terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Crónicas Sobre o Natal




de Aurora Tondela


Prefácio: Inicio hoje uma série de considerandos sobre esta quadra que nos é tão querida. Tem a finalidade de manter vivo, desde 24 de Dezembro até à passagem dos Reis, o espírito natalício com as suas alegrias e os seus dramas.
Não esqueçamos, porém, que o Natal é essencialmente das crianças e para as crianças.


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Natal - Angústia

O imperativo que nos norteia quando escrevemos sobre uma época simbólica, é de molde a mostra-la sob uma faceta puramente lúcida, depois de a fazermos ressurgir duma análise conscienciosa.

O objetivo que anima o escritor a falar, por exemplo, do Natal, é, à parte a historiográfica da quadra e as solicitações do ambiente que a sugere, uma tentativa de aproximação de classes, para que a lição do Amor que o Presépio anuncia tenha razão de existir, tenha razão para repetir a sua ancestralidade de heróica esperança e de perene renovação.

Ao tocarmos no Natal, o escritor que o observa duma atmosfera mais ampla, mais imbuída de misticismo idealista, mas também mais despida de falsas realidades, não tem outro intuito que tentar com a sua advertência, uma fraternidade universal milhares de vezes apregoada, milhares de vezes recalcada e outras tantas atraiçoada, pela força do instinto cego, estúpido e desordenado dos homens.

Daí, a compreensão pueril, a sordidez do improviso, o fanatismo desregrado ou a indiferença; o divórcio total duma boa ideia votada ao ostracismo pelas causas estranhas dum dia a dia que não sabe trazer esperança.

Quando nos propomos escrever sobre o Natal, sentimos o cérebro arranhado por um estilete. Sentimos um cravo espetado no coração, pela angústia do tempo hodierno que nós sabemos trazer um desejo de paz escrito no mesmo pergaminho, puído e cansado pelas longas noites de vigília através dos séculos. Um pergaminho que os homens lêem, compungidamente, de lágrimas já secas, mas no fundo ciosos duma calma que se esvai na engrenagem do trabalho quotidiano. Calma que eles tanto apreciam e em que, talvez e apesar de tudo, se detenham a pensar, como um bem que se vai pouco a pouco escoando, tragado pelo nada, pelas horas mal vividas, pelos momentos de alegria que as circunstancias lhes oferecem, que eles não sabem aproveitar, de que eles nem sequer se apercebem.

Nós, os que escrevemos, feitos do mesmo barro que todos os mortais, sentimos agudamente que quanto mais o Natal se embriaga nas luzes e nos arrebóiss,  na musica e no bulício, mais chora sobre o mundo dos homens. O mundo que eles vão transformando em pão-nosso de cada dia sem fermento.  Em vida inteira passada a galope, saltando barreiras, caindo para se tornarem a erguer, desbravando caminhos a talhe de foice, sorvendo o suor das têmporas em cada noite de insónia, gretando por dentro, vivendo na incerteza do amanhã e no temor das suas consequências.

Cremos que já nem pensam no seu quinhão de felicidade. Estão metidos nisto até à medula. Submergiram-se sem condições e fazem parte integrante que não se sabe onde os conduz.

Que interessa aliás o futuro, quando o presente é tão tirânico, nos subjuga com tal intensidade, mal nos deixando a garantia dum raio de sol?

No entanto, o Natal, como um parêntesis, sugestivo como todos os parêntesis, não permite, pelo seu significado, que se pense em coisas destrutivas, quando em cada ano já gasto nasce a raiz duma sempre depurada primavera dos espíritos que convida a meditar e tentar de novo uma recapitulação dos actos nas suas arestas mais limadas.

Nenhum homem, por menos humano, pode abstrair-se da verdade que os sinos representam. Eles espalham a mensagem do Amor que gera prodígios, da união que faz a força, da fé que remove montanhas.
Eles convidam. É um convite incisivo e gritante. Desce pelas quebradas, infiltra-se na algidez dos crepúsculos, desliza pelas soleiras das portas até tocar o húmus de cada vulto que circula nos lares, preso ao sortilégio do Natal; preso ainda que seja apenas enquanto dura o Natal.

Mas a que convidam os sinos?

Eles convidam a que os festões galardoem todas as mesas e se dêem mesas a todos os que pisam a face da Terra. Eles convidam a que se aqueçam todos os abrigos e se dêem abrigos a todos os que não têm por tecto mais que o infinito onde os seus olhos se perdem em busca de não sei já que sagradas crenças ou duras tribulações.

