sexta-feira, 13 de março de 2015

Encontro de Caniches VII


Os famigerados sacos de plástico


Rissol esticou-se no tapete, bocejou e voltou a enroscar-se. Na realidade, estava uma tarde insípida. Lulu tinha ido ao veterinário. Filó abalara com os donos para uma estância na neve. Ah! Mas eis que chegavam os outros.
- Começaram hoje! – atirou Gigi.
- Começou, o quê? – perguntou Jimmy.
- Os sacos de plástico vão ser comprados a partir de hoje
- És uma anedota. Gigi! Os sacos já se pagavam. O preço vinha diluído no preço do produto.
Rubi esclareceu:
Agora é x por saco. Ou arranjas outra solução.
Rissol suspirou.
- Eles têm de ir buscar dinheiro nem que seja aos bolsos rotos de um mendigo.
- Com tantos problemas que o país tem por resolver… - disse Rubi.
- Mas a ideia não era acabar com a poluição no ambiente, uma vez que os sacos são difíceis de destruir?
- É, Jimmy mas agora, os cujo ditos são mais aliciantes, são substancialmente mais grossos; continuamos a divulgar a publicidade das empresas de forma gratuita; o Estado arrecada milhões…
- por via das taxas…
- o povo, porque é comodista, refila mas consente…
- e nós continuamos a contribuir para a poluição do ambiente. Fenomenal.
- Gigi, os teus juízos são um portento.
- São, não são?!
Rubi ladrou.
- Quer-me parecer que exageras. Os homens querem acabar com a crise…
- Mas sem dar a mão à palmatória, sem experimentar a austeridade porque em quem ganha muito, os cortes não são significativos.
Rissol calou-se, cansado mas Jimmy proferiu, enfático:
- Lembraste-me uma frase que ouvi não sei onde.
- Qual?
- Os pobres não têm quase nada para os ricos terem quase tudo.
- Com a fortuna! Mas é que é mesmo. Afinal é a classe pobre que sustenta a classe rica. São os sacrifícios exigidos aos pobres que salvarão a conjuntura económica.
- Salvarão ou não. Quando menos se espera, descobre-se. Ou é uma fuga ao fisco ou uma lavagem de dinheiro ou um branqueamento de capitais…
- Mas esses negócios obscuros só demonstram que a nossa pátria pariu grandes inteligências de quem a História não terá francas reminiscências mas com quem as redes sociais ganharão fartas audiências.
- Deixa a ironia, Rubi.- repreendeu Rissol.
- Irónico, irónico, é atirarem os sem abrigo para os “abrigos” dos metro e outros em tempo de frio intenso.
- Não foi genial a ideia? Deviam era acabar com essa vergonha. Toda a gente, mesmo aquela sem recursos, merece uma vida de qualidade e dignidade.- sentenciou Rubi.
- Sabem que mais? Não adianta barafustar. Cão que ladra, não morde.
- Até me ofendes! - Consegues fazer as duas coisas ao mesmo tempo?
A esta máxima de Gigi, todos se enovelaram para dormir. Mas Rubi, de olho aberto e focinho apoiado na pata, ainda comentou:
- Enquanto nós dizemos: “porca miséria”, os do poleiro gozam “la dolce vita”.
Rissol, a despedir-se, ainda alvitrou:
- Afinal, a medida é para reduzir o consumo de sacos ou temos de pagar para poluir o ambiente?