segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Eu Sou Eu e as Minhas Circunstâncias


Segunda Parte

F.L. - As pessoas esqueceram-se de amar, amar as coisas, a terra, a areia, as pedras, as rochas, as grutas, a erva, as plantas, as árvores, o bosque. Amar desde o átomo até ao cosmos, desde a célula até ao ser humano. A raça humana tem ainda que evoluir muito. Hoje, sente-se desgraçada porque se esqueceu da ternura, do poema, da amizade, de pensar, de criar, de rir, de viver. A existência tem dias de sol e dias de tormenta. O que conta para sobreviver é o amor a tudo o que te rodeia, desde a pedra à flor, desde o pó ao planeta. A dor, há que a esquecer. As injustiças também. O que conta é dar um sentido à própria vida. Ser capaz de contemplar sentado um terramoto.

A.T. - Coisa a que assististe já por várias vezes. Bem, eu não serei tão imperturbável assim.

F.L. - Não é petulância. A imperturbabilidade é só aparência. Não sei como explicar-to. Essa atitude é uma espécie de consciência cósmica que me faz ver as coisas de outra maneira e que, às vezes, não me facilita viver com as outras pessoas sem provocar reações negativas, opostas às minhas verdadeiras intenções.

A.T. – Mas na vida, ou se perde ou se ganha.

F.L. - Perder ou ganhar são conceitos que eliminei de mim há muito tempo. Prefiro realizar coisas. Arrancar sem pressas como o caracol, sempre seguro do local onde quer chegar, capaz de deslizar pelo fio de uma navalha sem que a si próprio cause dano. Mas se perco tudo, sou sempre capaz de recomeçar do zero.

A.T. - Essa paciência deve trazer-te alguma felicidade, suponho.

F.L. – Sou feliz porque posso contar em cada dia com um céu estrelado e fantásticos jogos de luzes de cada vez que o sol se vai ou vem.

A.T. – Não te queixas da vida, então.

F.L. – Não me queixo da vida, não tenho esse direito. Queixar-me, seria egoísta. A minha existência é uma combinação de Aladino, Ulisses, Sindbad, ressalvando as distâncias. Se tivesse que voltar a vivê-la, partindo do princípio, faria por que todos os meus dissabores fossem, mais tarde ou mais cedo, compensados de uma forma ou de outra.

A.T. - Que pensas do conceito de lunático?

F.L. - Chamam-me lunático?

A. T. - Também me chamam a mim.

F.L. - É formidável. Enquanto a massa te reconhece como lunática, ganhas a liberdade de dizer o que queiras.

A.T. - Não te parece que o homem será sempre um condenado? Por não ser permitido à sua inteligência um vislumbre sequer da resposta que procura?

F.L. - Não creio que o homem se sinta condenado. Alguns poucos homens talvez possam sentir-se condenados. Mas outros sentem-se vivos na sua busca pela verdade ou vivendo a sua. A mim me parece sempre o cúmulo da pretensão crermo-nos capazes de compreender, através de um intelecto infantil e de um cérebro que funciona parcialmente, a integridade do cosmos nas suas polidimensões infinitas. Como poderemos pretender o abstrato com a nossa perceção relativo-subjetiva? O cosmos é como um diamante cujas facetas são infinitas. O ser humano com as suas limitações, só pode perceber algumas delas, intuir outras. Talvez o resto se nos torne visível com outra perceção diferente. Mais para além da morte?

A.T. - Mas tu não acreditas na morte…

F.L. - Acredito que as nossas energias se transformem para sobreviver de outra maneira e contribuir para a existência do cosmos.

A.T. - Não sei não, Francisco, se terias lugar no seio das academias institucionalmente conservadoras. És um género novo, investigador de uma nova antropologia.

