terça-feira, 6 de setembro de 2016

FÉRIAS


Desço as escadas de pedra, estreitas, escarpadas, desgastadas pelo tempo. A cada passo, rebola um calhau dos dezanove degraus que vão resistindo.
Atravesso o pátio de recreio forrado a xisto e o alpendre coberto por um telheiro. Ali, estão uma grande mesa rectangular rodeada de cadeiras, em plástico branco e uma mesa de ping-pong.
No assador e grelhador, construídos em tijolo, a um canto, estão pousadas as raquetas e as bolas.
Entro na casa pela kitchenette, equipada com todos os utensílios indispensáveis domésticos. Da pequena cozinha, passo à sala comum decorada com uma grande mesa de jantar, sofás, cadeirões, uma mesinha central, um plasma e uma lareira.
Visito a seguir os dois quartos de casal, o WC completo e o WC com duche e, por um lance de escadas em ferro, subo ao apartamento menor onde assentam quatro camas individuais.
É este o alojamento rural, antiga escola primária adaptada a turismo campestre, onde eu e alguns familiares, incluindo crianças, decidimos passar uma semana.
A solidão é absoluta.
Na vegetação selvagem, as poucas cigarras que rechinam temperam o silêncio. A brisa nocturna é tropical e os crepúsculos são anunciados por um quarto crescente nebuloso.
Os olhos distendem-se por enormes planícies de terra batida, serranias e ravinas arborizadas. O calor abafa. Mergulha-se nos rios e a pele arrepia-se com a água gelada.
A natureza é um mistério.
Encosta abaixo, arruma-se o lugarejo, com um grupo pequeno de casas, a capela, o cemitério. Os aldeões, mal o sol se põe, recolhem às suas camas. “Deitam-se com as galinhas”. Um ou outro idoso aproveita os últimos momentos do dia e refresca-se na soleira da porta.
No meio do asfalto, há sempre o mesmo cão enroscado. Vigia enquanto dorme. A sua mansidão contrasta com o som do sino ao badalar as orações vespertinas.
Não deixo de pensar no contraste existente entre esta paz paradisíaca e o inferno que se vive a quilómetros onde lavram incêndios que tudo devastam e onde a mão criminosa tem muitas capas para sua defesa.
Todos sabemos o que está por trás de tudo isto mas nada se faz. Porque se há um que tem a coragem de desmascarar não encontra nenhuma solidariedade colaborante e restringe-se ao sermão no deserto. O povo tem medo e continua a sofrer, ainda por cima, grato pelos apoios. Irónico e triste!
Desviando o olhar das labaredas e da fumarada que enegrece o horizonte, reclino-me numa esteira e contemplo o céu cor de pérola, onde apenas brilha uma estrela… talvez a da cauda da Ursa Menor.
E agradeço a Deus, ao Universo, à magia da Terra-mater que o ser humano teima em destruir, o maravilhoso dom de estar viva.