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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

ENCONTRO de CANICHES XVIII


ENCONTRO de CANICHES XVIII

- Eh! Que focinho é esse?
- É o meu. – respondeu Maruja a Rissol que sacudia a pelagem encharcada pelas bátegas da chuva que caía.
- Onde estão os outros? – perguntou este.
- Na cave do Jimy. Mas tu vais apanhar uma brutal constipação! Nem te acolheste debaixo de nenhum chapéu!
- O quê!? Aqueles guardas-nada? Os automáticos então só defendem o coruto da cabeça. Mania das vaidades!
- Somos melhores que os humanos. Mais resistentes.
- Mais inteligentes, isso sim! Temos dons que nascem connosco. Nadar, por exemplo.
Maruja riu de satisfação.
- O instinto de sobrevivência está mais desenvolvido em nós, animais do que nas pessoas que se julgam superiores a nós.
-Oh! Oh! Essa qualidade não é inata nelas. Quando se manifesta, ´e de forma descontrolada.
- Olha, vamos ter com o Jimy.
Ao reunir-se, o grupo reparou num rafeiro, magro, triste, de aspecto enfermiço.
- Conhecem-mo?
O latido condoído de Rubi despertou a emoção geral.
- Como te chamas?
Jimy quis ser amável.
Rissol ripostou.
- Ele está esfomeado. Sabe lá se tem nome!
Maruja afastou-se e ganiu.
- Ah! Vamos com ela…Temos ali ração e água.
- Por que nome te havemos de chamar?
Jimy deu uma sapatada em Rissol.
- Deixa-a comer!
- Deixa-a?! É…
- É e está grávida…
- E agora, que fazemos?
Jimy aventou a hipótese da Segurança Social.
-Ela não pode viver de burocracias. Vamos nós tratar dela e dos filhotes. A união faz a força. Depois se verá!
- Sim um passo de cada vez.
E Gigi, até aí calado, rodopiou atrás da própria cauda.
- Meninos, o que nos trouxe em convívio fica para outro dia. Temos um assunto entre patas. E nada de caridadezinha habitual nos humanos, que ajudam uma vez e da pior maneira.
- E à custa disso, alimentam uma série de instituições.
- Vá! Vamos dormir. Um passo de cada vez.
- E o nome para ela?
- Um passo de cada vez…entendes? Para ser o passo certo!
- OKay!

quinta-feira, 8 de março de 2018

ENCONTRO de CANICHES XVII


O focinho apreensivo de Maruja surpreende os companheiros. - Está tudo bem? – pergunta Rissol.
Ela reage.
- Bem?! Qual bem, qual carapuça? Está tudo mal!
- Mas o que é que se passa? – inquire Jimy.- Então vocês não sabem o que está a acontecer nos hospitais?
- Certos hospitais! – acentua Pipoca.
- Também era melhor que fosse a generalidade. Um horror! Um desumanismo. Bem, vocês sabem.
- Faz-se alguma coisa de maneira a solucionar a situação? Os pedidos obtêm resposta? O comodismo impera, meninos.
Rissol avançou:
- Havia uma maneira de pôr cobro a calamidades como esta.
- Sim? Qual?
Após um curto silêncio, Jimy informou:
- Era colocar o ministro da área no lugar ocupado obrigatoriamente pelos doentes e obrigá-lo a respirar aqueles ares viciados, a sofrer as longas listas de espera, a misturar-se com os ais e gemidos nos corredores.
- E já agora a não ter dinheiro para as receitas, principalmente para as que não têm comparticipação como os antibióticos e as vitaminas.
Pipoca ergueu uma pata no ar.
- Voto pelas consultas privadas!
- É burra!
Sheik prosseguiu:
Sim, se os que auferem salários chorudos e quando reformados, continuam para além da reforma a usufruir de todas as regalias, recebessem menos para os que auferem pouco gozem de um pouco mais.
- É o que eu digo! E repito! O dinheiro está mal distribuído.
A sentença veio de Jimy:
- Bem…se as grandes fortunas nascem e avultam do trabalho honrado.
Gargalhada geral.
Jimy corrigiu:
- Há sempre excepções à regra.
- Não, não, que o sol quando nasce é para todos.
Mas nenhum aplaudiu Maruja, que ganiu, desconsolada.

