terça-feira, 22 de maio de 2012

CLÁUDIO


(1971-2012)

Sempre fui da opinião que o momento mais belo da vida de uma mulher é aquele em que, num jorro de sangue, lança para o mundo um “fruto do seu ventre”.
Há quarenta e um anos, tive, pela quarta vez, essa magnífica experiência, ocorrida em casa, onde a par de um alvoroço discreto e duma expectativa ansiosa, eu sentia a ternura e a solicitude dos meus pais , das três filhotas perplexas e um tudo nada amedrontadas e do pai das minhas crianças, esse companheiro excepcional e amoroso, sempre presente.
Os tempos eram outros. D. Idalina, mulher de compleição física bastante forte, pacientemente, aguardava num cadeirão a chegada de novas contracções. A madrugada vinha longe e ninguém dormia, tal a excitação.
Minha mãe adorada, com imensa precaução, seguia os pedidos da parteira, pessoa recomendada pela minha médica ginecologista.
A criaturinha nasceu. Eu nem queria acreditar que fosse um rapaz.
- È! É, doutorinha! Olhe a pila! - insistiu a parteira, exibindo o bebé
Um estranho adormecimento envolveu todo o meu corpo. Senti-me como numa nuvem, leve e fluida, com uma deliciosa sensação de bem-estar e leveza, nunca dantes experimentada.
De repente, o punho fechado de D. Idalina socou o meu estômago, comprimindo-o com toda a força de que dispunha.
- Depressa, chamem uma ambulância! O roupão para a embrulhar!
- Deixe-a estar! Está tão sossegada!-ouvi minha mãe, meio indecisa, meio contrariada.
Minutos depois, tinha aos pés da cama o meu médico de família, em pijama, procurando na maleta os apetrechos para me aplicar uma injecção.
- Se isto não resultar, tem mesmo de ir ao hospital- disse ele, com aquele seu ar calmo, um tanto divertido.
A minha reacção foi imediata. Um arranque, um vómito que me pareceu revolver as entranhas e a onda negra afastava-se como uma ameaça macabra.
Entretanto, chegava a minha médica ginecologista. Aflito e andando de um lado para o outro como uma barata sem rumo mas aparentemente tranquilo, meu marido tinha apelado para aquela que, na falta de um, poderia salvar a situação.
A cena foi depois, hilariante.
Eu, relaxada sobre os lençóis, meia despida, de pernas abertas, escancaradamente ensanguentada, sentindo uma frescura que me sabia brisa primaveril, sem pudor, protagonista de um espectáculo nada edificante, enquanto os dois clínicos, recordavam os seus tempos de estudantes, as peripécias académicas e como lhes era gratificante terem voltado a encontrar-se, já no pleno uso das suas funções.
D. Idalina é que não perdeu a sua compostura ao ser elogiada pelo médico. Tinha dado banho ao pequerrucho, colocado o biberão nas mãos da avó para quem o gesto era familiar e grato e fora-se embora, já o sol rompia, para voltar à tarde.
Cláudio faz hoje 41 anos e é pai de duas garotas, Luana e Iolanda. A nostalgia do passado cruza-se com a esperança do futuro. E a dor com o amor são parceiros na escalada da montanha cujo cume devemos atingir.