sábado, 13 de julho de 2013

Reflexão XIII


Bendito o varão que confia no Senhor.
Ele é como a árvore plantada junto às águas e estende as suas raízes para o ribeiro e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde e no ano da sequidão não se afadiga nem deixa de dar fruto. (Jeremias)

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Uma das coisas más que nos desequilibra e amarfanha é a dúvida.
Recearmos acreditar em alguém que não nos inspira confiança e desejamos que a relação se espraie como um livro aberto e se respeitem as confidências.
Se não temos em quem confiar ou atraiçoam a nossa confiança, o desalento é uma alfinetada na nossa ingenuidade.
 Ninguém é perfeito. As exceções são como agulha em palheiro e, em certas circunstâncias, tudo se desmorona.
Quando a confiança é traída, o veneno destila na alma e a dor não cicatriza com facilidade.
O homem devia desculpar as fraquezas do seu semelhante. As pessoas são frágeis, possuídas por atos e palavras que melhor fora para elas, nunca as terem pronunciado, nunca os terem praticado.
O ser humano precisa de confiar em algo ou alguém para se sentir protegido e ter força para defrontar o dia a dia com todas as suas surpresas.
Não é doutro ser igual a ele, sofrendo os mesmos defeitos e debilidades que irá esperar o benefício de uma solução sólida e oportuna, suscetível de lhe trazer paz e felicidade espiritual.
Eu não duvido que há um Deus que nos governa. Não duvido que quanto mais confio na sua presença no meu espírito mais me fortaleço na confiança que deposito no seu poder…que tanto pode castigar como abençoar.
Se os nossos desejos e anseios são coroados de êxito, agradecer a Deus é o mínimo que nos eleva à virtude da gratidão.
Todavia, frequente é assistir a autênticos desesperos de fé. “Que mal fiz a Deus para que isto me aconteça”?
Se entregarmos à sua égide e proteção, a nossa existência de cobardes e recalcitrantes, os factos vão correr de feição, quanto mais não seja para um aprendizado mais lúcido e intuitivo. A nossa acuidade melhora.
Quantas vezes rogamos a Deus preces que nos prejudicam, pois não temos o dom de saber o que é melhor para nós ou para os outros.
Por isso, colocar na mão de Deus o nosso quotidiano, seguindo os seus ensinamentos, “fazendo concerto com ele”, é usar de inteligência e preservar a nossa personalidade.
Podeis não acreditar mas eu, sem Deus, sou um zero no planeta, Caminhando à deriva. O nosso discernimento é bloqueado e, se nos deixamos influenciar, os resultados podem não ser os ideais.
Confiar em Deus, é desenvolver confiança em nós próprios.
Eu confio no Senhor e sinto-me bem. Se me sinto bem porque me sinto abençoada, não tenho motivos para duvidar. Por vezes, a ajuda divina, segundo o meu conceito, parece tardar mas raramente deixa de se manifestar.
Nos casos em que Deus “não me ouviu”, concluí mais tarde, que foi feito o melhor para toda a situação em geral; percebi, aliás, uma mensagem de redenção e salvação, sempre percetível se estivermos atentos.
Também é mister reconhecer quando Deus “escreve direito por linhas tortas”.Ele é tão visível como um farol na noite escura.
Quanto mais meditamos nos acontecimentos, mais aprendemos a causa e o efeito; mais compaixão temos por aqueles que vivem apenas em função do materialismo. Mais empedernidos e entupidos ficam, despoletando conselhos sem sequer confiarem no que dizem, ofuscados pela própria imagem mundana.
Tenho uma amiga, idosa, divorciada de um militar de patente. Vive só. Passeia só. Toma as decisões sem companhia, apesar de ser uma excelente ouvinte.
Um dia, perguntei-lhe se não se sentia muito só, em certos eventos, principalmente quando as famílias se reúnem.
- Nunca, nunca me sinto só. Deus não me deixa. Está sempre comigo
E contou-me um dos casos.
Fora numa excursão ao Gerês. Ao chegar a uma plataforma da serra, clareira frondosa, rodeada pelas ribanceiras, pediu ao motorista que a deixasse ali, pois já conhecia o resto da paisagem. Quando descessem, a apanhariam de novo.
No silêncio e no isolamento, escutando um ou outro pardalito e inebriando-se com o ar puro dos eucaliptos e os raios de sol filtrados pela ramagem, reparou, não longe de si, num lobo bravio que a olhava fixamente com os seus belos olhos convidativos.
- Pareceu-me convidar-me a ser sua amiga.
Por largos momentos nos detivemos, a sua pupila na minha, numa imobilidade serena. Uma paz infinita me invadiu.
- Não teve medo?
- Não.
- E depois?
- Depois foi-se embora tal como veio. Talvez com um pouco mais de afeto no coração. A minha amiga é uma pessoa tranquila, de voz meiga mas dotada de uma força e generosidade invulgares.
As pessoas que confiam em Deus são especiais; respiram a essência das virtudes elementares que as tornam diferentes da vulgaridade.
Como ela, muitas outras pessoas são paradigma das palavras do profeta:


                           … a folha fica verde e não deixa de dar fruto

venha o calor ou a seca, que o mesmo é dizer: sejam quais forem os ventos do meu infortúnio, não fraquejarei, porque o Senhor me dará a vitória através da minha segurança nele.