ENCONTRO de CANICHES XVI


Sheik chegou deveras preocupado. Se pegassem com ele, disparataria.
- NÃO RESOLVES NADA ASSIM. Desabafa!
O conselho de Rissol era de seguir.
- Não desisto de pensar que a sociedade actual só viver com um objectivo: o pronto a comer e o pronto a vestir.
- Para quê fazer planos se todos de goram? - lastimou-se Maruja.
- Nem todos…
- Em que planeta é que vives? – teimou ela.
Jimy latiu, indo em socorro da amiga.
- Se todo o projecto depender de ti e tiveres dinheiro para ir escorrendo nos bolsos de certos interesses… ai, aí consegues alguma coisa.
- Concordo. Fora disso, a carga burocrática ainda é muito pesada.
- Alem disso, sem garantias, não vais a lado nenhum. Não respiras num conto de fadas.
E Pipoca fungou em ar de desprezo.
- O que importa é ter um bom emprego e com sorte aguentá-lo.
- Jimy! E os outros? Os desempregados? Os sub-contratados? Todos têm direito a comer e a bens de primeira necessidade, não?-
Um pouco sardónico, Rissol lançou a pergunta:
- Não esqueces o rendimento de reinserção social, pois não?
E ironicamente:
- Dá para pagar uma renda de casa, os consumos de água e luz, comprar uma peça de agasalho, um par de sapatos… comer só sopa ou caldo, isto sem falar de agregados com filhos e doentes que não precisem de vitaminas nem de antibióticos, que a comparticipação, viste-a por um óculo.
Jimy endireita-se, sacode o lombo e segreda:
- Deixem lá que no meio dos males que nos afligem, ao menos temos liberdade de expressão.
- Olha-me este a fiar-se na virgem!

Encontro de Caniches XV


Sheik estava sorumbático. Perguntaram-lhe o motivo da sua sisudez.
- Isto é preocupante. Vejam só. Existem para aí umas entidades fantasmas, com designações que nunca se ouviram, a entrevistar A e B, sem respeito pelo tempo que fazem desperdiçar.
- Só respondes se quiseres. – atalhou Jimy.
- E qual a utilidade? Avaliar a opinião dos portugueses, o seu grau de cultura e de interesse, suponho. – disse Maruja.
Pipoca, sorridente, mordiscou a orelha e espreguiçou-se.
- Adoro responder a questionários. Mas diz. Que perguntas te fizeram?
- Diversas e inúmeras, - respondeu Sheik - até quiseram saber o que eu pensava do actual presidente americano.
Gargalhando, Rissol comentou:
- Há os notáveis e há os notórios.
- Ele é uma mistura disso. Ironicamente falando, é divertido.
- Uma nação deve ser governada por homens…
- Por homens transparentes. - Este Jimy deve ser um sonhador.
- O povo é soberano. Tem que fazer escolhas inteligentes.
- A maior parte das vezes fia-se nas aparências. Discorda mas em última análise, até se abstém.
- Mas voltando à tua entrevista… - lembrou Pipoca.
- Olha, tive oportunidade de falar de tudo…
- Tudo o quê?
- Secas, desordenamento florestal, desemprego e sub-contratados, hospitais, saúde, ensino, reformas, reinserção social.
- Para ti, está tudo torto então.
- Eu acho que estão tentando endireitar.
- Não, Rissol. Quem torto nasceu… O que importa é plantar raízes, lançar na terra sementes novas. Não remendar pano velho com tecido novo.
- Apoiado! – latiu Jimy.
Os outros bocejaram.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Encontro de Caniches XIV


Decorridos alguns meses, os nossos cães pequeninos reúnem-se para mais uma amena conversa, à semelhança daquele agradável cavaqueio inserido nos seus hábitos frequentes. Hoje estão os mesmos cinco com dois novos amigos que substituem os que faltam, embora os amigos verdadeiros, como é o caso, sejam insubstituíveis.
O ponto de encontro é numa clareira, circundada e arbustos, aquecida por um sol de inverno que eles muito apreciam.
Estendidos no capim seco da mata, são eles o Rissol, o Pipoca, o Jimy, o Sheik e a Maruja.

