quinta-feira, 28 de março de 2013

Agnus Dei


Cântico da Compaixão


A dor me brindou,
em gritos se transformou
e em mil dores se consagrou.

para me vestir de branco
e me cingir de púrpura
pela fenda de mil punhais,
mil perfídias, mil insídias,
mordaça de vãs ternuras

Na fronte me colocou
um diadema de espinhos.
Meus olhos viraram fontes,
água infinita lavando
as chagas da minha mão.

Ei-lo que vem passo a passo,
ardiloso, sorrateiro,
beijo de Judas trazendo
Getsémani de mil mortes
que em mil quedas se anuncia
e da tua face se despede,
ímpio  de alma vidrada
em  troca de trinta dinheiros.

As árvores gemem silêncios,
já não contemplo as estrelas.
O mar murmura lamentos,
todos sabem menos eu
que a morte vem por um beijo.
Ai, Getsémani, Getsémani!

Foram palavras de mel
e carícias de veludo,
o sol parecia sorrir,
vazando sal sobre as veias.
O sangue brotou, ardeu.
Vais esgotar este cálice,
tropeçando nos teus passos.

Olhai-o, vede que vem
com a oferta da morte.
Senhor, toma o meu lugar
que eu não suporto a traição
nem quero ressuscitar.
Caída, mordi o pó,
ai, Getsémani, Getsémani!

Com um beijo me entregaste
aos  meus inimigos, ai.
o lado me trespassaste.
Perdida, Senhor, perdida,
quem  tanto esplendor conhece
a  quem não soube o que fez…

Noites descem sobre mim,
estendem  colchas de orvalho.
Ninguém me toque, ninguém,
que  o sino dobra a finados.

Mil querubins, violinos,
miragens  e desvarios,
estilhaçam  gargalhadas,
ai pobre de ti, coitado,
que me vendeste ao Sinédrio.

Rostos de mulheres escuras,
seus mundos de riso e escárnio,
mentira, roubo e loucura
de vinho e suicídio
mas nada podem, já não.

Já nada podem. Oh! Não!
Sabem-no as horas do tempo,
o espaço eterno, liberto
sobre o meu ser transformado.

O Amor se esfrangalhou,
só ele, Deus, ressuscitou,
o resto… foi consumado.