Eles convidam aqueles que têm muito a possuírem um pouco menos para aqueles que têm pouco gozarem de um pouco mais. Esse muito que, distribuído equitativamente, daria um novo panorama à mentalidade do homem e talvez o estimulasse a cuidar um pouco de si, da sua cultura e das suas ambições.

Hoje, que apenas o dinheiro é o deus pagão de todos os destinos, não podemos esperar que o espírito obcecado pelas solicitações do estômago, tenha propensão para educar-se e procurar diversões mais de acordo com os princípios dos nossos moralistas. Onde há fome não pode haver moral. E quem sente, minuto a minuto, a verdade de que vive para subsistir, não pode pensar que vive para viver.

São aqueles que, pelas circunstâncias especiais do seu nascimento, não esquecem os seus irmãos, esquecendo as raças e as latitudes, os únicos que ao auscultarem o mundo circundante, sentem maior ternura pelos desprotegidos e não têm pejo de acusar os desníveis e as injustiças. Não podem, porque o panorama é cruel e o sentem embutido na carne, falar das maravilhas do Natal, como se falam às crianças.

Cada adulto, que já foi criança, sabe que cresceu muito depressa, que gostaria de voltar aos seus tempos de menino de bibe, meter os dedos no pudim, ajudar a construir o seu presépio ou a sua árvore, ir com a família à Missa do Galo, aguardar com impaciência, quase frenesim, os presentes de Natal.

Também sabe que nunca teve Natal, quando criança. Que nunca comeu coisas doces, nem teve tempo de brincar.

Também sabe que o frio racha os ossos e galvaniza as entranhas, mas que, cada um, cioso da sua batalha e da sua adversidade, não dá aos outros margem para sofrer mais do que ele. Também sabe que se estendesse a mão a todos, todos se acercariam de si, mas espera que lha estendam primeiro.

Também sabe que se usasse de compreensão lhe consentiriam os deslizes próprios dos imperfeitos e talvez até os compreendessem. Mas todos são piores do que ele.

Sabe que se trabalhasse para o bem comum, os outros o imitariam. Mas ele prefere que o bem comum trabalhe para ele.

Por isso, perante esta mísera realidade, não podemos venerar o Natal sem que uma névoa de amargura nos mareje a retina. Será talvez porque vivendo o Natal num misto de saudade pelo que se desejaria que ele fosse e de melancolia pelo que ele é, nós nos sintamos mais conscientes da desconfiança que precede todas as nossas iniciativas. Daí, a nossa angústia, a angústia do Natal, que o mesmo será dizer Natal do Amor. Desse Amor, desesperadamente, sofregamente, buscado pela humanidade.

Por isso também, não posso, não resisto a perguntar:

Que somos nós mais que loucos?

Que vivemos mais do que uma existência de loucos?


Natal - A Doce Melopeia

Tenho saudades do Natal. Do Natal do tempo dos meus avós. Tenho saudades do confortável calor da lareira, do eloquente sabor das rabanadas e das filhós. Tenho saudades da avó, sempre vestida com o seu traje de viúva, delicada e branca, da garrulice das tias, cada uma com o seu temperamento jocoso e hábitos peculiares. Tenho saudades de brincar com as fagulhas e do crepitar intenso da caruma e da missa à meia-noite na igreja da aldeia onde o padre fizera erguer um estábulo com figuras em movimento.

Na casa de meus pais nunca deixava de se armar o presépio e o musgo campestre e espontâneo era elemento indispensável à decoração assim como as miniaturas em barro.

A simplicidade crédula com que se festejava o Natal adulterou-se por completo. Tenho saudades dessa festa em família, onde cada um transmitia muito do seu passado e se rezava a ladainha de Maria, a mãe ditosa, por imposição da minha mãe, católica fervorosa. Tenho saudades da chaminé e do fogão a lenha que testemunhava a “descida do Pai Natal” com o meu saco de brinquedos e guloseimas.

Os anos passaram e o Natal passou a ser mais propriedade dos meus filhos, embora eu revivesse alguns pormenores da herança deixada pelos meus antepassados. Mas o Natal não tinha já naquele tempo, a mesma expressão valorativa para toda a gente.

