domingo, 31 de dezembro de 2017

O MEU PRESÉPIO

(pt.wikipedia.org)

Veio de geração em geração e está hoje nas minhas mãos.
Não sei em quantos Natais já foi exposto. Ele e a Árvore de Natal acompanham-me desde criança mas o Presépio tem muito maior significado, para mim, não só pela realidade ancestral que virtualiza como cultiva o espírito humanista de cada um, orientando-o para dons morais essenciais à vida individual e comunitária.
O meu Presépio é representado por mais de cinquenta peças, as indispensáveis para simbolizarem uma época tão pragmática como a do nascimento de Cristo.
Toda esta alegoria natalícia celebriza-se pela história que conta e pelo legado que deixou à humanidade, definido por valores morais que fomentariam a paz e a solidariedade entre os homens.
Este ano, mais uma vez, apregoa-se que o Natal é das crianças. A lenda, a magia, o brilho e as cores, as surpresas, os presentes. É este o Natal que lhes explicam na figura simpática de um ancião de barbas brancas que viaja de trenó e vem dos da Terra onde há neve e mistério.
Mas enquanto o Pai Natal revoluciona a indústria dos brinquedos, o significado do Presépio não desperta o coração infantil e o nascimento de um Menino que veio para ensinar o Amor, a Paz e a Bondade, dilui-se no entusiasmo das aparências.
Falo do meu presépio porque desejo contar uma bela história de Amor, resguardada pelos tempos na memória dos homens até aos dias de hoje.
Maria e José viajam de Nazaré até Belém. Ele e o seu bordão levam pela arreata o jumento em que Maria se assenta. Está grávida e extremamente cansada. O percurso é longo sem fim à vista.
Entretanto, no seu palácio, o rei Herodes recebe a visita de três reis do Oriente, que lhe falam do nascimento de um Menino especial, futuro monarca anunciado por todo o mundo. Eles próprios foram informados, naquelas terras longínquas e estavam a caminho para o homenagearem.
Herodes, inquieto, pede-lhes que, no regresso lhe tragam notícias em pormenor, para, por sua vez, honrar o recém-nascido com as suas ofertas. Em Belém, havia muito movimento. As ruas encontravam-se pejadas de forasteiros, comerciantes e muito povo que por decreto do imperador César, tinham vindo para se recensearem.
Terminado o registo, o casal dispunha-se a regressar quando Maria, alanceada pelas dores do parto, anseia um lugar para repousar. Mas as hospedarias estão lotadas e as casas particulares recusam-se a recebê-los.
Emanuel nasce num curral, aquecido por dois mansos animais e tufos de palha seca, dum branco pérola de colcha rendilhada.
À demonstração de humildade deixada por um Menino rico e poderoso, seguem-se as ofertas, os presentes, traduzidos de múltiplas espécies, oriundos de muitos lugares e entidades, uns caros outros modestos, alguns, raros, usados pela nobreza, como o ouro, o incenso e a mirra.
O meu presépio tem todas as personagens dessa época longínqua e nenhuma figura está nele por acaso. Desde o pastor ao moleiro; desde a mulher do povo, ao artífice; desde os reis magos à estrela que os orientou, tudo isto integrado num espaço onde ovelhas, cães de guarda, burros e camelos preenchem o seu lugar e os produtos da terra, cereais, abóboras, frutos da árvore, puros de aspecto, excitam o apetite.
Nada disto teria valor sem aquela pequena gruta, onde na aconchego de dois animais, em cama de palha, José e Maria contemplam o pequenino ser em quem se concentram todos os interesses do mundo, um mundo decadente. Um mundo que não aprendeu a lição de Amor e de Paz imprescindíveis na existência dos povos.
Àqueles que, mecanicamente e por força do hábito ou por qualquer outra razão instintiva, oferecem presentes natalícios mas permanecem de costas viradas com o outro, na mesma plataforma de desequilíbrio afectivo, eu desejo que a mensagem do Natal lhes ilumine o espírito e abrande o seu coração, no reconhecimento de que, vivendo em quezília, só fazem mal a si próprios. O peso de uma alma acorrentada ao conflito, não deixa que essa alma respire em liberdade e em claridade mas viva em cegueira permanente com a semente do remorso germinando no silêncio da ignorância.
A Sagrada Família não existiu por acaso mas para modelo de mexilhões de famílias que sem invocarem o exemplo de união, se desmoronam sem redenção possível
Se cada elemento do agregado só pensa em si, encerrado no seu feroz egoísmo, como juntar os destroços?