segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

MÁSCARAS E MASCARILHAS


Eu continuo a afirmar que o Carnaval, como o Natal, é mais propriedade das crianças que dos adultos. As crianças têm uma sensibilidade rica em inocência e espontaneidade. Apreciam a novidade desde que esta venha impregnada de brilho e inspire a sua imaginação. Não é de estranhar o seu interesse pelos contos de fadas, pelas fábulas e episódios de aventura. E mesmo que no seu íntimo sintam que é a fingir, entregam-se sem disfarces ao cenário que mais as surpreende.
Bruno Filipe tem cinco anos, Este ano quer fantasiar-se de “cavaleiro das Cruzadas”. Não tanto pela túnica mas pela espada, ele assume uma intrepidez de guerreiro, defensor de fracos e oprimidos. Pode não entender a realidade daquela época mas entrega-se, vive a personagem com todo o vernaculismo da sua identidade, independente de negativismos e exageros.
Mas enquanto na criança, a fantasia dispensa a máscara, no adulto, a máscara esconde o sentimento obscuro que acompanha o seu dia-a-dia. A ver bem as coisas nem precisava de usar aquela máscara de missanga ou “lamé” ou aquela mascarilha de lantejoulas para ocultar a sua verdadeira máscara,
Quantas atrocidades e crimes se cometem à sombra dos trajes carnavalescos?! Quantas vinganças se cometem planeadas no enleio de uma máscara?! Quantos dissabores e desilusões se agigantam na confusão das serpentinas e confettis”, no abuso e no excesso, na confusão, tudo máscaras e mascarilhas diabólicas que estimulam a existência do indivíduo.
Quando ele deixa cair a máscara, vêem-se os estragos que causou.
Carolina tem quatro anos e deseja fantasiar-se de “gatinho”.
Só neste diminutivo, demonstra toda a ternura do seu coração.
Miguel tem a mesma idade e o fato que escolheu com equipamento completo – faz questão – é o de “bombeiro”.
Não é difícil presumir porquê.
O Carnaval como diversão, convívio alegre e inofensivo, benéfico em desprendimento, tubo de escape momentâneo das misérias da vida, eis o que pode ser. Mas atitudes, comportamentos, expressões e até roupagens “carnavalescas” são o nosso prato de cada dia. Onde quer que se esteja, nos departamentos estatais, nos centros de saúde, nos organismos oficiais, nas ruas, nas famílias nos locais públicos de várias áreas e instituições de vária ordem, proliferam as farsas e insinuam-se as máscaras.
E quando a máscara cai…


Terminou o Carnaval mas a foto fica para a posteridade, evocando sempre o diálogo que marcou este evento entre mim e o meu neto Bruno Filipe.
- Vovó, não te mascaras?
- Já sou muito crescida para isso.
- Oh!! Queria que te mascarasses...
- De quê, já agora?
- De Princesa!
E aqui estamos nós, duas gerações, a mais velha, uma "Princesa da Nobreza" e a mais nova, um "Cavaleiro das Cruzadas".