segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Eu Sou Eu e as Minhas Circunstâncias


Conforme anunciado, relembro uma das entrevistas que me concedeu o Pintor Francisco Lezcano, cujo aniversário ocorreu em Las Palmas, no passado dia 19 de Janeiro.

Entrevista realizada em 1988 e publicada no jornal “Notícias de Guimarães”

Primeira Parte

A.T. – Antes de abordar outras faces deste prisma diabólico que é a tua pessoa, fala-nos ainda um pouco das tuas exposições. Onde, mais? Mais representativas?

F.L. – Olha, expus, pela terceira vez na Universidade Livre de Medicina onde realizei um mural de 12x2 mts. Na Faculdade de Ciências de Montpellier, onde pronunciei uma conferência sobre as minhas investigações nas chamadas micro ondas de forma e a sua ação sobre os processos cristalográficos. Expus de novo em La Foix por ocasião da sua Festa Medieval. E penso expor em Marselha pela Federação Nacional de Clubes Amigos da Unesco da Região Mediterrânica. Armand Gatti…

A.T. – Autor de gravações radiofónicas e realizador cinematográfico…

F.L. –  …que monta neste momento, uma ópera em Viena, procura conseguir-me uma exposição no Centro Pompidou, em Paris. Como sabes, é a Meca de muitos artistas e da arte. Em Janeiro último, expus na cidade de Apt, no salão da Câmara Municipal de Turismo com o patrocínio do MARAP, Movimento Antirracista para a Amizade entre os Povos.

A.T. – Esqueces Madame de Chavannne.

F.L. – Sim, por sua intervenção, expus no castelo do marquês de Breteuille.

A.T. –

F.L. – Tem uma grande admiração por mim, pela minha obra artística e pelas minhas experiências pessoais, investigações e estudos em torno das micro-ondas de “Energia e Formas”, os fenómenos extrassensoriais, a chamada “parapsicologia”.

A.T. – Sei que tens clientes assíduos dos teus trabalhos. Na Alemanha vendeste seiscentos originais. E em Itália, o facto repetiu-se. O casal Caballero, por exemplo…

F.L. – São amigos de longa data. A minha amizade com Catherine Caballero nasceu das nossas atividades comuns no militarismo politico pacifista e ecologista,


A.T. – E em Vitry, ainda este ano…

F.L. – Participei na quinzena da pintura espanhola quando do 20º aniversário da Casa de Espanha de Vitry e Seine. Participei com sete quadros.

(Parece alheado)

A.T. – Se me permites, cito alguns deles: “Petrografia Paleontologia”, “Fósseis na Colina”, “Estratos em Vermelho do México”, “Ovo Filosofal”, “Negra”, “Amonites”, “O Peixe Fóssil”, “Movimento Ondulatório”…

F.L. - Citaste todos.

A.T. – Mas diz-me! Mineralogia, Petrografia, Paleontologia que te fascinam desde a infância…

F.L. - Em várias etapas da minha vida, fui um fanático colecionador e um apaixonado investigador de tudo isso. Não sou um especialista, evidentemente. A minha paixão pelo mundo mineral, pela história de todos os telurismos reflete-se com frequência nos meus quadros. Ainda hoje, com 54 anos, sempre que posso, desço ao fundo da terra, visito as grutas ou passeio pelo fundo desse apocalíptico livro aberto que é o fundo de um vulcão. Há quatro anos, acompanhado de meu filho Daniel, fiz uma interessante excursão ao fundo de uma cratera e filmei a vegetação sobrevivente do período terciário, que florescia no seu ventre.

A.T. - Por que não expões em galerias?

F.L. - Sou alérgico a galerias de arte. A maioria intenta explorar o artista. Prefiro expor em Casas de Jovens, Centros Culturais, Associações, Clubes ou locais agendados “ad hoc”. Para expor, prefiro fazê-lo fora do círculo das galerias tradicionais. Durante todo o tempo da exposição, eu quero estar presente, falar da minha obra, explicá-la, estabelecer diálogo com os visitantes, organizar no mesmo lugar da exposição, projeção de diapositivos e de vídeos, enfim, colocar os quadros na parede e esperar clientes compradores, não é a minha finalidade. De resto, expor só para quatro intelectuais do rincão, os “snob”, as pessoas que podem comprar… Eu quero expor um quadro humano, social e didático.

A.T. - Todavia, a admiração que sentem por ti, leva certas entidades a convidarem-te, pagando a tua estadia, cedendo as salas. Temos o caso recente da Aeroespacial Francesa que, inclusivamente, te paga os transportes.

F.L. - A admiração, como tu lhe chamas, provem da utilidade e oportunidade que encontram no meu trabalho. Quem quer entende a minha mensagem. E deseja cooperar.

A.T. - Mas admiram-te!

F.L. - Quando me dizem algo admirativo, fico com a impressão de estar “cansando o outro”. Não me vejo tão carregado de valores.

A.T. - Mas chamam-te colosso.

F.L. - Chamaste-me tu.

A.T. - O homem das mil almas.

F.L. - Ah!

A.T. - E não fui eu.

F.L. - Sou um ser humano como toda a gente. A pouca diferença está no meu esforço permanente de ser eu mesmo, estar de acordo comigo mesmo e respeitar os outros. Juro-te que o caminho é longo e as quedas frequentes.

A.T. - Da recetividade que encontras por todo o mundo, por certo, alturas há em que se tornam difíceis os contactos. Vê o que ocorre com a América Latina.

(Faz um trejeito significativo)

F.L. - Todas as dificuldades de organização, todas as barreiras administrativas e humanas, eu as conheço bem e as compreendo plenamente.

A.T. - Os governos estão doentes. Falta-lhes dinheiro.

F.L. - Muitas vezes não é a falta de dinheiro mas é a falta de modéstia e de imaginação, a enfermidade de que padecem, sem esquecer a amoralidade e a ambição materialista. Compreendo portanto o teu desalento e a tua cólera.

A.T. - Conheces o meu interesse em te trazer a Portugal e o meu desespero pelos obstáculos.

F. L. – Compreendo também toda essa atitude negativa, destrutiva, esse desejo de morte que se abate sobre quase todas as pessoas. A maioria tem medo das dificuldades, do esforço. Eu diria que tem medo de viver.

A.T. - Viver? O que é para ti, viver?


Prosseguindo a homenagem pelo aniversário do Pintor Francisco Lezcano, continuarei a divulgar o restante desta entrevista, visando agora o seu pensamento filosófico sobre a sociedade e a análise desassombrada que ele faz acerca do ser humano.
É de salientar que, decorridos quase trinta anos, os problemas continuam a ser os mesmos, os indivíduos não evoluíram e quanto a auxílios, que mantenham a dignidade de quem precisa sofrer com a desigualdade, há cada vez mais inimizades e indiferença.