quinta-feira, 14 de junho de 2012

No Templo da Alma



Reflexão III

Às vezes, o silêncio é de ouro. Mas, por vezes, mata. Há coisas que se devem dizer. Outras há que têm de ser silenciadas. Depende. É chegada a este ponto da questão que busco um conselho junto do meu Criador. O que vou dizer? O que devo saber? Ele ensinou-me que as palavras cuja fibra são sentimentos de ódio, nunca devem ser pronunciadas. As outras que revelam amor, carinho, compreensão, solicitude, essas, são um turíbulo de incenso na relação com o próximo. Nestas, a sinceridade tem um esquema magnífico para a existência humana e traduz uma procura incessante de felicidade e equilíbrio sociais.
Mas não é neste pormenor que eu me sinto perdida. Não. Não é neste particularismo de alma solidária que eu procuro a companhia de Deus. Ele já sabe que a minha dúvida se instalou com crueldade e que se não me valer a sua ajuda, eu vou andar por aqui à toa, sem porto de acolhimento.
De que vale olhar a água banhada pelo sol, inebriar-me com o seu brilho tão intenso que parece um riso? De que vale escutar as vozes dos seixos na orla da praia e descobrir ritmos e murmúrios que emprestam ao ar uma impressão de leveza? As vozes de criaturas que desabafam, põem a nu o seu intimismo, desdobram-se em dádivas de fonemas que são outras tantas confissões da sua expressão mais profunda, valem de alguma coisa? Alguém lhes reconhece a importância?
A linguagem de uma espiga, de um pássaro, de um peixe, de uma pedra, de um astro traz mil e uma interpretações. A voz das areias no deserto, das ondas de um oceano, dos enigmas glaciares, das noites tropicais são no seu conjunto um imenso diálogo revelado ao coração de cada um e onde não há segredos para esconder mas respostas às nossas questões que acabam por ser memórias gratas a eternizar.
Mas eu? Por que estou obrigada a um silêncio que guarda a essência de um nobre sentimento? Por que ocultá-lo apenas porque a sua pura beleza e vernaculismo não são compreendidos pela vulgaridade? E vai talvez rachar um pedestal, manchar uma aparência?
A natureza não é convencional. É real, transparente. Não usa de sofismas, ardis ou malícia. Por isso, se torna soberana. Concretamente singela, poderosamente persuasiva, é a voz do meu Criador. Não se reduz ao silêncio e as suas revelações não magoam mesmo quando anunciadas por uma tempestade. O meu silêncio mata. Se o não quebrar, pode despedaçar o melhor de mim. Debilita-se e debilita-me. Murcham os seus anseios de confidência. A minha voz estiola-se, não transmite este ideal de alma, verdadeiro elixir para o que sofre e tem ânsia de desabafar.
Silêncio de ouro se não encontro quem saiba ouvir-me, compreender-me, aconselhar-me. Silêncio de morte se não possuo discernimento suficiente para escolher o eco dos meus gemidos, das minhas querelas, como o vale da montanha mais sólida onde posso expor sem receio de irónico sorriso ou aleivosia sórdida, o mais recôndito dos meus sentimentos.
O cântico de aleluia que busco transforma-se em canto de cisne se o nosso parceiro nos desilude.
O suspiro de alívio desejado estrangula-se na garganta. Quando o silêncio mata, quem salva a verdade? Quando o silêncio é de ouro, a verdade mata por dentro, mas não queima as maravilhas de uma mensagem, a da confiança, a do sentimento fraterno que defende na tragédia e glorifica na paz.
Curvo a minha cabeça e espero.
Que mérito terei com o meu silêncio de ouro, que não mata, salvando a verdade de outrem? Que atributos me concede o universo divino? Não estou a oferecer ouro falso? Ou então, ouro de lei, oculto como uma relíquia, egoisticamente ignorado? Quando forem apagadas as minhas deduções tempestuosas e me sentir liberta de toda a perturbação, é porque encontrei o caminho de ouro do silêncio. A oportunidade de ouro do silêncio. Concluo que alguma coisa aprendi nesta interiorização e reconheço que, mais uma vez me não desapontaste.
Que importa, pois, que os homens me desapontem? Que a humanidade me desaponte?
Devo silenciar que te contemplo sempre que o meu olhar poisa nas coisas?
Que te recordo, sempre que a minha alma se regozija? Que me sinto em unidade contigo, encontrando sinais da tua presença em tudo quanto me acontece e respostas através dos sons mais elementares?
Que se pode esperar de mim, do meu silêncio persistente das palavras, quando me inspiras a fazer parte da tua natureza?
É então que me indicas o silêncio de ouro, o silêncio que mata e a verdade que salva
Orientando-me pelos da minha consciência.