completava a indumentária o Chapéu mole, a gravata e os adereços, o relógio de bolso, o alfinete de gravata e um anel com um brilhante. E, claro, a aliança.
Muitas vezes substituía o chapéu pela boina à espanhola. Acontecia quando saíamos os dois, aproveitando as manhãs de domingo. Enquanto a minha mãe fazia o almoço, passeávamos de bicicleta até à serra da Boa Viagem ou Minas do Cabo Mondego. Ou, se o tempo era curto, íamos de braço dado até à esplanada onde ele se sentava saboreando a sua limonada enquanto eu andava de bicicleta, desporto que aprendi com ele a partir dos quatro anos.
Meu pai tinha preferências muito acentuadas. O seu prato predilecto era caldeirada e não dispensava o ruivo, como a melancia era a sua fruta de eleição.
Esposo amantíssimo, brincava muito com a minha mãe e eu era feliz vendo-os, sem ser notada.
Por muito que diga, nunca direi nada sobre o meu pai, nunca direi tudo. E de cada vez que termine um texto sobre a sua vida e personalidade, um imenso vazio fica por preencher, incomensurável, como a necessidade que emerge da sua ausência.

Convite: Se sentis a felicidade de ter o vosso pai no número dos vivos, abraçai-o num amplexo que recorde para a vida inteira.