domingo, 14 de outubro de 2012

REFLEXÃO IX


Pergunto a mim mesma se o individuo ateu deve ser considerado ignorante.
Nesta área, a da filosofia religiosa sim.
Um dia, confessei a um Pastor evangélico que achava que Deus era uma ideia.
Ele dissertou mas eu mal o ouvi. Uma ideia criada pelo homem. Não, não podia ser. O homem tinha criado outros deuses, ícones, ídolos, limitados e inexpressivos. O homem não podia ter inventado Deus, que era demasiado perfeito para ter saído da sua imaginação. Foi quando ouvi: Deus é o TODO.
Entre SER e ESTAR vai uma grande diferença.
Deus não está em tudo mas é ele próprio o TODO.
Nada do que é materialista tem Deus como mentor. Então o que representava este Todo. Não esperei muito. Este Todo do Pastor significava ORDEM.
A minha alma encheu-se de regozijo. Fazia sentido.
Quando penso em algo e me alegro intimamente, é como se recebesse uma mensagem e sinto avançar pelo caminho certo. Sinto também uma acentuada humildade e muitas vezes, no meu quarto, no adiantado da noite, quando todos dormem, eu não tenho pejo em me ajoelhar no tapete e curvar a cabeça até ao chão. Pode parecer ridículo mas confesso que não há nada que supere esta sensação de defesa contra os meus “inimigos”.
Nestas alturas, Deus adquire, como humana que sou, uma figura humana, forte, protectora e benévola.
Embora eu pense que o ateu, só por se envaidecer de o ser e sorrir irónico a estes sentimentos, já por isso não se permeabiliza à espiritualidade das coisas.
O ateu é materialista. Eu comparo o materialismo a uma ferida completamente purulenta. Quando se limpa da infecção, raspando o pus, o sangue brilha e recebe os elixires curativos que actuam até ficar sã, receptiva aos dons espirituais que nos permitem uma certa acuidade na reflexão, no modo de encarar os factos.
Há tempos, assisti a uma entrevista entre um literato e um missionário. Estavam frente a frente, a incredulidade sarcástica e a humildade. Nenhum deles mudou as convicções do outro. E notou-se um enorme, incomensurável vazio entre eles. Eu creio que ser ateu ou ser crente é uma predisposição de alma. O crente conquista estados psicológicos de extrema paz e em certos momentos, profundo regozijo, grande alegria. Não penso que estes estados sejam semelhantes aos que se experimentam com a obtenção de bens materiais. Subsiste um requinte na maneira como se vive esta paz, esta alegria. É como florescesse em nós um canteiro de flores e não nos dessem apenas a cheirar um ramo perfumado, que murcha ria em breve como tudo quanto é efémero e se constrói no mundo dos interesses.
A filosofia japonesa considera que tudo tem espírito.
A chamada “natureza morta” tem espírito?
Eu acho que a espiritualidade é tão abrangente, que qualquer objecto inorgânico pode beneficiar de espírito através das vibrações humanas quando o manuseia ou modela.
Mas não desejo entrar em preciosismos. Limito-me a considerar com muita lástima aquele que não crê no espírito, que o mesmo é restringir-se à matéria, ao “barro” com que foi feito. “Tu és pó e em pó te tornarás”. Para o descrente, não há mais nada para além do pó. A morte é o fim de tudo. E para que serviu esse tudo? Para se diluir na distância, no tempo?
Sinto-me plenamente tranquila, imaginando que a nossa existência é apenas uma passagem de um “Mar Vermelho” que nos dá um período para o atravessarmos, com mais ou menos atropelos.
Não somos perfeitos. Ninguém é perfeito. Quando o formos, os horizontes celestiais abrem-se às escâncaras. Não o céu azul ou cinzento que nos serve de abóbada mas um outro conceito nos desperta.
Há várias dimensões no nosso abstracto ideológico e várias plataformas de observação mas não somos suficientemente puros e perfeitos para aspirar a saber tudo. Deus, no entanto prometeu-nos a luz. Jesus foi ele próprio a verdade e a vida. Por isso, ascendamos aos seus princípios e ser-nos-á revelada toda a missão para a qual fomos criados e a recompensa que merecemos.