Feitas as apresentações, Maruja confessa: - Lamento não ter conhecido os outros.
- Foram com os donos para o estrangeiro. Alemanha, não? – articulou o Rissol, virando-se para os outros.
- Não sei qual mas um, creio que foi para as Canárias…- adiantou o Jimy.
- Não interessa. Não estão e é pena.
- De acordo, Pipoca. Que me dizem dos incêndios deste ano?
- Calem-se! – abespinhou-se o Rissol.- Tudo que poderia ser evitado.
Sheik quebrou o silêncio.
- Nada me surpreende. Nem a tragédia nem as promessas, que se vão ficar por aí…
- O ideal, que nunca é feito, é anunciarem e repetirem a teoria e a prática vir au ralenti…Uma coisita ou outra para calar os subversivos e a seguir…segredo absoluto.- sentenciou Jimy.- Nem a imprensa fala mais sobre o assunto.
- Para quê? A imprensa o que quer são temas de “caixa alta”, que cativem audiências.
- Sim, sim, excitem a curiosidade.
- Para isso, nada melhor que os escândalos. – arriscou a Maruja.
Rissol aproveitou para coçar a orelha. Afugentando uma irrequieta vespa dourada.
- Eu cada vez mais me capacito duma grande verdade. E ninguém me contradiga a não ser com motivos óbvios.
- O que é? – inquiriram em uníssono.
- Apesar de estarmos em democracia…
Sheik interrompeu:
- Ditadura camuflada em democracia, queres tu dizer.
- Seja… mas o que eu acho é que em pleno século XXI, com todo esse progresso apregoado…
- Temos de convir que há, tem havido progresso.
- No que concerne a materialismo! – quase gritou o Pipoca.- Os valores morais perdem-se!
- Deixemos isso para a próxima. – prosseguiu o Rissol. – Dizia eu que nos vangloriamos de uma mudança de regime, de ideias democráticas, mas o obscurantismo permanece. Os programas televisivos encharcam-nos de novelas.
- E o pior não é isso. – cortou Sheik. – A interpretação nacional melhorou substancialmente. Os conteúdos dos textos é que são sempre os mesmos…
- Lá nisso…
- Mortes, traições, armadilhas, atentados, negócios corruptos… As novelas são decalcomanias umas das outras. Tudo isso o mundo oferece no quotidiano. Não há mais nada para inventar?
- Sem contar com as repetições na linguagem. – Maruja imita: “Achas? Não acho, tenho a certeza. “Tem calma. Como é que querem que eu tenha calma? Não vou nada ter calma”. E outras frases no género.
- Mas isso é o retrato do nosso dia a dia! - teimou Sheik.
Rissol deitou-se ao comprido e discordou:
- Mais uma prova da falta de capacidade inventiva. Mais um motivo para educar mentalidades no caminho dos nobres princípios, evitando a vulgaridade.
- As novelas são para divertir e não para educar. De resto, quando o fim não é desconcertante, sem muita convicção, acaba sempre bem…isto é, casam-se os amorosos depois de inúmeras experiências afectivas.
- Como nos contos de fadas, não é Jimy?
- Pois eu divirto-me mais com os debates dos políticos, principalmente quando falam todos ao mesmo tempo.
- Uns, para não percebermos nada, outros, que não concordam com coisa nenhuma, outros, umas vezes, sim, outras não e nós o povo.
- Pipoca, dissuade-te. Conforma-te. Desde que nada te falte, não queiras sempre mais. – atalhou o Sheik.
- As desigualdades continuam a existir e isso confrange-me.
Sheik arrematou:
- Com poucos dias de intervalo, deixaram de existir um empresário milionário e um artista da canção. E sabe-se lá quantos anónimos. Diferentes na vida, sim mas não desiguais na morte.
A despedir-se:
- “Tu és pó e em pó te tornarás”. Todos somos iguais no pó de que somos feitos e em que nos transformamos.

Encontro de Caniches XIII

(foto retirada e adaptada de lojaskd)


