sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Chegada dos Reis Magos




6 de Janeiro de 2013

Aurora Tondela


Como o Natal pertence às crianças, os festejos foram para mim durante a minha infância.
Eu acreditava em tudo com muita alegria e alvoroço.
Assim é que na véspera de Reis eu ia com o meu pai esperar os três monarcas.
Como muita gente, postávamo-nos numa extremidade da ponte que liga a Figueira da Foz ao bairro de pescadores chamado Gala e ao exterior da cidade, numa das margens do rio Mondego.
Lembro que a noite enregelava mas a minha excitação era grande.
Quando a multidão começou a mexer-se, percebi um rumor na entrada da ponte e luzes que se agitavam ocultando os vultos negros que se confundiam com a noite.
Perto de mim, pude ver os camelos e os três régios personagens, ricamente ajaezados, seguidos por uma brilhante comitiva em que predominavam os cofres ornamentados co ferragens que coruscavam.
Seguimo-los a uma certa distância, a meu pedido, que não despregava a pupila ávida, encantada com o cortejo e com todo aquele aparato.
Suas Majestades circularam pela rua principal até desaparecerem pelas traseiras de um antigo edifício, destinado a espetáculos.
Lá dentro, um espaçoso salão iluminado, repleto com uma farta e tumultuosa assistência, olhava na sua frente onde um palco fechado por um grosso reposteiro que prometia para mim, lendárias surpresas.
Fez-se de repente silêncio com as pancadas de Molière. O cenário abriu-se. Ali estava a gruta com a Sagrada Família. Depois foram passando figurantes com as suas ofertas, jograis que preenchiam os intervalos com éclogas e melopeias, tudo um pouco rústico, improvisado, até que os dois soberanos de pele oriental e o outro de cútis negra fizeram a sua aparição. Traziam ouro, incenso e mirra.
Só muito mais tarde vim a saber que este último presente simbolizava a condenação…


…”e um menino nos nasceu”…


Tinham-no anunciado os profetas…
Regozijavam-se os judeus Jesus, o Rei dos reis, o Salvador do mundo…


Belchior, Gaspar e Baltasar, voltai por outro caminho. Não digais nada a Herodes!


O Ouro

Perante vos, Senhora, eu me ajoelho.
Transporto no meu cofre, ouro e prata.
Meus olhos lançam risos em cascata;
tem meu peito um cristal, brilha de espelho.


Meu coração em rios se dilata.
Sinto-me novo nesta pele de velho.
Vejo o horizonte como um sol vermelho
desta suprema aurora que arrebata.


A vossos pés deponho o meu presente.
Nada tenho que vos conforte a mente
neste mistério que se esconde ainda.


Ao meu reino regressarei feliz.
Este milagre que eu ver sempre quis,
guarda a surpresa da Verdade infinda


O Incenso

Venho de muito longe, do Oriente.
Foi para Vós que reservei o incenso.
Parece-me, Senhor, que neste imenso
mar de contendas, estareis presente.


Mas agora dormis suavemente,
enquanto deste emaranhado e denso
mundo de provação a que pertenço,
Vos quedareis ausente e inocente.


Senhor, de Vós me aparto de mansinho.
Levo comigo a imagem deste linho
que, para sempre, em mim, fica retida.


Eis a boa nova que esperava tanto.
Quisera saudar com alto canto,
as bênçãos que trazeis, o dom da Vida.


A Mirra

Que pensais vós com esse triste olhar?
Glória a Deus nas alturas! Glória a Deus!
Que radiosa ventura aquece os céus?
E vós… que pareceis que ides chorar?


A Teus pés deposito os meus troféus.
Minha alma exulta sem poder parar.
Com muita angústia Te direi adeus.
À minha terra tenho de voltar.


De alegria, minha alma desfalece,
porque nesta hora extrema algo acontece
que ficará gravado em pergaminho.


E grandioso é o Teu destino,
mau grado o sofrimento peregrino
com que nos indicas o Caminho.