quarta-feira, 19 de março de 2014

O BATIZADO


Conto dedicado ao Dia do Pai, homenageando um Pai excecional: o meu.
                                                            
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Naquela manhã de domingo, ainda de cores mal definidas, levantámo-nos ao som da gabarolice do nosso pintassilgo e tomámos o pequeno  almoço. Sorridentes e joviais, despedimo-nos da mãe, nada convencida do êxito da nossa decisão e partimos em direção à aldeia, distante da cidade uma légua.
Na véspera, eu e o pai tínhamos decidido dispensar o comboio e ir a pé, aproveitando o ar esplêndido da natureza.
- Nem pensem numa coisa dessas! -contrapusera a mãe. - Vão chegar estafados e cheios de pó. Isto… se chegarem, se não se enfadarem e voltarem para trás. Nem quero imaginar como vão ficar esses fatos.
Iniciámos o percurso da estrada, ladeada de choupos cujas raízes mergulhavam em córregos de água que espreitava entre tufos de relva.
Sentíamo-nos livres como pássaros, no meio de uma atmosfera que parecia só nossa. Eu saltava, corria, abria os braços, gritava com delírio. O pai, mais comedido e meticuloso, apalpava o terreno, ponderava os passos, não fosse enfiar os sapatos cuidadosamente engraxados, numa curva barrenta ou declive inesperado.
O ruído de um carro de bois aproximou-se e o homem que o conduzia saudou-nos.
- Falta muito para chegar à freguesia de…? - perguntou o pai, certo da resposta.
 Com expressão séria, o interpelado coçou a cabeça e respondeu:
- EH!  Fuh”! Ainda têm muito que dar à perna.
- Mas vai-se por aqui, não vai?
Vai-se, vai-se! Não há outro caminho! Eu dava-vos boleia mas vou ficar aí adiante!
- Não se incomode. Vamos bem…
O homem casquinou uma gargalhada.
- Não me incomodo, não sou eu que vos carrego!... Boa viagem!
Desapareceu num atalho. Quando o sol apareceu no contorno das colinas, a manhã começou a despontar.
Eu vestia uma roupa muito fina, de saia rodada e gola de renda, ao gosto da época. O meu pai começando a sentir os primeiros efeitos do calor, desatou a gravata e enrolou-a na algibeira do casaco. Envergava um fato completo, com colete de seda. Ambos estávamos preparados para uma solenidade e não para uma digressão desportiva.
Nenhum de nós pensou no estado lastimoso em que as nossas vestes se iriam tornar e de que já davam indícios. Muito impróprios para uma cerimónia religiosa ou para um banquete festivo, onde estaria representada a “fina flor” dos camponeses e lavradores daquele rincão, de que os avós eram bastiões, pois empregavam muita gente nos campos e a cuidar do gado.
De repente, imobilizei-me. Desejei ardentemente um “toilete”. Em tais circunstâncias, o tronco de uma árvore serve para nos esconder.
- E papel?
Perante o meu desconforto, o pai riu-se.
- Pega uma folha da árvore!
- E se vem alguém?
- É capaz de vir um regimento.
Conforme pude, libertei-me daquela aflição, consciente de que, em casa da tia, encontraria água e sabão.
Estaríamos a andar há umas boas duas horas, o caminho começou a estreitar e o escasso arvoredo que o sombreava, deu lugar a extensos arrozais que pareciam não ter limite.
Ao longe, lobrigava-se um casario de telhados cinzentos e um esbranquiçado campanário, destacando-se na serrania.
- Será aquela já?
- Não sei, não! Parece que anda para trás, à medida que avançamos.
- Isso é ilusão de ótica. Só queria saber se é aquela.
- Vem, paizinho! Está ali uma casa amarela. Informam-nos, de certeza.
Nem sequer cão tinha. Guardava alfaias e estava abarrotada de palha.
De súbito, o pai reparou na ponte que atravessava um dos campos de arroz que terminava num aglomerado de ramagens.
- É a ponte da linha férrea. Se seguirmos por baixo, na sua direção, vamos ter a um apeadeiro.
- E apanhamos um regional?
- Ou sim ou não…
- Não vamos ser pontuais ao batizado…
- Não começam sem ti. És a madrinha!
- Só quero é chegar a tempo de me lavar e endireitar estas roupas. Já viste o estado em que estamos?... Que horas serão?
