quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Reflexão XI


Presépio

Escoa-se no movimento horário, a memória do Presépio a que associamos radiações tradicionais, imperecíveis e inalteráveis, como a branca neve das regiões nórdicas e o musgo tímido e escorregadio das montanhas transalpinas.
Guiados por uma estrela desgarrada da constelação, aproximamo-nos da gruta construída por duas pinhas gigantes, entrelaçadas e outras mais pequenas formando o interior. Outras ainda mais pequenas, frutos secos de plátano, bolotas e folhas envelhecidas, estaladiças, completam o esconderijo.
Espreitamos para dentro. Num minúsculo tronco cavado, forrado de palha, está depositada uma figura nua de recém-nascido. Ladeiam-na duas silhuetas, uma de bordão e barba, outra com um longo manto a contornar-lhe o rosto e a descer, qual rio serpeante, até desaguar na curva das sandálias. Ambos, o varão e a donzela, têm uma expressão distante, que ultrapassa todas as previsões. São talvez os únicos personagens a pressentir o mistério esboçado no sorriso indefinível daquele Menino, bafejado pelo hálito de um boi pachorrento e de um jumento; simples, dóceis, sem canga e sem cabresto.
No exterior, vislumbramos um amplo cortejo de outros figurantes que trazem seus presentes. Mulheres, muitas mulheres, com os seus cestos de ovos, as suas abóboras, o seu pão de centeio, ânforas de vinho.
Os rebanhos de ovelhas de onde o pastor destacou o seu mais precioso cordeiro e o traz deitado no lombo.
Ao longe, a cavalgada dos três Reis Magos e, mais longe ainda, o pequeno burgo de agregados familiares, com o seu forno público, a sua fonte, a sua forja e bigorna e no alto de uma improvisada colina, o palácio de Herodes servido por uma ponte de pedra.
Deixo-me invadir por um estranho sentimento de candura por estas alegorias.
Ao contemplar este Presépio, sinto insuflar-se em mim, uma infinita ternura, uma doce nostalgia. A modéstia, a simplicidade, o halo artesanal infiltram-se numa terrível mensagem prognóstica cuja noção permanece longínqua; nos momentos de recenseamento em Belém, onde os forasteiros eram muitos mas ninguém sabia o segredo.
Misturo a recordação da minha infância na recordação daquele Presépio simbólico, edificado todos os anos no hall de entrada que servia de acesso à grande sala de jantar.
Com a mesma sensação inocente de proximidade com Jesus infante, a minha alma retrocede no tempo e eu peço-lhe para vir brincar comigo antes de falarmos de coisas sérias.
Fecho os olhos. Furto-me à realidade agressiva que me rodeia e entro num círculo de um sonho magistral.
O Menino acerca-se de mim. Estende-me a mão. Corremos de pés descalços, sobre a colcha rendilhada da planície. Corremos. Quase voamos. Ele transmite-me essa sensação de leveza quase flutuante, esse calor humano de franca fraternidade, esse desapego do terreno, para o substituir por uma natureza consentânea com a sua natureza.
O riacho desliza ao nosso lado e eu tenho a percepção de que quanto mais etérea me sinto, mais reconheço a plenitude do Ser que me acompanha; mais e melhor reconheço a essência divina daquele Menino do Presépio.
Não me pergunto quem sou, porquê e como, se deixasse de existir para me transformar em algo fora de mim, anulados que estão o meu ego e o meu percurso. Que importância tinham?
Onde me leva este Menino? Onde me leva a infância deste Menino ao embalar a minha infância distante?
O Menino continua a prender a minha mão. Estamos agora sentados no cimo da encosta, perto do céu.
Vejo uma nuvem descer e ele tocar-lhe. O seu sorriso é uma carícia impenetrável. Como conseguir decifrar aquele seu dedito roliço, beliscando a ponta da nuvem?
Sinto os favores do meu Príncipe, dedicando algum tempo à sua pequena súbdita. Mas tudo tem um fim.
- Não te vás ainda, meu Senhor!- murmura o meu coração.- Fica um pouco mais!
Ele não se mexe. Continua brincando com a nuvem. Apercebo-me de um certo e mágico sabor embebido em reflexos de alegria. Sem querer, não reprimo as lágrimas. O Menino olha a minha face. Aperta-me na mão.
Parece dizer: Irei e voltarei.
Recuando aos Natais da minha infância, imagino, Senhor, o teu gesto de Menino, levando-me pela mão, na longa e adversa travessia da minha solidão.
Por isso, em cada Natal, te espero para brincar.