segunda-feira, 18 de junho de 2012

No Templo da Alma


Reflexão IV

À DESCOBERTA DO POETA

No cume de Tamadaba, na ilha de Gran Canária, o Poeta empoleirou-se, de calcanhares roçando o penhasco. A mil e setecentos metros de altitude, estava mais próximo do céu que todos os outros. Nem as águias que sobrevoavam o vale de Agaete, muito abaixo dos seus pés, ao nível dos côncavos do desfiladeiro, ondulando as asas em curvas sincopadas, como que afastando perigos iminentes dos ninhos ocultos, atingiam os recortes mais altos do píncaro como se fosse esse o privilégio exclusivo de quem estava ali em cima para as exaltar.
A silhueta do Poeta desenha-se no painel de um horizonte dilatado pela cor e pela luz. Está imóvel. Absorto. Contemplativo. Parece não estar presente. No entanto, faz parte integrante de um conjunto homogéneo de quem elabora a mágica mensagem que em paleta de silêncios escreve cascatas de sons e emoções.
E o título surge. E o poema irrompe, qual melopeia de “cantar de amigo”, qual sinfonia de partitura de amor:


O ALCANTILADO DE BASALTO

Poema de Francisco Lezcano                                                                                                                

Gigante de basalto em trono de silêncio
Em teus ombros as aves fazem ninho.
À tua sombra as baleias azuis parecem peixes.

Escalei, palmo a palmo, a tua armadura
Até ao teu penacho de pinheiros
Que escrevem com resina
Poemas de ar e vento nas nuvens.

Sentei-me na erva
Para ouvir os teus pensamentos.
Inclinei as minhas pálpebras
Para ver os teus odores.
Abracei as tuas árvores
Para crer que o coração existe.

Ao cair da tarde,
Quando o sol enlanguesce
Entre linhas horizontais de âmbar
E de aves emigrantes,
Quando os primeiros tules da noite
Se estendem pelos prados,
Abrigando os pássaros diurnos
E abrindo as portas dos noctívagos…
Ao cair da tarde,
Quedo-me em êxtase
Aos teus pés que não são de barro,
Com a minha orelha sobre a tua pele de pedra,
Ouvindo o rumor dos meus rios de liberdade.

E de repente, sem poder evitá-lo,
Rompo a rir, a rir…



Não podemos negar que este poema nasce de uma lírica fascinante. Toda a natureza, motivo de inspiração, flui nele. Cada verso regista ritmos e melodias que na consciência do Poeta revelam a linguagem do equilíbrio absoluto.
A credibilidade do Poeta está na sua autenticidade e esta salienta-se por uma sensibilidade refinada dirigida para os valores morais e para as virtudes essenciais que tornam o homem mais consentâneo com o universo em que se desenvolve, esforçando-se por se aperfeiçoar na sua evolução O Poeta enaltece estas máximas e dedilha na harpa da sua alma a verdadeira essência que modela a felicidade humana na harmonia de tudo quanto existe.
Com estes considerandos não me dispenso de assinalar o reverso desta medalha. Onde estão os poetas? Por que os jornais e revistas nacionais não publicam poesia? Por que se não editam páginas culturais como era notório nos anos sessenta em que cada periódico tinha o seu suplemento literário?
Ao lado de poetas estreantes, a craveira de poetas consagrados. Fico perguntando se os poetas desapareceram ou a imprensa se recusa a divulgar os seus inéditos, dando espaço fão exíguo e anónimo aos vates principiantes que logo os desmotiva a continuarem.
Não se publica porque não há poesia? Porque há má poesia?
No tempo das páginas culturais, havia muitos poetas; poetas medíocres habilidosos a prosear poesia. Um clima de verso livre proliferava sem métrica nem cadência rítmica, ao lado de genuínos poetas cujas estrofes eram lições magistrais em defesa dos direitos do homem. Aparecia então a poesia contestatária, a poesia de intervenção. Nem aquela poesia intimista, eivada de sentimentalismos nos é dado ler com frequência para iludir o materialismo da vida, hoje dita sem sabor, perturbadora e profeta de aberrações e anómalos comportamentos.
O Poeta mergulha actualmente no quotidiano satânico que não deixa margem para sonhos mas rasga janelas para a luta, para a defesa de ideais. Por isso, tudo quanto o realismo vigente nos proporciona contribuir progressivamente para a produção de poesia e para a criação de poetas.
Será que não há desigualdades? Acabaram-se as diferenças?
O racismo, o “apartheid” são termos que já não têm razão de existir? Não existem as guerras, os genocídios, o terrorismo, a violência bárbara que afecta até inocentes? Dignificou-se a justiça? A paz foi finalmente conquistada? Vivemos em liberdade plena de objectivos?
Onde estão os poetas que denunciem a soberba e o egocentrismo do poder?
Lamento imenso que muito poucos divulguem poesia, pelo menos alguma poesia, pois a sua ausência define a indiferença insultuosa para a problemática social que todos atravessamos.
As raridades não chegam. Hoje, mais do que nunca, necessitamos de poetas. Poetas que cantam, que vibram, sofrem a angústia do presente e se incomodam com o caminho que todos levianamente percorremos.
Um ou outro, perdido por trás das gelosias do seu inconformismo, teima em permanecer na reserva dos seus conceitos e suspeitas. Resta-nos a esperança de continuarmos na posse de poemas como o transcrito, onde se pode vislumbrar que sobre a densidade de um estado de alma, existe um santo, um guerreiro e, por vezes, um herói.
Termino por repetir as palavras do escritor espanhol Miguel de Aguilar Merlo, médico em Madrid, director da editorial Agen. Diz ele, falando do Poeta naquela grata noite em que abordámos vários assuntos à mesa de um restaurante informal:

“Para que quer a sociedade poetas que sonhem com a paz e a liberdade ou qualquer outra abstracção comercial? No dia em que as drogas modernas do sexo e da violência acabem por suplantar poetas como Francisco Lezcano, ter-se-nos-ão acabado selvas mais oxigenadoras e vitais que o próprio Amazonas cuja extinção continuamos a provocar. Nesse dia, nem os humanóides de Lezcano poderão ressuscitar uma humanidade sem poetas”.

Nota: Para esclarecimento do leitor, devo acrescentar que os humanóides a que o doutor Aguilar Merlo se refere constituem personagens de ciência-ficção dos livros especializados nesta área de expressão literária que o poeta também cultiva.