Os canitos têm hoje o seu cavaqueio na saleta da casa de um deles.
Rissol comenta:
- Que luxo de decoração! Isto faz-me pensar…
- O quê? - pergunta Jimy.
- Estamos numa democracia, certo?
Eles acenam com as orelhas e Maruja interrompe:
- Estamos?
Rissol prossegue:
- É de esperar que não haja diferenças de classe…
- Mas - reage Maruja.
- Fala-se na luta contra as desigualdades…e deparamos com…
Sheik casquina:
- Clero, nobreza e povo.
- Actualiza-te! A sociedade compõe-se de três classes, sim mas de ricos, classe média e pobres.
- Eu acrescentava a classe dos que vivem abaixo do limiar da pobreza. Passam fome e mais despidos que vestidos, dormem ao relento.
Pipoca interfere:
- Vocês desprezam o bendito rendimento de inserção social.
- Pergunta a um ministro se ele se contenta com isso e consegue subsistir.
Maruja muda de posição.
-Eles nem sequer aumentam o ordenado mínimo!
- Jimy as despesas do Estado têm que ser geridas conforme o orçamento aprovado, tal como num agregado familiar. Há que economizar.
- Não acreditas no que dizes. No consumo corrente, quem tem de abrir os cordões à bolsa é o povo, o remediado, que os menos favorecidos mantêm-se de pé pela caridade alheia, porque todas essas campanhas de solidariedade social só fazem nos Natais, e mesmo assim é o povo que é chamado a contribuir.
Rissol fungou, disfarçando um latido de revolta.
Pipoca tentando acalmar os ânimos, abana a cauda.
- Têm alguma sugestão?
Sheik respondeu:
- Julgo que interpreto o pensamento de todos se disser que aqueles que usufruem ordenados chorudos, amontoando fortunas, deviam ser despojados de um tanto que permitisse beneficiar outras famílias.
- Sim, o dinheiro está mal distribuído e pratica-se muita injustiça à sombra dele.
- Mundo perverso! – gritam encolerizados, Pipoca e Maruja.
- Homens maus e egoístas, melhor dizendo.- emenda Jimy
Rissol recorda que o País, com o actual governo e o actual e desempoeirado presidente da república.
- Ainda é prematuro cantar vitória…- acautelou-se Jimy
Pipoca atirou logo:
- Qual!? O presidente sabe inglês. O primeiro ministro sabe francês.
- Pois! – cortou Sheik. – Os do anterior regime eram doidos por idioma de vaca.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

KARATÉ - ARTE MARCIAL DE DEFESA


No dia 10 de Dezembro promovido pelo Karaté Clube de Gaia, realizou-se o Torneio de Motricidade, pelas 15 horas, com grande afluência de público.
Os participantes compreendiam as idades entre os 3 e os 15 anos e defrontavam um júri de espírito selectivo bastante rigoroso.
Mas para que estou eu a falar deste evento, tão normal e habitual nestas práticas desportivas?
É que chorei de comoção. E não escondi as minhas lágrimas.
O primeiro grupo a actuar integrava crianças dos 3 aos 5 anos. Nele se incluía o meu neto, Bruno Filipe. O pavilhão rebentou de aplausos e repetiram-se as felicitações. No peito de Bruno brilhavam as medalhas de participante e de 1º lugar.
Na carita bolachuda do meu pequenino resplandecia uma luminosidade peculiar dos inocentes, que apenas desejam expandir a sua liberdade e a sua expressividade idiossincrática. Natural, simples, autêntica, um exemplo a sublinhar na vida dos adultos.
Detenho-me a pensar que a arte marcial como defesa nos tempos bárbaros que vão correndo, devia constar do cardápio da escolaridade e não ser considerada uma modalidade somente possível a agregados familiares ricos ou de condições económicas mais favoráveis.
Seria tudo uma questão de unidade e inter-colaboração.
Desporto, artes, música não deveriam ser pagos aparte e abrir-se-iam caminhos para valores ocultos, de forma a tornar possível as crianças se expandirem e desenvolverem os seus dons.
Os sistemas governativos deveriam apostar mais nas nossas crianças.
A fim de que o País, que tanto alardeia esperança nas novas gerações, entre definitivamente na cruzada do progresso e dignidade sociais.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

RIO DOURO UM POEMA DE GLÓRIA

(foto tirada do site topdescontos)