Lembro-me de um dia assistir a um diálogo entre jovens. Deviam ter uns quinze, dezoito anos. O mais aguerrido comentava o seu ódio pelo Natal. Não pude deixar de estranhar e também de apurar o ouvido.

De facto, o que representa o Natal? Apenas o nascimento de um menino muito especial que trouxe ao mundo a sua mensagem de paz, de esperança e que, em defesa desses ideais, trouxe também o destino de ser sacrificado por eles?

Peter Ducker disse, numa das suas máximas, que “os sintomas mais visíveis são os menos reveladores”. É por isso que eu penso naquele sentimento infeliz de um jovem mal desperto para a vida e para quem o Natal nada comunicava, era antes o reverso do paradigma universal do Amor.

Faço-lhe justiça de considerar exacerbado o seu pensamento e angustiadas as suas intenções Por trás dessa reação existe um recalcamento gerado na falta de um ambiente familiar que lhe dê atenção e no acréscimo de situações que o empurram para a desintegração social e que são a súmula de carências extremamente imperiosas porque se prendem com os afetos, a independência económica e a sua liberdade como cidadão.
São situações de choque, a ausência de carinho, de compreensão, de apoio, da palavra certa no momento certo; situações que geram traumas profundos mas nada leva a crer que este jovem, que diz odiar o Natal, o odeie efetivamente porque, se assim fosse, desgraçados de nós, arrostando com a culpa de não saber conduzir a juventude.

O que ele sente, isso sim, é a desumana trepidação do quotidiano, a escassez de tempo para os benefícios do espírito a disparidade de bens e de regalias, os extremismos que consomem as nações, as apreciações controversas. O que ele sente são os erros, as catástrofes, as atrocidades mundiais cometidas em nome duma falsa virtude, contra a igualdade dos direitos humanos. O que ele sente é um Nata mensageiro de políticas interesseiras, de soluções sub reptícias, de discriminação e desrespeito pelos que necessitam de comer, vestir e calçar, contando os cêntimos, com destaque para os que continuam poderosos, imunes e pachorrentamente tranquilos.

O que ele odeia é o Natal celebrado alegremente no meio de uma humanidade que se destrói, quando cada dia, cada hora do ano. cada circunstância do indivíduo deveria simbolizar  a ternura, a solidariedade, a paz, a prosperidade, que o Natal renovadamente vem anunciando ao longo dos séculos, em defesa das novas gerações.

Como pode este jovem apreciar com otimismo o Natal, se em pleno século XXI vive gente abaixo do limiar da pobreza, se o futuro se desdobra negro como um abismo, se cada um procura libertar-se individualmente de becos sem saída, ignorando a união, o respeito, a normal e equilibrada distribuição da riqueza? Como pode ele gostar do Natal, se os valores morais se fragmentam cada vez mais e se quem devia dar o exemplo é o menos íntegro, o menos honesto e não olha a meios para atingir os fins?

Olhando uma árvore de Natal com os seus enfeites e luzes coloridas, uma gruta que descobre a alegoria do nascimento de um Menino misterioso, a mesa com doces e bebidas, a prata dos chocolates, o Pai Natal com o seu trenó carregado de presentes, quando, enfim, mais um fim de ano finge ostentar panoramas diversos da realidade, este jovem, céptico e desapontado, odeia, sim, os corruptos, os ambiciosos, os que fazem da dignidade humana, um jogo de cupidez e sagacidade.

Mas ele pode transportar-se para todo um contexto de beleza e harmonia e com outros jovens transformar o seu país, ser o seu espelho.

Mas como se tudo lhes é retirado?

Mas o Natal não é só uma lição de história. É, acima de tudo, uma lição de humildade., uma lição que devemos seguir retirada de um império magistral de conceitos que devem unir os homens, dentro do imperialismo egoísta e orgíaco como era o dos romanos e é agora o dos partidos que se arrogam de defensores democráticos para esconder o seu egocentrismo.

Belém foi descrita para perpetuar a paz e a justiça entre os povos, num clima de segurança e confiança recíprocas, sem diferenciação de classes.

Só assim o Natal pode fazer ressoar o seu verdadeiro timbre e significado, longe da mentira ilusória que, por uns dias, parece proclamar ao mundo que tudo está bem.

Só assim, este jovem desiludido, como muitos outros jovens, pode acreditar no Natal e viver em otimismo o seu próprio Natal.

O Natal que lhes devemos.


