sexta-feira, 3 de agosto de 2012

No Templo da Alma


REFLEXÃO V

Se não valesses nada para mim, terias nascido?


Naquele dia, o mundo pareceu desabar sobre mim. O mar e o céu permutavam nos seus espaços, uma mancha de cinza que obscurecia a minha ansiedade e a vergava até ao chão.
Naquele dia, senti que me prendia uma rede de chumbo. Corria pelas minhas veias, um pez líquido que, inexplicavelmente, queimava como gelo.
Senti-me embrenhada no mistério insondável do teu silêncio. Naquele dia, meu Deus, como me sentia inútil!
O entardecer era um lampadário agonizante e o meu olhar tentava descortinar-te nas nuvens.
O silêncio de um templo é diferente do silêncio de um mausoléu mas o silêncio desta imensa abóbada que me contorna, adquire a cor da minha incomensurável nulidade.
Onde estavas naquele dia? Teria sentido de uma outra forma, a fragilidade do meu ser. Teria contemplado com aprazimento a simetria de um girassol, em vez de naufragar nas águas turbulentas das minhas mágoas.
Onde estavas, tão surdo aos meus soluços e indiferente aos sulcos das minhas lágrimas?
Naquele dia, abria-se uma ferida e não estavas para a cicatrizar. Dedos absurdos remexiam naquela chaga aberta e nenhuma palavra, uma só, para desviar as endemoninhadas asperezas do meu raciocínio perante a proximidade dos meus abismos.
Onde estavas para dominar os esgares da minha revolta? Onde estavas para me responder, Tu, que sempre me procuraste?
Naquele dia, percebi que não valia nada aos teus olhos, era apenas uma infra-estrutura sem alicerces. Como pude ter perdido a consciência da minha importância junto de ti? Que distorcida percepção foi aquela que me levou a escorregar pelo penhasco e repousar a face na rocha, desejosa de morrer, de me furtar à aparência do teu abandono?
De repente, o vento levantou-se. E de repente, também, secaram-se as lágrimas nas comissuras dos lábios. Um relâmpago rasgou o horizonte. E, longe, ouvi o trovão.
Para os hebreus, no deserto, o trovão era a voz de Deus.
Aquele trovão não soara por acaso. Fora como o desenrolar de um pergaminho.
Afigurou-se-me que, em redor, toda a natureza se curvava num recolhimento profundo. Menos cruciante, mais leve, menos cinzenta, a solidão do ambiente pareceu desanuviar-se. Pude escutar a ameaça de uma chuva torrencial, rápida, cujas primeiras gotas, no empedrado da clareira, me inspiraram o misterioso ruído dos teus passos.
No silêncio de catedral que lhes sucedeu, uma frase me ocorreu, repentinamente esclarecedora e não foi por acaso que a minha alma serenou, num misto de regozijo e de conformação:
- Se não valesses nada para mim, terias nascido?