Um dos bens mais preciosos da natureza é a água. Ao dispor do ser vivo, humano, animal ou planta, ela é uma riqueza indispensável. Eu adoro a água. Bebo-a e saboreiam-na todos os poros da minha pele.
Ultimamente, por vários dias, tomei contacto quase permanente com esse delicioso líquido, considerado um oásis nos desertos quado em córregos, surge à sombra de gigantescas palmeiras.
O enigma das nascentes transforma-se em ribeiros, riachos, lagos e lagoas, rios e afluentes, que a inteligência humana recria em fontanários, chafarizes, recantos fluviais e piscinas.
Com inspiração neste panorama global, falo hoje de um mini cruzeiro que fiz, durante sete horas, navegando pelo rio Douro desde o Porto até à Régua.
Extenso, vigoroso, marginado por espessa arborização, é um profuso e colorido postal ilustrado. Durante o percurso, pudemos reviver os registos que perduram numa história de factos e lendas, gravados pelos edifícios seculares, testemunhos em ruínas uns, outros adaptados à vida moderna.
São 8:30h. Uma neblina ondula por toda a marina e acaba por desfazer-se com o nascer do sol.
Entro no barco. Os nós das cordas desatam-se e a embarcação começa a deslizar, ganhando velocidade. Uma esteira luminosa, coruscante, debruada de espuma, abre-se para os lados da quilha e da ré. Sorvo a plenos pulmões a brisa fresca, capitosa, da corrente e deixo-me embalar pela voz do nosso anfitrião, descrevendo os pontos assinaláveis que rememoram outras épocas.
Passamos a Casa Branca de Gondomar, a vetusta localidade de Avintes e a ponte réplica da ponte da Arrábida, na foz do rio Sousa, um afluente do Douro. Outros barcos se cruzam com o nosso. Vou até à ré e recebo na cara fortes salpicos refrigerantes a contestarem os raios metálicos de um astro oriental, subindo sobre as nossas cabeças.
Divisa-se em paralelo connosco, a aldeia de Arnelas, a zona de tratamento de águas de Lever, a praia da Lomba, um fascinante areal bordejado por águas cor de líquen que nos convidam a flutuar.
É cedo para o almoço, servido a bordo, mas é tempo de um aperitivo. Como não podia deixar de ser, os cálices de vinho do Porto fizeram as honras da “casa”.
E eis a barragem de Crestuma.
Separados da proa por uma parede de vidro aberta pelo meio, assistimos ao erguer do navio, com muita lentidão e extremos de segurança, sobre o dorso da água silenciosa. É um intervalo que leva algum tempo, uma expectativa excitante para quem desconhece a manobra. O engenho do homem em destaque. Do homem sábio, inteligente ligando a paz ao progresso.
O barco desliza de novo, sereno e determinado.
Estão à vista a aldeia de Melres, as minas do Pejão e a freguesia de Pé Dorido, detentora da lenda que conta a travessia no rio de uma princesa que caiu e se magoou num pé. O povo comentava que ela, como consequência da queda, ficara com o “pé dorido”. Daí, a origem do nome ao lugar e de rio Mau às águas que o banham.
Agora, a foz do rio Paiva e o mosteiro de Alpendurada, transformado em hotel, ladeado por casas destinadas a turismo rural.
Antes, porém a célebre ilha do Amor, onde se evoca ainda a lenda de um casal jovem que morreu ao tentarem se salvar um ao outro de morrerem afogados nas águas caudalosas do rio.
Avista-se a freguesia de Palma, zona agrícola fértil pelas plantações de limoeiros, principal comércio da região mas infelizmente destruída pelas exigências da barragem do Carrapatelo. Outros vinte minutos para a repetição da manobra.
Almoço. Uma refeição com um serviço de requintado zelo e sabor enquanto a paisagem se desenrola, qual álbum de reminiscências.
Caldas de Rego onde existe o tratamento em águas térmicas e a ponte de Ermida, que liga Baião a Resende, a ponte mais alta sobre o rio Douro, são mais dois elos de referência seguidos do palacete onde o 1º Vice-Rei da Índia viveu e morreu.
De súbito, pintada numa rocha, surge a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem. Na época de D. Antónia, a Ferreirinha, como o povo chamava à aguerrida e incansável proprietária das vinhas do Alto Douro, os barcos rabelos transportavam as pipas do Porto até à Régua e não raro se expunham às intempéries do clima. Para obstar a acidentes e proteger essas viagens, principalmente, por neste local do rio o seu caudal ser bastante baixo e estreito, a sua fé entregava-os à devoção com a sua padroeira.
Terras de Moledo fecha o trajeto mas não o rio, que continua, belo e enérgico, até Espanha, onde nasce.
Moledo onde tudo está em ruínas, incluindo o Casino, aguardando que algum endinheirado remova os escombros e crie um novo painel recreativo e de lazer para os que nos visitam.
Termino mas deixo um aparte:
Se és um indivíduo do quotidiano, o dever que tens para com a água é poupá-la, não desperdiçá-la.
Se és romântico, para além da economia, deves saboreá-la quando tens sede, quando nela mergulhas o teu corpo.
Se és intelectual, regozija-te na contemplação das formosas geometrias da água em múltiplas formas, revoltas ou tranquilas.
Se és espiritual, interpreta na água a vontade universal que cria e movimenta toda a ordem na natureza.
Ama a água!