O Boi e o Jumento do Natal

Eu, que adoro animais, sempre tive muito apreço pelos animais do presépio, duas figuras imprescindíveis com o seu papel a desempenhar, pela sua utilidade e simpatia.

Guerra Junqueiro, num dos seus poemas sobre os bois, dizia que “eram mansos, leais, com coração de passarinhos”. O jumento, teimoso mas sempre disposto a servir, acompanhou sempre o homem desde os primórdios da sua existência, na carga e no transporte. Foi aliás, valorizado ao conduzir Jesus Cristo na sua entrada triunfal em Jerusalém, coberto de folhas de palma. Anos atrás, levou Maria para Belém a fim de, com José, se recensear e, mais tarde, na fuga para o Egito, galgou penhascos e desfiladeiros para furtar o recém-nascido à fúria de Herodes. Por que não foi utilizado um cavalo? É evidente que por razões económicas ou de linhagem. Só os muito pobres é que não possuíam animais de vulto. Por outro lado, a Sagrada Família simboliza serenidade, paz., harmonia. O cavalo era arma de guerra.

Não só por estas razões mas por outra, que me surpreende que o Papa Bento XVI escreva um livro negando a existência destas criaturas na gruta, junto à manjedoura.

Se foi invenção dos judeus, que mal tem? O Velho e o Novo Testamentos estão cheios de episódios cuja veracidade poder-se-á questionar; contudo, os símbolos perpetuam o nosso fascínio.

Não concebo um presépio sem a presença acolhedora e o bafo quente de dois animais que fizeram sempre, desde tempos imemoriais, parte integrante de um quadro amado por todos, especialmente pelas crianças.
Difícil será erguer uma gruta sem a linguagem silenciosa daqueles animais tão expressivos no seu profundo e terno olhar como se estivessem conscientes da sua missão.

O que eu lamento é que sua Santidade venha desmentir um hábito tão ancestral, sejam quais forem as fontes consultadas.

Enfim, eu julgo que há assuntos do mundo moderno e da sociedade cristã a tratar, a debater, muito mais pertinentes e urgentes do que esse, que pertence à história milenar de séculos em que o Natal se anuncia completo e se desvenda tal como deve ser encarado: uma lição de Amor.


Natal e Contraste

Tem corrido muita tinta a meu respeito. Amigos, sinto-me confundido. A minha celebridade corre mundo; mantem-se viva na memória dos homens e todos os anos sou homenageado por todas as idades com requintes de grandeza e ostentação e apenas resquícios de ternura.

Pergunto-me se é o açoite da invernia que estala nos corações e os obriga a preocuparem-se com os seus próprios desaires sem cuidarem nos dos outros e suas origens. Pergunto-me se a lareira, quando aquecem os pés e assam o toucinho ou saboreiam o primeiro cálice de vinho doce, eles pensam realmente em mim e no símbolo que eu represento ou em si próprios: nos defeitos que os acusam ou nos interesses que os norteiam.

Caturrices de velho! Que almeja ser cada ano que passa, mais fraternidade nas almas, mais comunhão dos espíritos, mais complacência humana, face às vicissitudes que a própria humanidade provoca sem se lembrarem de prover à sua insensatez desmedida.

Por que se comportam os homens tão levianamente? ´É uma pergunta que trago todo o ano no saco e para a qual, em nenhuma parte do globo, encontrei ainda resposta.

Eu gostaria, amigos, que fosseis mais delicados para com os vossos semelhantes. Cada um possui um estômago mas também pulsa nele um coração que foi no berço moldado em carinho e um cérebro que cresceu com os seus ideais igualmente audaciosos de realização. Se aplanásseis as dificuldades com o pensamento voltado para o sofrimento alheio, a existência não pareceria tão triste, tão desprovida de originalidade; tornar-se-ia mais simples para todos e os espinhos das rosas dobrar-se-iam à vossa passagem para não vos rasgarem o vestuário. As pedras encolher-se-iam nas calçadas para não vos castigarem os passos. Não se toldaria a água onde a vossa sede quisessem mitigar. Não se envenenariam as iguarias por que o vosso paladar suspirasse. Quando vos olhásseis nos olhos, não os desviaríeis com embaraço. Quando apertásseis as mãos, não as sentiríeis flácidas e desconfiadas. Quando falásseis dos vossos acontecimentos, fá-lo-íeis com desprendimento e verdade sem procurar camuflar as vossas ações.

