terça-feira, 1 de janeiro de 2013

2013 - Para Onde Vamos?



Crónicas do Ano Novo


2013 - Para Onde Vamos?

Aurora Tondela


Viramos mais uma folha do calendário. E o percurso de desilusões e pequenos sorrisos estabelece mais uma meta na atribulada existência humana.
Numa época continuadamente conturbada como é a nossa, não há lugar para grandes alegrias, especialmente aquelas que são oriundas de afetos alicerçados em valores que o pensamento convencionou de morais mas que absurdamente vem pervertendo.
A confusão é enorme. E no meio dela, gera-se um profundo mal-estar geral, uma sensação terrível e ignominiosa, intensificada pela persistência de factos que provocámos e a que nos associamos, gritando sem nexo.
Como bons portugueses, os atos não correspondem às palavras. Já dizia Eça de Queirós. E vozes de burro não chegam ao céu.
Como pode o homem estar satisfeito consigo próprio?
Que parcela de bom solidário motivou para os outros? Que fresta da janela abriu para clarificar as mentes obstruídas? eu mão estendeu sem que a outra soubesse?
Temos a resposta nas catástrofes universais. As que minam a natureza revoltada e as que destroem as famílias, afogando a voz da razão, vitoriando ambições de longa estirpe como afirmação potencial do seu egoísmo e da sua indiferença, da sua frieza perante as desigualdades.
Ninguém pode rejeitar a complexa nitidez da maldade humana que vem rasgando as entranhas da humanidade. Se ninguém a pode calar, esta não deve calar-se. Deve denunciar os seus lamentos e não chorar em silêncio. Deve acusar os erros atrozes que se têm vindo a cometer à luz de uma pseudo liberdade que aprisiona a liberdade do povo e duma nefasta liberalidade de conceitos que apenas beneficia os poderosos e os corruptos.
Do que resulta um ostensivo e progressivo torpor abstencionista das estruturas psíquicas que tornam os cidadãos moralmente impermeáveis e as criaturas, vítimas da ferocidade dos interesses inconfessos.
A quem podemos exigir explicações do que se vai passando pelo mundo senão a nós próprios e a cada um de nós?
Vivemos o dia a dia no corrupio incessante de cumprir obrigações que já nem chegam para conseguir um produto de trabalho que dê para comer, vestir, educar os filhos. Foi-se a margem da cultura, das diversões, dos horários justos.
Se os pais não dialogam com os filhos, também os patrões não o fazem com os seus colaboradores, equilibrando plataformas sentimentais.
Por que se não criam oportunidades para conhecimento recíproco, salvo aquele gerado pelas aparências?
Pensam então ilibar as suas responsabilidades, criticando atitudes com mais largo propósito e autoridade, sem ligações impróprias.
A democracia não acabou com as classes.
Quem prevarica tem de crescer, aprender com os seus erros. E sintam bem o vínculo da punição da sociedade que no exterior revela os mesmos anseios e peca pelos mesmos dissabores.
Mas que sociedade?
Aquela que exibe fachadas terapeutas?
Aquela que denuncia na penumbra, de forma compulsiva, o que não interessa que se saiba e se discuta?
 Aquela que sobrepõe a análise dos escrutínios às intenções e projetos apregoados? Aquela que escuta os canais de informação e suspira, penalizada? Aquela que grita nas ruas, arrastada pelas forças de choque? Aquela que despreza a natureza do seu semelhante, a sua própria e a natureza que o envolve substituindo-as pela sua desordenada comodidade? Aquela que dá ao pobre a esmola do rico como se nesse gesto queira conquistar a paz da sua consciência? Aquela que se aturde e atrofia em crenças estereotipadas, na esperança de que lhe venha pousar na palma da mão, o fruto daquilo que não semeou? Aquela que enxerta por intimidação, os caules que não conhece e se regula por entusiasmos pueris, forjados na ignorância? Aquela que afasta a cortina e perscruta o horizonte, confundindo o conforto da sua lareira com o mindo em guerra, os corpos trucidados e violentados, as calamidades da fome, da indigência, das epidemias, todo um caudal de desgraças que constituem a loucura dos séculos e destroçam a dignidade humana, esfarrapando os costumes, a inteligência e utilidade do progresso e o sentimento individual?
Por isso, se enevoa cada vez mais a visão estimulada para a conquista das verdadeiras causas, aquelas que têm como tema, a paz, a saúde e a prosperidade.

Por isso, se avolumam cada vez mais as causas perdidas, que não desprezam a ganância, o egocentrismo e a ideia corrupta.
Por isso, o medo se instala naqueles que se restringem ao passado, na perspetiva de conseguir soluções para as suas dificuldades, com base na experiência histórica.
Por isso, o presente é caótico e nos atropelamos uns aos outros
Por isso, o futuro nem se vislumbra.

Por isso, me interrogo e me perturbam o caminho e o fim que pretendemos atingir…
…se é que queremos atingir algum fim…
E isto se queremos viver e não andar no mundo por ver andar os outros.