terça-feira, 6 de setembro de 2016

FÉRIAS


Desço as escadas de pedra, estreitas, escarpadas, desgastadas pelo tempo. A cada passo, rebola um calhau dos dezanove degraus que vão resistindo.
Atravesso o pátio de recreio forrado a xisto e o alpendre coberto por um telheiro. Ali, estão uma grande mesa rectangular rodeada de cadeiras, em plástico branco e uma mesa de ping-pong.
No assador e grelhador, construídos em tijolo, a um canto, estão pousadas as raquetas e as bolas.
Entro na casa pela kitchenette, equipada com todos os utensílios indispensáveis domésticos. Da pequena cozinha, passo à sala comum decorada com uma grande mesa de jantar, sofás, cadeirões, uma mesinha central, um plasma e uma lareira.
Visito a seguir os dois quartos de casal, o WC completo e o WC com duche e, por um lance de escadas em ferro, subo ao apartamento menor onde assentam quatro camas individuais.
É este o alojamento rural, antiga escola primária adaptada a turismo campestre, onde eu e alguns familiares, incluindo crianças, decidimos passar uma semana.
A solidão é absoluta.
Na vegetação selvagem, as poucas cigarras que rechinam temperam o silêncio. A brisa nocturna é tropical e os crepúsculos são anunciados por um quarto crescente nebuloso.
Os olhos distendem-se por enormes planícies de terra batida, serranias e ravinas arborizadas. O calor abafa. Mergulha-se nos rios e a pele arrepia-se com a água gelada.
A natureza é um mistério.
Encosta abaixo, arruma-se o lugarejo, com um grupo pequeno de casas, a capela, o cemitério. Os aldeões, mal o sol se põe, recolhem às suas camas. “Deitam-se com as galinhas”. Um ou outro idoso aproveita os últimos momentos do dia e refresca-se na soleira da porta.
No meio do asfalto, há sempre o mesmo cão enroscado. Vigia enquanto dorme. A sua mansidão contrasta com o som do sino ao badalar as orações vespertinas.
Não deixo de pensar no contraste existente entre esta paz paradisíaca e o inferno que se vive a quilómetros onde lavram incêndios que tudo devastam e onde a mão criminosa tem muitas capas para sua defesa.
Todos sabemos o que está por trás de tudo isto mas nada se faz. Porque se há um que tem a coragem de desmascarar não encontra nenhuma solidariedade colaborante e restringe-se ao sermão no deserto. O povo tem medo e continua a sofrer, ainda por cima, grato pelos apoios. Irónico e triste!
Desviando o olhar das labaredas e da fumarada que enegrece o horizonte, reclino-me numa esteira e contemplo o céu cor de pérola, onde apenas brilha uma estrela… talvez a da cauda da Ursa Menor.
E agradeço a Deus, ao Universo, à magia da Terra-mater que o ser humano teima em destruir, o maravilhoso dom de estar viva.

