terça-feira, 1 de janeiro de 2013

BALADA DO ANO MOÇO


Aurora Tondela


No dealbar de um novo ano, mal abro os olhos para o mundo, desperto com os olhos dos homens postos em mim, na mesma singular e repetida expectativa, tão secular como a noite dos tempos.
Que esperam eles afinal?
A sua felicidade própria. Mais prosperidade, mais alegria, mais prodigalidade na ternura e na confraternização solidária dos bens comuns, perspetivas mais definidas e objetivas para os seus projetos.
Cada um quer primeiramente para si e depois para os outros. Cada um faz constar que pensa nos outros e quando exterioriza o seu sentimento de um amor universal, de uma paz universal, de direitos universais, é sempre com o propósito de ser melhor que o seu antecessor, sem procurar conhecer o significado da sua realidade transcorrida. E os mais débeis, quer no entendimento, quer na vontade, crêem ao acaso no ano que, se melhor não pode ser, pelo menos seja como o que se foi, como se os anos passados possam ser apenas baluarte de factos estáticos.
Vejo que esperam melhores dias. Vejo que proclamam uma esperança renovada, esquecidos de que o estribilho se despedaça em parcelas de irrealismo e alguma incoerência. Porque o que conta não é o que esperamos dos outros mas o que lhes damos e o que esperamos de nós próprios e isso é a chave mestra do ano que nasce e deve ser exemplo dignificante dos anos que vão seguir-me.
Não penso, porque é facto que já conheço e sei que irei confrontá-lo com outros factos semelhantes. Os homens repetem-se. Há milénios e milénios que lutam contra as mesmas carências. As conhecem e as provocam.
O homem, mesmo que se arrogue de lutador, é um ser passivo. Reparem: passivo, não pacífico. Até mesmo quando luta diariamente, permanece passivo porque não estabelece estratégias pessoais para a construção de uma vida melhor em coletivo.
Essas estratégias com a finalidade de uma paz e segurança sociais, baseadas em respeito e auxílio mútuos, poderá com coerência e eficiência, render os seus lucros no contexto de uma medida universal. Então, sim, poderemos falar de esperança.
Que importa dizer: “Oxalá este ano seja, senão melhor, pelo menos, como o que se foi”.
Ou então: “haja ao menos, saúde”.
Ou lamúrias: “isto é que foi um ano”. Ou ainda: “Quando mal, nunca pior”. E seguir na multidão, esperando que os outros façam, nos desenvencilhem dos atritos ou deixar que atuem, prevalecendo interesses alheios e egoístas que esmagam a energia e os ideais altruístas
Que pequeno o homem se tornou! Quão grande o destino para que foi criado!
Amarfanhado pela ambição, no atropelo das conquistas, restringe os seus horizontes, apesar de parecer ter alargado o círculo em que a sua mente se movimenta.
Nunca ao homem será permitido conquistar o progresso, pois algo haverá sempre para além do limite dos seus passos. O seu perímetro será sempre alargado, abrir-lhe-á sempre novos domínios e o futuro agiganta-se perante o cérebro e a capacidade do raciocínio que lhe é atribuído.
Não pense o ser humano que lhe é facultado alcançar o fim. O que lhe não é difícil é vencer as suas próprias limitações, desde que perca o orgulho de as evidenciar como dotes.
Este seria, se o homem quisesse, um alvo de combate persistente porque sendo campo de batalha das suas quedas frequentes, joguete de paixões desenfreadas, por vezes obsessivas, encontraria aí a depuração do seu falso juízo.
O homem que tem tudo a seus pés, é centro e periferia dos desígnios perversos do materialismo e dele não sai mesmo que estrebuche. O homem em cujas mãos foram colocadas rédeas de condução e organização, o homem a quem foram desvendados os caminhos do bem e do mal e a sua liberdade de escolha; o homem que supera a máquina e a sua força bruta, pela pujança do seu intelecto; o homem, senhor de uma lucidez e de uma vontade que espera dos outros e que devem manifestar a partir de si próprio, nada faz para inverter o curso da sua viagem.
Limai as vossas arestas para que possais corrigir as arestas dos que podem, na matemática dos elementos, desviá-los para rotas de assombrosa oportunidade., pois o homem permanece pequeno, incrivelmente só, embrionário, tão carente e pusilânime, completamente perdido da face do tempo. Por isso toda a sua ação é inconveniente.
E tudo isto porquê?
Porque não aprendeu ainda a integrar-se numa dádiva de amor pleno perante a natureza daquilo que o envolve e prefere o semelhante com que convive mas se não revela em afinidade. É antes, uma relação de astúcia, mentira, emulação, sofisma. Se existe parceirismo fiel, é porque trama qualquer armadilha.
Então em cada começo do ano menino, uma nova esperança emerge mas não o desejo de um novo aprendizado de vida; a esperança de que os astros mudem e as promessas se cumpram. Não se capacitam de que não são os astros que têm de mostrar uma nova elítica mas sim, eles, como cidadãos, na interioridade e complexidade da sua formação, mediante os parâmetros que esperam dos outros, mediante os valores morais que exigem e que devem manifestar a partir deles próprios.
Limai as vossas arestas para que possais corrigir as arestas dos outros.
Só assim a esperança terá a sua razão de ser e o espírito do homem conhecerá a sua verdadeira dimensão para encontrar o seu verdadeiro caminho e reconhecer que tem uma missão a cumprir.