sexta-feira, 27 de setembro de 2013

PLEBEIA DE SICAR



                     I


Oh” Quem me dera ser samaritana,
ir tirar água ao poço e mergulhar
cadências virgens de alma puritana
que me fizessem de prazer corar.


Sinto um pé deslizar pela savana.
Vejo um manto de linho a esvoaçar;
um perfume de nardo que dimana
da leveza de um lento caminhar.


Ah! Na borda do poço se sentou.
Minha vida de vícios desvendou
e me deu a beber da sua água.


Meu cântaro de barro se partiu;
de lágrimas meu corpo se cobriu
e contigo, Senhor, a minha mágoa.



                      II


Tornei ao poço. Quis voltar a vê-lo,
esse Homem que me disse tudo quanto
vira nefasto em mim…e era tanto
que me crispei de dor como um novelo.


Não sei se desespero se me encanto
com seu olhar profundo de desvelo.
Sonho enxugar seus pés no meu cabelo
e incensar de amor todo este espanto.


Da minha culpa me despiste agora.
Por que me dizes ser chegada a hora?
Por que neste lugar estou sem Ti?


Porque, mulher, não sabes? Morrerei
por todo o mundo que não segue a lei
do mesmo amor que, em ti, enalteci.



                      III


Deixa-me estar  Contigo! Ir após Ti!
Tomar a Tua cruz em Teu lugar…
Dar-Te a certeza de que sempre aqui,
água do Teu cantil virei buscar.


Tão límpida, tão pura, a borbotar,
mais rutilante do que um rubi,
mais confortante do que um samovar
donde afagos de sândalo colhi.


Vinde comigo todos! Vinde e vede
que algo em mim fez brotar  e maravilha
como extinguiu de um gesto a minha sede.


Eis-me no limiar da outra milha…
Que espada fulgurante em Sua rede,
que em pedaços deixou a minha bilha!



                      IV


Samaritana eu sou! E ao meio-dia,
vou tirar água ao poço de Jacó.
Ninguém me espreita atrás da gelosia.
Ninguém se espanta por que venho só.


Não quero, não, saber de companhia
desde que alguém, mordido pelo pó,
no poço se sentou e me sorria
e no meu peito desatava o nó.


Bebo as palavras de sabor intenso.
Lavo os meus olhos na água cristalina.
Desbasto o joio no meu vale imenso


E pergunto o que tem, que me domina
meu corpo brando, Seu perfume a incenso
que me torna tão grande…e pequenina.



SULAMITA – MULHER DE SULEM


Vem esta noite ver-me, ó meu amado!
Vem esta noite envolto na penumbra.
Teu vulto ardente, lesto e perfumado,
meu coração, de longe, já vislumbra.


Já maré baixa tem o mar salgado.
Tua galera encostou na areia.
Silêncio! Dorme todo o povoado,
como abelhas nos favos da colmeia.


Oh! Como vibrarei, tranquila e doce,
repousada a cabeça no teu peito,
eu vejo o sol na noite que te trouxe.


Em matizes me inspiro e me deleito
neste sabor a mel, como se fosse
uma prega da colcha do teu leito.



INFINITO


Neste espaço que habito em turbilhão
e me obriga a torcer, chorar, gemer,
só o beijo do sol, a imensidão
afaga a minha ira de mulher.


Viver para morrer, eis a questão.
Ando por todo o lado sem saber
o rumo, o infinito, o coração
das trevas ofegantes. Ser, não ser.


E a duvida se instala por meu mal
no inferno do meu desassossego,
na tremura da minha voz exangue.


Que verdade procuro eu afinal?
Para quê ter à terra tanto apego,

se vivo em universos no meu sangue?