ENCONTRO DE CANICHES XII


- Afinal ele disse que mais vale remediar que prevenir e isso faz-me pensar. - Rissol alarmou-se.
- Estou a ouvir bem?
- Foi irónico. Não é o que os governantes preferem? Para saírem bem na fotografia? Se prevenirem não há espectáculo. Não mostram a sua disponibilidade…
- Se falasses no jogo de interesses… - contrapôs Jymy.
- Olha, somos só três. Que é feito do pessoal?
Rubi esclareceu:
- Foi tudo para férias!
- Com estes focos de incêndios? Só em casa, numa varanda, ao fresco da noite.
Rissol bocejou.
- Estou a pensar em emigrar.
- Arranjaste emprego?
- Não brinco, Jymy. Este país está uma lástima. Ainda poderíamos ser grandes em alguma coisa.
- No turismo. - lembrou Rubi - Na gastronomia. Até aparecem “master chef” infantis!
- Não, não! Somos grandes em muitas áreas, até talvez os maiores. Nos fogos postos. Na violência doméstica. Na criminalidade…
- Espera aí! - afligiu-se Jymy.
Há barbaridade sim nos instintos do português considerado pacato. E já nem falo na corrupção da alta finança…
- Pois! Faz-se, descobre-se, engendra-se um palco teatral de aparências correctivas ou punitivas e abafa-se o caso. O jogo de interesses permanece. E o silêncio enche muitas algibeiras.
Rubi emite um soluço.
- Lamento o rol das vítimas para quem justiça não foi feita.
- Porque o cidadão é acomodatício. Aborrece-se se é importunado. Só sabe comentar sentado numa poltrona.
- Ah! Temos as novelas para distrair. - cortou Rissol a desanuviar o ambiente.
- Para desenvolver o obscurantismo, melhor dizendo. As intrigas, as traições, os incidentes são sempre os mesmos. O baixo nível das novelas embrutece as massas. Muito conveniente.
- É melhor estar calado. Ver correr o marfim…
- Pois! És dos que não tem imunidade diplomática.
- Mas tenho em alta estima os valores morais, coisa que certas pessoas não conhecem, degradando as suas próprias origens, se algum verniz as sustenta.
- Em certos aspectos não é verniz. É fuligem.
Casquinam uma gargalhada.
Mas Rissol funga uma lágrima.
- Há alguém neste momento que precisa que se faça “justiça de Talião”.
A irritação de Rissol é abrandada por Jymy, que observa:
- Pode-se fugir ao juízo e sentença dos homens mas não à justiça divina. E é cá que se pagam, de uma forma ou de outra, todas as maldades que inspiram o génio humano à destruição do seu semelhante.

segunda-feira, 21 de março de 2016

ENCONTRO DE CANICHES XI


- Uf! Até que enfim nos reunimos!
Rissol acomodou-se, esperando os amigos.
- Como é que passaram o Carnaval? – perguntou Jimy.
- Qual deles? – ironizou Lulu. - O das máscaras ou dos nossos dias? Gigi ladrou o que lhe valeu uma mordiscadela do Filo.
- Devem convir que Carnaval é o que se passa neste país. Ninguém precisa de andar fantasiado porque vivem as fantasias uns dos outros, à custa do próximo se divertem; se distraem com as notícias de arromba; criticam a infelicidade alheia e quem tem tudo arvora uma cara de comiseração por quem tem pouco ou nada e pensa no seu farto umbigo.
Gigi suspirou e calou-se.
- Ele tem razão - alvitrou Filo.- Eu sei de um caso…
- Só um?
Jimy mudou de posição, sacudindo a coleira.
Lulu dispôs-se a falar.
- Posso?
- Claro! - responderam em coro.
- Então… o irmão do meu dono foi a uma consulta, que estava marcada, pagou o serviço e esperou na sala. Esperou, esperou e o tempo dilatou-se de tal modo que ele, vendo que o não chamavam, foi saber a razão da demora. Responderam-lhe que não tinha nada marcado. A empregada da administração folheou papelada e nada…
- A consulta tinha-se eclipsado… - interrompeu Rissol.
- Entretanto a médica atravessou o corredor e o tipo correu para ela. Já o atendo, já o atendo, disse a doutora com um sorriso até às orelhas. Ele esperou de novo, muito atrapalhado, sem dizer nada, não fosse estragar.
- Mais do que estava estragado. - cortou Jimy.
- Que barafunda! - admitiu Rissol.
- Passado um século, o homem insistiu, repetiram-lhe que não havia nada registado até que a médica saiu do consultório. Tinha acabado o serviço. E ainda mandou vir com ele por ser casmurro e ignorar a informação.
- Mas aceitaram-lhe o dinheiro da consulta.
- E não lhe devolveram?
- Acho que sim.
- Também era melhor.
- E marcaram-lhe outra, não?
- Não sei se ele quis.
- Eu não queria mais nada com esses. Ainda me cortavam uma orelha, julgando que eu precisava de ser operado às amígdalas!
- Ah! Mas eu sei de uma melhor.- exclamou Rissol.
- Conta, conta! – gritaram em uníssono.
- Passou-se numa escola primária. Como o miúdo não quis comer a refeição da cantina, a educadora obrigou-o a manter a comida na boca durante a tarde toda.
- Brrr! Eu trincava-lhe uma canela.
- E os pais, que fizeram?
- Creio que a ameaçaram…
- É por essas e outras que as pessoas abusam. Era logo denunciá-la a quem de direito. Assim, vai cometer as mesmas atrocidades.
- E assim vai este país. - gemeu Gigi.
- E o mundo…- corroborou Jimy.

