segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

DANIEL


24 de Dezembro de 1991


Um ano capicua que anunciou felicidade.
Foi como um repicar de sinos. Nasceu e encantou toda a gente. Veio numa data especial, tinha de ter personalidade muito peculiar; tinha de ser especial.
Desde bebé que acompanho o seu crescimento, a sua evolução. Quando começou a falar fluentemente, evidenciou-se logo pelos comentários inteligentes e judiciosos com que classificava os factos. Em situações vulgares seu quotidiano infantil ou em convívio com os “mais crescidos” – assim chamava aos adultos – respondia sempre com uma daquelas frases fenomenais que impedia qualquer outra argumentação.
Não resisto a relatar alguns episódios jocosos, fruto da sua imaginação poderosa e fértil.
Sem saber equilibrar-se ainda na sanita, a mãe mantinha-se presente.

- Então, Daniel? Demora assim tanto?
Ouviu-se um “cloc”.
- Tão pequenino, Daniel? – insistiu a mãe, preocupada.
- Amanhã, chegam os pais! – respondeu, prontamente.

Num certo dia, a mãe veio com um livro de desenhos para que os pintasse.
- Pinta tu, mãe!
Tu é que deves exercitar-te para quando fores para a escola… E mesmo, mais tarde, poderes ensinar os teus filhinhos.
- Calma aí! Eu não quero filhos. Só me chateiam.

Houve uma altura em que Daniel se deteve, o queixo apoiado na mão e o cotovelo fincado na mesa.
Passando, a avó perguntou-lhe:
- Que estás a fazer?
- Estou a pensar.
Minutos decorreram e estranhando aquela imobilidade num garoto tão esfusiante e alegre, a avó voltou a perguntar:
- Ainda estás a pensar?
- Pois! Eu sou um “pensagem”…

Enquanto Daniel comia com a sua mãozita inexperiente a papa de Nestum que tanto gostava a mãe explicava-lhe as vantagens para o crescimento de um cereal como aquele.
- Vez Daniel, tem ferro! – acrescentou ela.
- O ferro não se come! – obtemperou Daniel com toda a ênfase.

Num passeio com a avó, que o levou a ver a chegada e partida dos comboios, ao regressarem, atravessando a ponte, Daniel tem um ataque de tosse.
Inquieta, a avó pergunta-lhe:
- Que tosse é essa?!
- É minha!
A mãe anotou sempre num caderninho as respostas do pequenino que, não somente desenvolveu desde muito cedo, as técnicas da fala como demonstra possuir um discernimento demasiado audacioso para tão tenra idade. Isso fazia dele uma criança encantadora.
De tal modo que recordo uma vez as suas pequenas mãozinhas segurando dois telemóveis, convicto de serem os comandos do carro. A mãe corrigiu e a criança repetiu:
- … televobem…
- Estás a trocar as letras, Daniel.
Com o polegar e o indicador, o miúdo revirou o lábio superior, dizendo:
- Isto distraiu-se, e eu não consegui dizer…
E tentou virar o lábio de dentro para fora.

Mais uma vez estava a mãe com o Daniel no quarto de banho quando ouvem o pai a entrar. O Daniel pediu à mãe que dissesse ao pai que naquele dia ele estava bem disposto. O pai respondeu algo não muito percetível. E a mãe perguntou-lhe:
- O que foi que ele disse?
- Não sei! O pai não corta a barba, eu não percebo nada!

Poderia recordar mais respostas, a sua verve pitoresca, a forma inocente e espontânea com que analisava os acontecimentos mas opto por finalizar com um episódio em que participou uma das suas tias que se queixava com sede. - Preciso de matar a sede. – desabafou ela.
- A sede não é amiga?

Com a ingenuidade dos seus três anos, analisava com evidente sagacidade, utilizando conceitos característicos da sua personalidade incomum.

Quando estudante, embora cumprisse os deveres escolares, tinha manifesta aversão pelos compêndios. Tudo quanto ouvia dos professores fixava. Tal forma de ser e de aprender causavam-lhe alguns dissabores com as pessoas que não acreditavam que tão pouco labor prático fosse suficiente para vencer o ano letivo. A verdade é que os vencia.

Hoje, Daniel é um belo rapagão, alegre e folgazão. O tempo amadureceu-o, talvez ande à frente da idade mas o seu sentido de humor prevalece, o que faz da sua companhia um ótimo elemento de conversação e de diversão. Adora andar de patins e continua apaixonado pela figura do Sonic, uma personagem da sua primeira consola de jogos.
Considera o trabalho uma “instituição” sagrada e jamais aproveita uma falta para a usar sem ser em proveito da entidade patronal, facto que lhe tem reservado os maiores encómios.
Quando olho de alto abaixo, este jovem que embalei e a quem tantas vezes mudei a fralda e se me desenha um perfil alto e forte, de barba cortada com arte e cabelo de “rabo de cavalo”, um sentimento de orgulho e gratidão me inunda quase até às lágrimas. Para as evitar – Daniel reserva a comoção para si – envolve-me num apertado abraço e o horizonte parece iluminar-se.
È que tanto ele como eu guardamos na memória e no nosso coração, as nossas “aventuras de piratas”, na gruta do Senhor da Pedra, contra imaginários inimigos que vinham do mar.
O mar, cujas ondas deslizavam até aos nossos pés e cujas ondas eram o “troar do canhão”.
A vitória” era nossa e a merenda que nos esperava, também.
Belos intervalos de vida sem preocupações.
O meu desejo é que gozes muitos momentos felizes como estes e conserves em todo o teu percurso diário, essa capacidade jovial e única que revela à discrição, a beleza e integridade do teu excelente caráter.
Muitos parabéns, Dany, meu herói!