F.L. - Cada coisa é um centro. Cada coisa é o centro de nada e o centro de tudo. É centro e periferia. Eu sou, por minha vez, centro, círculo, raio, diâmetro, princípio e fim. Nós somos, estamos todos em todos; o abstrato e o relativo, o objetivo e o subjetivo. Para se conseguir a harmonia em si mesmo, é necessário, no momento certo, ter consciência do “eu” e recordar em seguida o “nós”.
Enfim, por isto, tenho consciência de não dizer nada de novo, de ser sempre simplesmente um eco, inclusive quando manifesto os meus pensamentos mais íntimos, mais profundos.

A.T. - Sabemos que ao longo dos séculos e desde tempos imemoriais, os homens sempre se digladiaram. Em que credo politico ou estrato social colocas a probabilidade de uma nova esperança, de uma nova afetação ao amor universal?

F.L. - Toda a forma politica ou social é um remendo se se baseia no progresso (?) económico e no bem-estar material. A minha esperança está nessa juventude universal, subterrânea ainda, que renasce em uma era “verseau”. Todos os políticos nos propõem transformar-nos em enormes formigueiros, em colmeias, em imensos rebanhos de carneiros bem alimentados. Nada disso nos dará o verdadeiro progresso e a verdadeira felicidade.

A.T. - Esteja onde estiver, no âmbito do “raio”, “diâmetro”, “perímetro”, “objetivo” ou “subjetivo”, o espaço do homem será sempre vazio. Como poderá alguma vez, identificar os seus anseios, consentir que os solucionem a fim de reabilitar esse espaço vazio e com isso, se reabilitar?

F.L. - A história já no-lo disse. Se a sociedade da cultura do espírito onde a criatividade sem finalidade de lucro se manifeste; onde o sonho não materialista possa manifestar-se, realizar-se. Só uma sociedade onde a ternura seja considerada uma força será positiva… De contrário, o planeta Terra continuará produzindo idiotas quer se vistam de camisa branca e gravata, quer usem crista de “punk”.


Em 1966, fiz a primeira entrevista a Francisco Lezcano, submetida ao tema “Pacifismo 1960”, época em que o Artista, de 26 anos, aderia aos movimentos pela Paz, contra a guerra nuclear.


Francisco Lezcano veio, a Portugal em 1996 para expor, como se disse anteriormente, na Faculdade de Ciências do Porto, os seus “terras” e “acrílicos”, que foram apreciados durante todo o mês de Março, por muita gente, de todas as craveiras sociais, intelectuais dos diversos ramos do Saber, estudantes, universitários, alunos das escolas do ensino básico, secundário e primário. Seguida de uma conferência e de um discreto “cocktail”, a exposição registou ainda a visita de excursões de várias regiões do país, assim como turmas inteiras de escolas de várias áreas e cursos, agendadas para “visitas de estudo” e muitos estrangeiros.
Todos os visitantes se foram encantados pela personalidade invulgar do Pintor e da sua afabilidade de trato. Desde a abertura até ao encerramento, o diálogo constante durante os dias, foi instrutivo e gratificante para todos os que o conheceram e tiveram oportunidade de com ele conviver.


Antes, no mês de Fevereiro desse ano, a convite do agora designado, Agrupamento Vertical das Escolas Leonardo Coimbra (Filho), o Artista ministrou um curso de Arte para professores de Desenho e Educação Visual e uma semana de aulas na mesma área, após as quais finalizou com uma semana de conferências sobre os caminhos da Arte e o seu predomínio na expressividade criadora.


Entretanto, em 1999, na Academia de Arte japonesa Mokiti Okada, no Porto, teve lugar uma exposição de Francisco, integrada na exposição floral, Ikebana, que periodicamente os alunos daquela Academia levam a efeito. O Pintor não pôde estar presente por se realizar na mesma data, outra exposição sua na Finlândia.


Atualmente, expõe nas Canárias.
Proximamente, farei aqui referência ao modo curioso e único como o Artista concebe os seus próprios materiais e os afeiçoa à tela. Na qualidade de escritor, encontra-se a escrever uma novela, “Canária”, depois de uma vasta bibliografia publicada.