- Ainda falta muito para o meio-dia!
- Ao meio-dia chega o padre!
- Bem… afoitou-se o meu progenitor. – Vamos seguir a ponte?
- E se nos perdermos?
- Olha! O comboio vem aí, não vem?
Uma composição de mercadorias deslizou pelos rails e estacou, interrompendo a marcha.
- Que se passa?!
- Olha, viu-nos e ficou à nossa espera!
- É! E puxa-nos por um guindaste.
Ao fim de alguns minutos os vagões retomaram o trajeto e o meu coração deixou de acelerar
- Vamos experimentar, paizinho?
- Não temos alternativa.
- Mas vamos ficar todos molhados!
- Com este calor… enxugamos depressa!... Olha!
O “rápido” passou sobre as nossas cabeças. Uma vaga esperança nos animou. Entre o silêncio e o rechinar de um ou outro inseto, aquele sinal de vida decidiu-nos a descer aos vastos terrenos alagados onde mal se descortinavam pedaços secos de terra para colocar as plantas dos pés.
As peripécias começaram de imediato. Com prodígios de equilíbrio, saltávamos de torrão em torrão, na sua maioria lamacentos, encobertos por tufos que eram albergue de mosquitos. Lençóis de água a perder de vista, salpicados por raios de sol coruscante que incidia sobre as nossas pálpebras, obrigando-as a fecharem-se.
Num momento, o pai desequilibrou-se e caiu no lodaçal. Gritei mas ele depressa se ergueu, barafustando. A água dava-lhe pelas tíbias. Olho em redor.
- Não se vê um carreiro seco. Será sempre assim até ao extremo?
Desatei a rir, não sei se de nervosismo se de hilaridade pela figura descuidada que estava na minha frente. Meu pai tinha arregaçado as calças até aos joelhos e desapertado os botões da camisa depois de pôr o casaco ao ombro.
O pavor invadiu-me ao certificar-me de que fosse para a frente ou recuasse com o objetivo de alcançar qualquer das margens para me sentir em segurança, seria tarefa que me exigiria um esforço inaudito, se quisesse impedir um mergulho de não sei quantos metros de profundidade, pois o terreno era muito irregular.
As lágrimas assomaram ao canto dos olhos e prestes secaram ao ouvir um grito na marginal de onde tínhamos vindo.
As quedas e escorregadelas sucederam-se, pois mal nos equilibrávamos, os montículos desfaziam-se e escorregávamos até à água, coberta de uma espuma aquosa, esverdeada, uma espécie de limo assaz viscoso para que se soltasse às nossas sacudidelas.
Outro comboio desfilou, apitando, triunfante.
Sujos, fatigados, esfomeados, nem forças havia para o sentido de humor que o pai sempre tinha.
Na faixa estreita que circundava aquela enorme planície alagada, uma mulher apareceu, vinda não se sabe de onde, acompanhada de um rafeiro que ladrava sem cessar.
- A mulher está a dizer para sairmos daqui.
- Boa… Pode vir ajudar-nos? - gritei.
Pela gesticulação, significou que devíamos regressar ao ponto onde ela estava e ouvi-la, simplesmente.
Após alguma hesitação, com extrema cautela, conseguimos mostrar à criatura o estado caótico em que nos tinha posto o desejo de encurtar o passeio, seguindo a ponte por onde só transitavam veículos do Caminho de Ferro.
- Para onde os senhores querem ir? – perguntou  ela, meio séria.
- Para a aldeia de…
- Ainda têm umas duas horas pela frente… O cão não morde. Quieto!
- Cheira-lhe a família. Eu também tenho uma cadelinha!
Vamos para um batizado. Esperamos chegar a tempo.
- A que horas marcou o senhor padre?
- Meio-dia!... Saímos de casa às seis da manhã…. São…
Ao impulso de tirar o relógio de bolso, o pai exclamou:
- O relógio… Perdi o relógio. Deve ter caído na água.
A mulher levantou a face para a superfície azul, sem nuvens, que o sol absorvia e replicou:
- Meio-dia está quase… Mais uma horita a estugar a passada… Não tem nada que enganar. Seguem sempre em frente e ao chegar ao apeadeiro é só subir a ladeira. Não saiam é deste carreiro que divide os arrozais.
- Vamos andar à volta!
- Pois!...
Quase secos mas imundos, depois de um tempo que nos pareceu interminável, chegámos ao local onde paravam os suburbanos. Aí nos esperava a carroça de um dos tios, puxada por dois fogosos cavalos.