segunda-feira, 19 de novembro de 2012

DIA DE SÃO MARTINHO


11 de Novembro de 2012

Um poema do poeta e escritor José dos Santos Marques, publicado na década de 60.

Hoje é dia de S. Martinho.
Quero sentar à minha mesa
os pequenitos pobres da minha aldeia
feia.
Quero que eles possam comer as castanhas
e beber o vinho.
- Como pode haver miséria num dia de S. Martinho?
Esta pequenita,
bonita,
franzina,
ladina,
simples,
terna,
pobre,
sentada na minha,
embora dez reis de gente
– é gente!

Também ela terá o seu S. Martinho,
também ela comerá das minhas castanhas
e beberá do meu vinho.

Faz frio, lá fora.
Mas aqui não pode haver frio.
Enquanto as crianças
estiverem nesta pobre casa,
enquanto no coração
a chama do amor
arder,
calor na minha casa
há-de sempre haver.

Santos não ligam com miséria.
Neste dia de S. Martinho,
de castanhas
e de vinho,
quero as crianças pobres
da minha aldeia
feia
sentadas aqui,
à minha mesa!

Quero que se sintam gente,
que esqueçam a vida
negra
do presente
e sonhem,
sonhem com a bondade dos homens,
vivam breves instantes de ilusão:
a fantasia é mais importante que a poesia!
Quero que encham seus peitos de amor,
Brilhem-lhe os olhos,
sintam calor,
calor nos corpos e na alma,
e possam ter hoje pão
- Hoje, que é dia de S. Martinho!

Quero à minha mesa
a garotada pobre da minha aldeia
feia,
que haja azeite na candeia
e, como sobremesa,
a uma ceia farta e cheia,
além da braseira com lenha,
a velha castanha!
E o vinho
que venha,
de mansinho,
trazer-nos um mundo diferente
onde a vida nos sorria,
haja paz, amor e alegria.


Se confrontarmos os dias de ontem com os de hoje, verificamos que apesar do progresso, de certas mudanças serem implementadas e de o consumismo se obrigar a rédea curta, nada é diferente no que respeita às situações sociais e económicas. Apenas diferem os nomes. Dantes, as crianças viviam na miséria; hoje, vivem na pobreza. Algumas, no limiar dela. Outras, abaixo, de tal forma. que não têm um pequeno almoço antes de ir para a escola.Com o estômago a dar horas, a tristeza carrega os seus olhos.
Hoje, não há meninos descalços, meninos de rua, mas há meninos de sapatos rotos, de roupas usadas, disfarçando o desemprego de seus pais e a vergonha de pertencerem a uma classe a que faltam os privilégios que outros usufruem.
Esta falsa questão, que as instituições ditas de solidariedade procuram abrandar com os “bancos alimentares e que não passam de escassas esmolas para entreter as necessidades,
tem um pedestal muito transparente. Antigamente, os pobres pediam pelas portas. Hoje, inscrevem-se nas associações de beneficência e enquanto aguardam a avaliação das suas reais possibilidades, jejuam dias a fio, ficando a dever à burocracia, o número de dramas sem solução.
Entretanto descobrem-se os corruptos, os milhões obscuros, a fraude onde seria impossível prevê-la, mercê da ingenuidade dos honestos, que não podem alimentar os filhos como deviam, enquanto os filhos da classe próspera não sonham sequer com as estratégias paternas.
Quantas crianças não comeram castanhas neste dia de S. Martinho?
Em Portugal, o mal não se previne. Remedeia-se.