domingo, 14 de outubro de 2012

A IMPLANTAÇÃO DA REPUBLICA


05.10.1910-05.10.2012

Nesta data, comemoramos o quê?
Os 102 anos da nossa centenária República? Repleta de experiências e histórias para contar?
Vi, pela primeira vez a sua foto num enorme painel pintado a óleo, passados dias de entrar para a escola primária.
Representava uma mulher forte, toda ela cheia de carnes, de mangas arregaçadas e expressão determinada. Destacava-se duma grande multidão, oriunda do povo, pelo seu trajo colorido e pelo estandarte que brandia, de braço roliço, acima de todas as cabeças. O que mais me impressionou foi o seu seio, completamente saído do corpete; dois peitos redondos, túmidos, rijos, prometedores.
Durante largo tempo, não tirei os olhos daquela imagem. Forte, poderosa. Parecia querer saltar do quadro e acabar com uma luta, arrastando consigo as massas num movimento revolucionário.
Mais tarde, não muito mais, percebi que esta figura simbolizava a aparição, o começo de uma nova era. A monarquia tinha caído e um novo regime se instalava, de cariz republicano, cujo ex-libris era uma mulher, de estatura matriarca, de mamas pujantes de leite que iriam amamentar um povo com fome.
Ela era a Pátria. E iria alimentar os seus filhos como mãe extremosa que era.
Depois do assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro, seu filho, Luís Filipe e do exílio de D. Manuel, seu irmão, que se manteve no trono uns escassos dois anos, a nação, tão enfermiça como o monarca, bem necessitava de um golpe de estado.
O sistema mudou e deu lugar a muitos sistemas. Foram milhares os políticos e governantes. Algum sangue correu daqueles que só sabiam ser idealistas e atropelavam os ambiciosos do poder.
Depois de tantas peripécias e contendas, tantas vítimas inocentes, tantos rostos e discursos inflamados, chegámos hoje a um estádio de alma nostálgico de um 25 de Abril que parecia prodigalizar esperança e sonhos de liberdade democrática…
Mas o povo é uma criança. Ingenuamente acredita. Mal informado, confia nas lábias dos que tomam as rédeas.
Quando se vê no limiar da pobreza e as plataformas sociais descambam, acorda e cresce de repente.
Os movimentos contestatários são de um povo cansado, desconfiado mas sem energia para escolher, porque olha em redor e não vê quem tenha a honestidade de remendar o buraco que outros cavaram.

Hoje comemoram-se 102 anos através de alguns eventos que assinalam, acima de tudo, coisas menos boas, como o período da ditadura fascista e a mudança para democracia, desde sempre mal percebida e mal aplicada.
A mim, só me resta fazer a pergunta: Que nos reservará o futuro? Neste momento, se soar o troar de algum canhão para celebrar a aniversariante, associemo-lo ao momento de despertar energias e decidir de uma vez por todas. E acabar com este slogan de um “salve-se quem puder”.
Lembremo-nos que o futuro é das novas gerações.
Salvemos o trigo do joio.