domingo, 26 de janeiro de 2014

Presente de Aniversário


Veio no dia seguinte, pela manhã, conduzida por umas mãos fortes que a orientaram entre as minhas pernas.
Na véspera, eu completava 39 anos. Habitualmente, o meu aniversário era festejado com um jantar à luz das velas e uma sessão de cinema.
À mesa, a garota não sossegava, como se quisesse ver tudo e saborear a ementa.
Incomodada, o que poderia ter sido um momento idílico, foi entrecortado de gestos bruscos, esgares de mal-estar e posição insuportável.
A miúda redobrou a sua irreverência ao longo da metragem. Não percebi nada do filme, não apreciei devidamente a carícia de meu marido, que se atemorizava a cada movimento inoportuno, receoso deu um desenlace.
Naquela noite, o hábito de assistir a uma sessão cinematográfica, conservando-nos de mãos dadas, num enlevo que persistia no tempo, apesar da existência da filha mais velha, de quinze meses, tinha todos os ingredientes para se tornar um flagelo, menos num momento romântico.
Respirei de alívio à saída do cinema.
À chegada a casa, as primeiras contrações começaram.
A noite fechou o meu círculo onde só uma criaturinha indefesa gozava todas as prerrogativas.
Pela manhã, um choro desesperado estilhaçou os ruídos da expectativa.
Florbela acabava de nascer.
O meu belo presente de aniversário.