Amigos! Vós, hoje, nesta época que decorre, não sabeis escutar, não sabeis rir, não sabeis viver. Não tendes tempo para viver! Procedeis como seres atacados de uma efervescência encolerizada e pérfida, que vos manieta o sentimento e vos transforma em títeres duma sociedade que vós próprios, inconscientemente, ajudais a construir e de que passais a fazer parte. Essa sociedade que vos rói por dentro e vos fará cair um dia, sem contemplações. Quem olhar depois o vosso rosto esverdeado e inerte, concluirá que não fostes grande coisa; não vivestes no sentido intrínseco da normalidade e da simplicidade; fizestes do vosso mundo, um caos e violentastes impunemente as exceções que, por serem tão poucas, se apagam com prudência na penumbra. Privaste-vos da pura alegria, a alegria virgem dos espaços.

Nem sequer vos sobrou a hora de gozar em plenitude, uma réstia de sol…apenas porque fostes estúpidos e incoerentes.

Talvez porque sou um velho milenário, senhor de muitos segredos e cioso das certezas que adquiri na minha viagem pelos séculos, pelo muito que observei e pelo muito que senti, posso afirmar sem receio, que a vossa ciência, ao serviço de uma humanidade melhor, conforme apregoam, vos torna breves, loucos e volúveis como meteoros.

Amigos! A vossa comédia é grosseira. E vós sois uns pobres palhaços, joguetes da vossa personalidade mal orientada, onde não cabe um mínimo de justiça, reflexão ou tolerância.

Se tendes ao vosso alcance uma inteligência que desvenda mistérios, um espírito que fomenta lodaçais, uma consciência que se exalta pela solidariedade em cada vivência que acontece, por que fazeis dessas vivências um martírio? Por que displicentemente, saltais sobre os obstáculos, fazendo por ignorar as lágrimas e a ofensa que ides deixando para trás?

Por que contornais a caridade, ignorando-a duma forma extremista e tendes na vossa agenda uma indiferença e uma maldade que vos nega a vossa qualidade de homens de bem?

O egoísmo é o vosso oráculo!

Em toda a minha digressão através dos povos, revendo posições e estudando costumes, a certeza de que enquanto fordes substituídos, enquanto for permitido à humanidade mudar os homens, há sempre esperança de ela os modificar.

É por isso que eu aprecio a morte, essa decrépita horrenda que vos atemoriza porque vos aniquila, vos recambia para o nada donde viestes mas cujo valor fará despertar novas consciências para a perspetiva de um futuro melhor.

É por isso que eu amo as crianças de uma maneira idolatrada, porque são indefesas à mercê dos adultos, atiradas para o mundo dos adultos sem a menor contemplação pela sua pequenina e inocente inexperiência; porque são íntegras quando abrem os olhos e contemplam as esferas do seu universo pela primeira vez com alegria inconsciente mas sã, tão longe das exigências dos mais crescidos, dos seus interesses mesquinhos, da sua depravada sedução. Agora, pergunto. Por que imitam as crianças, os adultos?

A esperança supera a minha caminhada porque acredito e espero na juventude, mesmo quando ela se desvia e toma atitudes que os outros não toleram nem relevam antes de procurarem saber as razões que levaram estas idades a conceber distúrbios e a remar contra a sua própria natureza.

É por isso que apesar das consequências desastrosas da maior parte daqueles que pisam este tablado, e das calamitosas conclusões com que me deparo, eu amo os velhos, embiocados nas suas desditas, curvados sob o peso das desilusões, humilhados pela novidade, feridos por chagas que nunca cicatrizaram, espezinhados pela adversidade e desprezados pelas gerações que os que se lhes seguem, esquecidos a um canto, do tempo em que foram moços, irreverentes e incompreendidos.

Não penso nem desejo que seja este o preço da vida; a cláusula permitida ao homem para respirar sete palmos de terra e sufocar sob toda uma superfície de negação quando tudo está consumado e a sua hora chegou.

Eu sei que se não deve acabrunhar o pensamento. Olhai a mesa da Consoada! Resplandece com as minhas árvores, os meus brinquedos, os meus chocolates e eu vejo os olhos radiosos dos garotos e o sorriso enfeitiçado dos seus familiares, que fizeram tudo isso por causa deles e vivem com o seu regozijo.

