domingo, 7 de julho de 2013

BALADA NA SOMBRA



Amigo,
na tua casa, a minha imagem
não perdura.
Não me sentei na tua cadeira,
não me deitei na tua cama
nem abri a gaveta do teu armário.
Não reclinei a cabeça na tua almofada.
Do teu copo não me deste água.
Não preparei refeições para ti.
Na tua casa, a minha imagem não entrou,
talvez nem no teu coração…nunca.


Não lavei a tua camisa
nem vinquei as tuas calças.
Em tua casa,
não me sentei ao teu colo
nem vi televisão contigo.
Não desci de mão dada ao teu jardim,
não fiz festas ao cão
nem ao gato.
Não te ofereci flores, não pus
a tua mesa
nem acendi os candelabros.
Não me pendurei ao teu pescoço,
saudando a tua chegada.


Amigo,
em tua casa, não fiz amor contigo
nem esperei pela manhã
para te acordar.
Não parti todos os dias ao anoitecer
com a presença da oferta
e da procura.
Não vi o céu no meu horizonte
nem os pardais cantaram
no meu arvoredo.


Amigo,
pela tua casa, a minha imagem
não esvoaça,
vestida em sedas
e cetim.
Não te espero à entrada, não adormeço
sob a tua carícia.
Não gravo a minha voz para a cassete,
confessando os segredos do meu pudor.


Ai, amigo,
para ambos a noite vem.
Não te direi como o amor é belo
em cada madrugada.
A minha imagem
não teve abrigo e não perdura.
Não gozará o teu sono da minha vigília
nem na tua doença, serei sentinela.

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Porque no meu coração
há um santuário de ouro
mas nele não cabem
ídolos de barro.