segunda-feira, 28 de maio de 2012

No Templo da Alma



Reflexão II a)

O dia está prestes a terminar.
O extenso tapete de caruma prolonga-se até à orla da encosta. Por trás, oculta-se meio círculo de fogo que beneficiou a tarde dos últimos sussurros.
À medida que mergulha, o sol transforma-se numa chaga viva. O recorte da colina torna-se negro e aviva o contraste. Contemplo este vermelho cintilante, pleno, pleno de majestade. Nenhuma cor se lhe compara. Acaricia o olhar como uma pétala de veludo. Escorre dentro da retina como um licor de seda. E desliza no interior do espírito acendendo círios em apoteose.
É então que visiono um largo recinto dentro de um templo abobadado. Não tem frisos de claustro mas balaustradas com frescos dourados e rostos de anjos infantis que exprimem sorrisos de açucena.
Avanço para o altar. Encontra-se coberto por um tecido precioso, duma brancura que fere e não se define. A minha alma perturba-se. O branco e o vermelho presidem na minha visão. Curvo-me. Encolho-me sobre o meu corpo e sinto que desapareço sob a intensidade de uma forte sensação de domínio.
- Não sou nada. – pensei - Ele é que é Tudo.
Invade-me um sentimento estranho. Pretende abraçar o mundo. Com mel e leite e néctar de resedas, uma imperceptível sensação de ternura e de entrega. Um desejo de dar-me, uma absoluta indiferença pelo exterior.
Não vejo o perfil de quem me atrai. Subjuga-me tão docemente! Pressinto, sim, que há perto uma presença especial, etérea e suave, muito subtil mas dotada de uma extraordinária força. E como me sinto bem dominada por essa força!
De repente, não sei por que motivo, senti um calafrio. E uma irreprimível vontade de chorar. Como um relâmpago, a minha memória reacendeu todos os males da humanidade, traduzidos num só: a ingratidão do homem. E como um gigante ciclópico, o pecado mostrou a sua colheita.
Quando tudo desapareceu, olhei na minha frente: o sol ainda permanecia no horizonte, uma labareda sangrenta, rodeada de punhais de aço.
As minhas lágrimas tornaram-se metálicas. Eram pingos de azebre. Abriam sulcos na pele. Estilhaçavam todos os contornos das bênçãos anunciadas por um Deus magnânimo justo.
As minhas lágrimas confundiram-se. Aquela mancha vermelha que sangrava… que se rasgava… dilatava-se em todos os sentidos, baixava aos lares dos famintos, afagava os desesperados, iluminava os confusos. Curava os doentes, dava vista aos cegos, fazia andar os paralíticos. Perdoava as ofensas, amava os seus inimigos. Contemplava povos e nações com o seu misericordioso perdão.
Tinha dentro de mim o sentimento de culpa. Tinha na minha frente o coração de Jesus.


a) Texto publicado na revista evangélica “Novasde Alegria” de Lisboa com o título “Presença”.