segunda-feira, 13 de julho de 2015

Encontro de Caniches IX


- Meninos! O verão chegou! – atirou o Rubi, sacudindo o dorso encaracolado.
- Tens de ser tosquiado. – comentou Lulu.
- Isso é que era bom. Prezo muito o meu aspecto.
- E se cantássemos os “parabéns a você” - lembrou o Rissol.
- Quem é que faz anos?
Todos se entreolharam; apenas Jimy permaneceu sem se mexer.
- Ah! És tu! – disseram em coro.
Ladraram os parabéns mas no final, Gigi perguntou:
- Escreve-se a palavra com acento ou sem ele? Acento agudo no e?
- Quê! Aderiste ao Acordo?
Rissol riu.
- Isto é das coisas mais caricatas que imaginar se possa. Lá em casa, todos escrevem de maneira diferente. Os mais velhos porque se habituaram; os mais novos porque os obrigam nas escolas.
- E assim é um Acordo sem acordo…- gargalhou Lulu.
-Se o mal fosse esse. Pode-se dar erros à vontade que ninguém nota.
A mim o que me preocupa é o estado deste país. – aventou o Jimy. – Ninguém se revolta. Dantes, lutava-se por objetivos e por ideais. Havia união e cumplicidade. Quando os sistemas não correspondiam aos interesses do povo, este criava grupos de resistência activa e muitas revoluções salvaram a nação das vilezas cometidas.
- Mas hoje também se luta, se reivindica…- objectou Gigi.
- A resistência é passiva. Os movimentos de massa só barafustam. Nem as ameaças têm muito peso…
- Mas… - ia a dizer um deles.
- O que convém é distrair o povo. Futebol, Big Brother, novelas, arrastam multidões e enquanto as gentes se divertem, o sistema actua como quer.
- E há as festas regionais com os comes e bebes e folclore…
- Mas isso contribui para a manutenção dos recursos tradicionais da região.
- Mas o futuro? Que irá ser da nova geração? A desarvorar para o estrangeiro? Porque a juventude que fica…olha…anda por aí, com as crises de ansiedade que conduzem a outras situações amargas.
Rissol levantou-se.
- A conversa vai boa mas já me despeço. Ciau!
- Ciau! – disseram em uníssono.
E todos se cingiram às suas trelas.