domingo, 23 de dezembro de 2012

MIRAGEM


(Um conto de Natal)

por Aurora Tondela


Quando a encontrei, o sol incidia sobre a sua cabeça reclinada no espaldar de um banco de jardim. Ela olhava as copas das árvores fixamente e revolvia nas mãos um pequeno objeto de porcelana.
O seu aspeto frágil mas doce e a sua expressão de espectativa magoada levaram-me a aproximar sem que as minhas botas soassem na areia.
O objeto que ela segurava entre os dedos, era uma miniatura de tamanco holandês, decorado com flores e contornado a ouro.
Ela reparou em mim, na minha curiosidade e sorriu.
- Foi ele quem mo deu. Chamava-me andarilho. - disse, indicando o que me pareceu ser para ela uma relíquia.
- Ele?
- Sim, o homem que me ama. Deu-me este sapatinho. Antes, deu-me uma borboleta. Está sempre a dar-me coisas.
- É seu namorado? Posso sentar-me?
- Sente-se, sente-se! Não somos namorados. Somos mais! Somos tudo um para o outro. Amor, amizade, carinho, compreensão… camaradagem…
- Deus meu, ainda há disso neste mundo? - pensei.
- E ele - indaguei, pegando no sapato.
- É bonito, não é? Ele prometeu-me tudo. Tudo o que de bom, uma mulher pode desejar na vida. Uma casa, ternura, ajuda-me a fazer as refeições, até cozinha para mim, pratos especiais. Vai às compras comigo. Leva-me o pequeno-almoço à cama… Não acredita? E para sublinhar as suas promessas, dá-me imensas coisas. E flore! Está sempre a dar-me flores quando passamos pelos caminhos, pelos muros das quintas. De repente, afasta-se de mim, vai ficando para trás e colhe uma flor.
- Conhece-o há muito?
- Não muito. Dois anos, se tanto. Conhecemo-nos numa festa. Os foguetes voavam sobre as nossas cabeças.
Riu-se.
- Eu tinha muito medo que caíssem em cima de mim e me magoassem.
- Por que é que tem este sapatinho na mão, hoje, aqui, consigo? Por que é que está aqui? - perguntei, devolvendo-lhe o sapato depois de o analisar.
Ela pareceu não ouvir, refugiando-se numa imagem longínqua. Afigurou-se-me tão perdida que tive pena.
- É muito bonito!... Mas… Por que é que está aqui? - repeti. - Por que é que ele não está consigo?
- Ele voltou para a família!
- Como?
Uma ideia me assaltou. Aquela mulher tinha sido vítima da sua credulidade, da sua boa-fé.
- Como é isso? - inquiri, revoltada.
- Não é o que pensa. Ele já não precisa de mim.
Sorriu de novo e colocou a sua mão na minha. Era como se eu é que precisasse de ajuda.
- Quando o conheci, era menos que um farrapo. Bebia muito. Às vezes, era tanto o grau da sua embriaguez que caía nas valetas. As pessoas passavam mas não ajudavam. Olhavam, indiferentes, outras troçavam. Eu ficava junto dele. Conduzia-o até à praia e ele dormia com a cabeça pousada no meu regaço. Eu orava. Pedia a Deus por ele, por nós. Eu sabia que era sob o efeito do álcool que ele me amava mais. Por incrível que pareça, os seus projetos idealistas, o seu ideal de amor e união, as vergastadas da vida, a incompreensão, a ingratidão, a família, as pressões, tudo se conjugava para a sua destruição. Ele era bom, íntegro, leal. Não me mentia. E, sobretudo, amava-me sem egoísmo, com idolatria, respeitando os meus sentimentos, fazendo-me crer que era alguém. E era. Era engenheiro e capitão do exército reformado compulsivamente por causa do maldito vício. É que por causa disso, tinha causado um acidente, felizmente sem consequências
A brincar, dizia algumas vezes: “És uma joia que eu encontrei no lixo.” Referia-se a este mundo…Um lixo, não é?