Eu, o velho Natal, também me iludo, me agarro a milagres, apesar das desproporções, das diferenças, porque amo a igualdade, a pureza de intenções e temo pelas consequências da ausência de tudo isso que ajuda os povos a sobreviver. Mas não posso deixar de recolher-me em meditação sobre as realidades, ansioso de poder descobrir a cura de grande parte dos males que contaminam os vossos ambientes.

Sossegai, porém! A esperança deste velho tonto e experimentado continuará a cavar raízes fundas em cada lar, ansiando com a força do desespero, pela vossa paz interior, pelo vosso mútuo entendimento, pela vossa solidariedade recíproca.

Mas como diz o antiquíssimo adágio, “aos homens de boa vontade”, a esperança trará nos braços o fruto do seu amor e só a eles, ela contemplará com certezas duradouras e palpáveis. Aos homens de boa vontade, sim.

Não haverá homens de boa vontade? Haverá ainda esperança sem desânimo?

O pouco que vos é dado, por que não o engrandeceis e o gozais?

E vós, que tendes tanto, se não fora conquistado à custa da boa fé dos outros, se não tivésseis sido fraudulentos, poderíeis partilhá-lo.

Com a vossa febre de gananciosos, não sabeis o que isso é.

A esperança, amigos. Aí fica esse grande saco pendurado nas vossas chaminés. Contem a mais bela dádiva do universo. E se fordes tolerantes, também encontrareis a bonita fórmula da fraternidade….da caridade, antes mesmo de saberdes onde aplicá-la, como aplicá-la.

Despeço-me. Até ao próximo Natal, verei em que melhorastes.

Também faço votos de que cada um dos vossos amigos ore por vós, não para dar a ilusão da vossa fragilidade mas para vos persuadir de que apesar das quedas, não estais absolutamente sozinhos.

A paz desça sobre as vossas cabeças nesta minha noite de estrelas e recolhimento.

Pensai no que vos disse.

Eu vos abençoo.


Natal do Espírito

Que sabemos nós do Natal?

Desde o remoto tempo em que se inseriu no livro sagrado das religiões o extraordinário facto do nascimento de Cristo, tão imbuído de mistério e sortilégio que, atrás dele tem sido arrastado o coração da humanidade, tinta em torrentes se tem gasto a comentar o conceito em que é tido, as coordenadas que o estruturam, a beleza de que se reveste e o significado transcendente que se lhe atribui. Mas, por muito que se escreva, se comente, se pergunte, o Natal não sai dos limites que a inteligência humana lhe impôs e tanto lhe basta. O seu objectivo, se fosse seguido integralmente, com deferência e compreensão, para além de tudo o que esta quadra inspira de festivo, feérico e teatral, creio que o fantasma da guerra seria o primeiro a ser irradiado da imaginação dos homens, antes de se tornar na realidade brutal que anula hoje a vida de criaturas indefesas, as que, ao exalarem em combate o último suspiro, nem se quer se interrogam porquê, convictos da inutilidade da resposta, e as que esperam, por cada gota de suor do seu rosto, em dias melhores que não prometeram vir.

Não sei quem possa admitir o Natal, se ele é o protótipo do antagonismo social. Nós saímos à rua e deparamos com um arraial de cores nos fundos estrelados das montras, arraial que se reflecte nas pupilas do transeunte e o apresenta a transbordar de emocionante expectativa, de entusiasmo deliberado pelos dois que irá passar no conforto da casa, rodeado da família, inebriado de presentes, brincando irradiante com os filhos, cooperando com eles, vivendo o significado mais cómodo do Natal, obliterando a imagem dos infelizes, talvez até porque nada pode fazer por eles; mas pegamos num jornal e lá vemos, num lampejo gritante, a notícia da morte dum primogénito que uma granada impiedosamente destroçou, como se o seu corpo e a sua alma fossem um trapo, joguete do destino e este uma bolinha de bilhar empurrada por mão inconsciente e pérfida.

Mas que é esse grão de areia no deserto imenso em que se confundem os cadáveres de milhares de homens anónimos que sabem apenas o valor dum estandarte pelo que ele lhes custa ao arrancar-lhes os pais, os irmãos, a noiva, a casa, a terra que os viu nascer, ou sem outra perspectiva que a de os marcar para o futuro, se têm a dita de regressar?