Encontro de Caniches X


- Olá, amigos! Cá estamos de novo… Oh! Que focinho é esse? É assim com essa expressão de fadiga que vão receber o 2016?
- Olha, Rissol, olha à tua volta. Anda tudo doido. - disse o Jimy.
- Como assim?
- Vais aos super mercados vês as prateleiras limpas. Nas lojas, se guardas as compras para o fim, não encontras sortido porque arrebataram tudo.
- Ainda dizem que há crise… - lamentou-se o Rubi.
- Nas filas, alongam-se por horas e prolongamentos, os compassos de espera para pagar…
- Pára, pára. Isso é o menos, isso sabemos nós. O que é deplorável é que hoje derretem-se ofertas e cumprimentos mas é tudo superficial. Amanhã, o quotidiano volta à estaca zero. Estamos só os três, porquê?
- Os outros foram passar as festas fora de casa, com os donos.
- Vivemos uma eterna fachada. - comentou tristemente Rubi.
- Deixa de ser derrotista. Na humanidade, há bom e mau.
- Ora se não houvesse não distinguias nem um nem outro.
- Onde festejas a passagem do ano?
- Para quê? Festejar a vinda de outro pior?
- Pessimista.
- Que julgam vocês? Porventura a sociedade está melhor? Vai aperfeiçoar hábitos? Cada qual vai continuar a pensar no seu umbigo e o resto é tudo treta.
- E os corruptos vão ampliar as galerias; os violadores da moral vão prosseguir na sua maldade e sadismo. E tudo que está mal, vai continuar mal se não piorar.
- E depois só se vê gente frívola. Tem alguma piada ostentarem a sua vida no Facebook, aquilo que devia ser resguardado na intimidade do lar e da família?
- Depois é um despique…
- Uma batalha campal…
- Simplesmente ridículo.
- Vocês têm é pensamento de antiquados.
- Não! Conservador posso ser mas os tempos modernos, com o progresso, destroem as nações, fomentam a ambição e a violência.
- Progresso, dizes tu?... Progresso do retrocesso. Adeus, amigos. O melhor tempo é o que passo a dormir.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Encontro de Caniches IX


- Meninos! O verão chegou! – atirou o Rubi, sacudindo o dorso encaracolado.
- Tens de ser tosquiado. – comentou Lulu.
- Isso é que era bom. Prezo muito o meu aspecto.
- E se cantássemos os “parabéns a você” - lembrou o Rissol.
- Quem é que faz anos?
Todos se entreolharam; apenas Jimy permaneceu sem se mexer.
- Ah! És tu! – disseram em coro.
Ladraram os parabéns mas no final, Gigi perguntou:
- Escreve-se a palavra com acento ou sem ele? Acento agudo no e?
- Quê! Aderiste ao Acordo?
Rissol riu.
- Isto é das coisas mais caricatas que imaginar se possa. Lá em casa, todos escrevem de maneira diferente. Os mais velhos porque se habituaram; os mais novos porque os obrigam nas escolas.
- E assim é um Acordo sem acordo…- gargalhou Lulu.
-Se o mal fosse esse. Pode-se dar erros à vontade que ninguém nota.
A mim o que me preocupa é o estado deste país. – aventou o Jimy. – Ninguém se revolta. Dantes, lutava-se por objetivos e por ideais. Havia união e cumplicidade. Quando os sistemas não correspondiam aos interesses do povo, este criava grupos de resistência activa e muitas revoluções salvaram a nação das vilezas cometidas.
- Mas hoje também se luta, se reivindica…- objectou Gigi.
- A resistência é passiva. Os movimentos de massa só barafustam. Nem as ameaças têm muito peso…
- Mas… - ia a dizer um deles.
- O que convém é distrair o povo. Futebol, Big Brother, novelas, arrastam multidões e enquanto as gentes se divertem, o sistema actua como quer.
- E há as festas regionais com os comes e bebes e folclore…
- Mas isso contribui para a manutenção dos recursos tradicionais da região.
- Mas o futuro? Que irá ser da nova geração? A desarvorar para o estrangeiro? Porque a juventude que fica…olha…anda por aí, com as crises de ansiedade que conduzem a outras situações amargas.
Rissol levantou-se.
- A conversa vai boa mas já me despeço. Ciau!
- Ciau! – disseram em uníssono.
E todos se cingiram às suas trelas.