- E agora? - disse, impressionada, prevendo o jogo de um safado contra a ingenuidade da rapariga.
- Agora, voltou para a família! Esta noite, sonhei com a avó.
- Avó?!
- Sim, a avó dele. Ela estava encarrapitada na cabeceira da minha cama. Parecia um anjo da guarda. Sem asas, claro!
Deu uma gargalhada que ecoou como o tilintar de um cristal.
- Veja o que são os sonhos! – continuou - Eu nem sei se era sonho! Eu estava meio acordada, meio a dormir. E ela disse-me: Eles não olham a nada… Ele comparava-me a essa avó. Dizia que eu tinha o sorriso como o dela
- Sim, mas o que queria dizer…
- Com o “eles não olham a nada”? Ela sabe que ele está nas mãos deles… da família… Olhei-a, incomodada.
Não. Não estou doida! Eles têm o poder económico e o resto. Têm tudo para o manietar, para o subjugar.
- Não me diga que se ele a quisesse…-sugeri, indignada, visionando o esquema.
- Quer-me! Ama-me muito!
- Então por que espera para estar consigo? Casar, talvez?
- Eles pressionam-no, sabe? Farão tudo para o prender, não olhando a quaisquer meios, entende? Quaisquer!
O olhar dela fuzilou-me. Sustentei-o como um dardo e retorqui:
- Morte?
- A comédia da morte.
Era demais para mim. Algo escapava ao meu entendimento.
- Sabe… - murmurou, puxando-me para ela e segredando. - Não estou louca!
- Mas esse homem usou e abusou de si! Gozou-a! Você, para ele, não passou de uma aventura!
- Eu disse-lhe que ninguém me pode fazer mal. Porque será castigado. Eu fiz-lhe sempre bem. Salvei-o! Ele, agora, já não me quer! Já não lhe sou útil! Eu sabia que ia ser assim!
- E deixou?
A minha surpresa não concebia limites.
- Que fosse assim? Nada se pode contra o imponderável! Haverá uma nova queda se eu desaparecer da sua vida. Fulminante! Não estarei para o segurar de novo.
- Olhe, minha querida senhora, isso pode chamar-se altruísmo, abnegação, dedicação, entrega, amor, idolatria, o que lhe parecer melhor mas uma coisa é certa, esse homem por quem nutre tão elevados sentimentos, é tudo menos digno de si. E não passou de uma farsa toda essa odisseia madrigalesca. Eu, no seu lugar…
- No meu lugar?
O mesmo sorriso indefinível.
- No meu lugar, sacrificava-se… se o amasse! Entregava-se! Dava-lhe tudo, de confiança cega…
Não tive argumento mas ainda perguntei:
- Que pensa fazer?
Olhou-me, surpreendida.
- Casar com ele…
- Mas se ele a não quer!
Encolheu-se nos seus pensamentos e eu não lhe arrisquei palavra. Entretanto, ela retirava do interior da blusa, uma foto onde, entre figuras femininas, ressaltava um rosto másculo, sério, informal.
- São as suas amigas da Geórgia. - murmurou.
Despedi-me com um soluço na garganta. Vi nela, milhares de mulheres sofredoras, pacientes, tímidas, esquecidas de si próprias. Confrontei-a com outras, malévolas, interesseiras, déspotas, a quem eles, submetidos por cobardia, obedecem sem pestanejar.
Anos depois, tornei a cruzar-me com ela. Veio ao meu encontro, sorridente, mais linda e mais nova.
Afastou-se do companheiro, que lhe dava o braço e, em voz cantante que denunciava regozijo e felicidade, afirmou:
- Eu não lhe disse que nos casávamos?
Não me deixou abrir a boca perante a minha estupefacção.
- Não lhe disse que iríamos ser felizes? O amor é belo quando nos entregamos. Eu tive sempre confiança. Desejo-lhe o mesmo, creia. Nunca esquecerei ter-me escutado naquele dia. Vê como eu não era louca? - salientou, já a distância.
Fiquei a vê-la, de costas, radiosa, saltitante ébria de alegria, enlaçada no braço do homem que não tinha semelhança alguma com o da fotografia.
Acordei do meu espanto quando ouvi uma voz, a meu lado.
- Vamos, meu amor? Demorei-me?... Não sei como consegues adormecer com esta música tão alta!
Senti-me como se tivesse revivido de um pesadelo, como se acabasse de salvar uma vida. Cingi-me a quem me buscava, trémula, amedrontada, friorenta.
- Feliz Natal, querida!
- Ofereces-me uma flor? - sussurrei, meigamente.
Ele estendeu-me a mão.
Era um malmequer.