Mas lá vemos corpos ceifados em plena estrada pela implacável ferocidade de uma morte de acaso e estúpida. Mas lá vemos as querelas sangrentas, os crimes hediondos, a vontade animalesca de aniquilar, tão contrário ao amor pelo semelhante, ao respeito pela sua parcela de existência e pelas coisas que são sua propriedade.

Deambulando pelas artérias onde os festões coruscantes fazem da cidade uma sinfonia de tons, onde se tem o garbo e a volúpia de gastar sem contemplações no antegozo de contribuir com o seu quê de pessoal para a consoada, cruzamos ininterruptamente quando não de atropelo, com todos esses semblantes fagueiros que arremessaram para os dias seguintes a sua máscara quotidiana.

E já sem nos perguntarmos se há alegria espontânea ou se esta se forjou de encomenda para a solenidade da quadra, também, se descermos ao escuso das ruelas onde o cheiro a humidade e a penúria se infiltrou, talvez o quadro se nos apresente bem diverso: ou um doente sem remissão por falta de cuidados, ou uma boca que pede pão, não se atrevendo a pedir um brinquedo, a angústia nuns olhos dilatados pelo espanto das coisas interditas.

Sendo o Natal o pregoeiro da fraternidade universal, o bloco onde se escreveu que junto ao presépio todos são iguais, todos terão o mesmo fim e tiveram o mesmo princípio, como admitir que o desnível entre as camadas sociais seja tão flagrante? Tão vexatório para os oprimidos; tão pomposo para os bem-fadados? Questão de acaso? De derivação determinante de todos os quadrantes que, movidos por forças obscuras e indizíveis que ultrapassam o nosso entendimento, dá a uns o que retira a outros?

Seja embora um enigma perante o qual o homem se inferioriza e atacanha, porquê então a evidência ameaçadora duma desigualdade tamanha? Porquê palavras eruditas a culminar um ritual de séculos que apenas o hábito enraizou e o vulgo não compreendeu. Ou será que numa época fértil em arremetidas e matemáticas, como o está a ser a nossa, nos pode satisfazer a versão bíblica de “bem-aventurados os pobres de espírito”. Põem-nos uma pedra na mão e uma pena na outra e mandam-nos ficar quietinhos sem se nos dar a possibilidade de perguntar para que serve tal anomalia. Pois quê! Desvendar o que se achou por bem embutir de mistério é tarefa árdua; procurar analisar se não mesmo descobrir a origem e a solidez desse mistério é tirar-lhe a capacidade que possui de se rever despido de sofismas, claro e brilhante como um reflexo de sol.

Olvidem o torvelinho das ruas, a euforia das luzes, o movimento, a animação, o deleite das compras, a festa nos lares; conservem apenas a alegria simbólica dum presépio onde jaz uma criança sem nada e ansiosa de ternura e de paz, quem de entre todos testemunhará ao Natal, a simpatia que hoje, como desde sempre, lhe tributam, quem o esperará com alvoroço? O costume já nem forças teria para suportar um dia mais, igual entre todos. A austeridade dum verdadeiro julgamento entre o homem e a sua natureza, só lhe traria o enfado e o logro, o dispêndio duma energia em prol dum factor votado ao ostracismo por comodidade por negligência. Se os tempos assim o decretaram por mudar o legado dos nossos avós? E adeus Natal. Estarias consumado.

Reúnam-se os homens num exame de consciência, contritos e severos, prometendo burilar as deformações morais que os caracterizam, tal como o eremita em estado de desagravo e o Natal não terá mais a sua razão de ser. E o poder imanente do Natal deixara de ter o seu valor efectivo. Se mesmo assim, no meio da alegria e do ruído, do descongestionamento e da ficção, é mais simbólico que imediato! Se pulsa mais pelas exortações nos altares que pela compunção de quem assiste aos ofícios!

Onde a humildade dum Cristo despido entre as palhas? Simbologia pura e simples. Nem nos ambientes abastados se procura ser circunspecto, antes se dá largas à sede demais opiparamente se presentear o Natal, nem nos meios indigentes há aquela ausência tranquila dos bens terrenos, que vinculava a fonte do Divino Infante, mas uma ambição e inveja estampadas nas fisionomias dos que desejam um pouco do que os outros têm.

Que as crianças, pelo menos, se entreguem ao significado do Natal com toda a pureza deliciosa dos seus instintos, antes que a incúria e a perversão do mundo as contamine.

É tudo quanto de profundamente sólido e altamente dignificante o Natal nos pode hoje trazer.