sexta-feira, 25 de abril de 2014

Epopeia Vermelha


25 de Abril.
Quem o viveu, ou não existe já ou está próximo do fim, reservando para si o seu açafate de saudades.
Quem viveu um tempo de ditadura e experimentou a democracia, deve ter arrepiado caminho no âmbito das suas esperanças, pois acabava de sair de um sistema rígido, fechado, onde nem sequer havia margem para a liberdade de pensamento. Não podia haver nada que se dissociasse do regime, que fosse contra o poder do Estado, contra a vontade fascista. Mas se por um lado, a desigualdade de classes era de extremos, e muita população sofresse pobreza e menos regalias, comparando com a era atual, fala-se de miséria, de baixos níveis de pobreza, de famílias com fome, de desemprego e de suicídios, como solução destas discrepâncias numa sociedade limitada pelo medo de falar alto, procurar a liberdade pela clandestinidade, de gerar movimentos pelos panfletos “underground” e sofrer as consequências da sua rebelião através da tortura e do presídio ou exílio.
Mas não se via uma casca de fruta na rua; não se ouvia um palavrão em voz alta, respeitavam-se os idosos; protegiam-se os recursos naturais da paisagem e dos bens essenciais; as punições para os infratores servia-lhes de lição.
Hoje, a democracia vestiu bibe de criança malcriada e a liberdade corresponde a vícios e consumos proibitivos, ao desprezo pela vida dos outros, a abusos execráveis, à criminalidade desenfreada, a sentenças judiciais sem um mínimo de justiça.
A democracia, sendo governo do povo, é representada pelos partidos que deviam defender os interesses do povo. Assistimos no Parlamento, a que cada deputado manifesta regozijo em ouvir a sua própria voz, pois assuntos de vital importância permanecem nos portfólios.
O que nos resta do 25 de Abril de 1974? O feriado.
A imagem dos cravos vermelhos em cima dos carros de combate, das “lagartas” e na lapela das fardas dos homens das Forças Armadas, alguns deles esquecidos no anonimato.
O 25 de Abril de 1974 está murchando na memória dos veteranos. Um novo 25 de Abril se impõe para rejuvenescer Portugal nos caminhos da liberdade, progresso e abundância, independente e livre sem lugar para os corruptos… que deviam ser penalizados com os “cortes” que estão sofrendo os mais pobres.
É intolerante que não busquem nos grandes rios, o que as pequenas fontes já esgotaram.
Mas eu persisto em pensar:
“Cada um tem o governo que merece”.
Os que disso se capacitam, galgam fronteiras na perspetiva de vencer e serem reconhecidos os seus méritos.
Vão-se os talentos. Ficam os velhos. Decrépitos, espoliados de recursos e de afetos, guardam o seu calendário de emoções e esperam aquela que, no dizer de alguém, nunca se farta.